Há momentos, ao longo da história de qualquer série, em que é necessário frear a velocidade dos acontecimentos, deixar os personagens respirarem e a narrativa reajustar. Desde seu início, Outlander soube administrar com maestria essa lógica de compensação. Para cada episódio impactante, um ou dois episódios mais pausados em que eram colocadas em evidência a dinâmica da história ou a contextualização de um novo ápice. Quando retornou para a exibição da segunda metade de sua primeira temporada, a série passou a pisar em terreno ainda mais perigoso, com o agravamento de sua jornada. Segredos foram revelados, a dinâmica básica da narrativa foi alterada e a violência passou a ter participação maior. E, depois de tantos acertos, de tantos momentos incríveis, dignos de serem celebrados, The Watch representou um grande tropeço de Outlander, que se tornou mais decepcionante por ser resultado de um erro de cálculo impensável frente a lógica firme e coesa da série.
O cliffhanger deixado no último episódio foi uma bela forma de recuperar a tensão no show, depois de um episódio puramente emocional e pausado como Lallybroch, além de ter sido uma ótima incógnita para os leitores dos livros. A introdução de Taran MacQuarrie, o líder dos bandidos, junto à decisão de trazer Horrocks de volta a trama, criou um ambiente hostil para Jamie em seu lar e isso era necessário para relembrar-nos de que existe um universo contrário ao casal de protagonista fora dos limites de Lallybroch. Para completar o cenário de tensão latente, Jenny entra em trabalho de parto com o bebê fora da posição correta. E a junção desses dois plots foi o que tornou esse episódio em algo que girou em círculos sem avançar pela maior parte do tempo, fazendo a própria resolução das contendas pontuais algo aleatório.
Outlander é uma série que possui dois protagonistas definidos, no entanto o elenco geral e o conjunto das diversas tramas coadjuvantes é que fazem a trama se tornar intrigante a história avançar. E, do primeiro até o décimo segundo episódio, esse emaranhado de forças foi administrado elegantemente em seu favor. Dougal, Collum, Geillis, Frank, Black Jack, a violência implacável da época, o conservadorismo, a misoginia e o contexto histórico do início do século XVIII criavam uma atmosfera de tensão e curiosidade até mesmo nos capítulos menos explosivos (sendo By The Pricking of My Thumbs o melhor exemplar nesse aspecto). The Watch manteve Jamie, Claire, Jenny e Ian dentro de uma bolha muito particular que não justifica a existência dos cinquenta minutos para contar a história explorada. Mas aí vem a pergunta: Lallybroch fez a mesma coisa, por que, então, vocês estão reclamando agora, Douglas e Cléverton?
A resposta é simples: no episódio anterior, a apresentação de Jenny e Ian, a extensão do lar de Jamie e a exposição de facetas até então desconhecidas de Randall eram o suficiente para garantir um episódio digno, encorpado e necessário. O grupo de bandidos e Horrocks não possuem o lastro de temor provado, emblemático e fascinante do capitão inglês. Além disso, apesar de Jenny ser uma personagem importante, a complicação de sua gravidez não carregava a urgência frente ao universo restante a ser abordado. Dessa forma, The Watch se assemelhou mais a um filler por ter preenchido seu tempo de exibição com momentos repetitivos (foi cansativo o quanto que foi reafirmado que Jamie tinha um preço por sua cabeça, por exemplo), apesar de ter finalizado com um belo gancho.
Seria injusto, no entanto, dizer que esse décimo terceiro capítulo não entregou coisas boas, porque havia Caitriona Balfe e Laura Donnelly com uma química rica e palatável. Se os homens da casa estavam ocupados em lidar com bandidos, traidores e emboscadas, as mulheres voltavam suas atenções para o parto de Jenny. Claire é uma exímia conhecedora de ervas medicinais e práticas curandeiras. Seu tempo como enfermeira na frente de batalha a auxiliou com tudo que precisava saber sobre feridas e cuidados médicos quanto a homens doentes, mas nunca lhe havia dado a chance de fazer um parto. A preocupação com a cunhada é nítida e a falta de recursos da época, somada a inexistência de alguém mais experiente no assunto torna tudo mais complicado. Devemos bater palmas para a interpretação de ambas as atrizes e ressaltar que Laura Donnelly continua dando show com a carga emocional que atribui a Jenny. É muito fácil recordar algumas passagens dos livros e imaginar Laura como a personagem.
The Watch, além de nomear o episódio, reflete a alcunha dos milicianos que protegem as terras de Lallybroch de ladrões de gado e soldados ingleses. Isso é claro quando são pagos, caso contrário, roubam o gado eles mesmo. A presença de pessoas dessa estirpe ameaça a Jaime e transforma seu lar em local hostil. A mínima menção a seu verdadeiro nome poderia significar um belo prêmio para os bandidos, que teoricamente, não hesitariam em resgatar. O problema fica maior com a chegada do desertor do exército inglês que conhece herdeiro de Broch Tuarach. Horrocks é um mau-caráter dissimulado que se aproveitaria de qualquer tipo de vantagem que poderia tirar da situação. Acreditamos que a trama acertou em trazê-lo de volta, conseguimos sentir o medo de Jaime e vê-lo pisando em ovos dentro de sua própria casa.
O problema maior foi o ápice da tensão terminar em uma conversa na mesa de jantar onde todos segredos são revelados ao homem mais perigoso possível. Nesse momento, aguardávamos a chegada de Murtagh e alguns homens Mackenzie para colocar os bandidos para fora, mas não. Ian e Jamie foram arrastados para o meio do plano de saque dos mercenários. Não bastasse termos os dois homens sendo levados para o meio de emboscada planejada por um ex-redcoats, descobrimos que Taran MacQuarrie é patriota e já esteve preso, preferindo ver Jaime morto do que estragá-lo para os ingleses. Quer dizer, toda a desconfiança criada envolta do líder dos Watchs era vazia. Taran não era tão mal assim e aí atingimos o máximo de anticlímax do episódio. É claro que os demais membros do grupo poderiam trair seu líder e decidir por entregar Jaime, porém a cena na qual o mocinho lida sozinho com eles diminui, e muito, a hipótese de associarmos os “bandidos menores” a uma ameaça significante.
A forma com que MacQuarrie vê o mundo arremete a visão do fora da lei americano. O cara que sofreu o suficiente na vida e não se encaixa na sociedade. O eterno guerreiro que não consegue paz e precisa da ação para se sentir vivo. Existe um elo entre ele e Jaime, talvez por ambos terem familiaridade com a vida na estrada ou por serem guerreiros. A verdade é que Taran consegue inspirar o Sr. Fraser e se não fosse por Claire, ambos não teriam nada a perder ao trilhar por esse caminho. Com a revelação da traição de Horrocks e que a embosca estava destinada para retaliar os Watchs tivemos a captura de Jaime e Taran pelo exército inglês. Esse evento nos colocou de volta ao desenvolvimento do universo da série e da trilha percorrida pelo livro. E resta esperar que com o casamento da trama de Claire, Jamie, Jenny e Ian com a história geral da série coloque as séries, de novo, nos trilhos e nos entregue três episódios fantásticos de encerramento, porque material do livro para realizar isso não vai faltar.
P.S.: Que momento lindo, doce, sutil e emocionante o que Claire conta ao marido que é infértil. Caitriona brilhou muito nessa cena, que representou o auge de seu sentimento de frustração materna ao acompanhar o trabalho de parto de Jenny.
P.S.: NÃO CONTINUE SE AINDA NÃO LEU O LIVRO – Ainda aguardamos pacientemente o aparecimento de Murtagh, já que o sisudo highlander tem um papel importante a desempenhar nessa reta final de temporada.
P.S.: NÃO CONTINUE SE AINDA NÃO LEU O LIVRO – MELDELSALAHJAHABENÇOADO, tá chegando a cena da tortura.















