Sobre a licitude de se fazer aquilo que é errado.

É correto ou, ao menos, moralmente aceitável infringir a lei, violar as regras preestabelecidas da sociedade em nome de um “bem maior”? Historicamente, como bem demonstrou o beligerante século XX através de seus regimes totalitários, buscar justificar o desrespeito aos direitos individuais por meio de uma “justa e louvável causa” é a receita certa para o morticínio e para a erosão total dos direitos democráticos. Somente o “socialismo”, ou o que se convencionou chamar assim, matou dezenas de milhões de pessoas no século passado. Tudo por causa do anseio por um “mundo melhor”, tudo porque pessoas que se achavam “donas da verdade” se arrogaram ao direito de transgredir a lei, pois, como elas mesmas pensavam, estavam inexoravelmente certas e em busca do que era mais justo e igualitário. Porém, aqui vale a ressalva, como saber o que é melhor para os outros? Como posso ter a exata certeza de estar irremediavelmente certo?

Por outro lado, incorremos sempre no risco de nos tornarmos “escravos da lei”, escravos de uma lei morta que não beneficia em nada a sociedade, uma lei “embalsamada”, cheia de perfumes e aromas por fora, mas que por dentro traz o produto putrefato de uma sociedade agonizante. Então, neste caso, dadas as circunstâncias, seria legítimo desrespeitar o “Império da Lei” vigente? Eis aqui um caso curioso para se analisar.

Muitos dizem que as “regras foram feitas para serem quebradas”, porém eu não compartilho tal pensamento, pois as regras existem por um motivo básico: colocar a “ordem na bagunça”. As leis tornam a nossa vida possível, elas organizam a nossa vida em sociedade, portanto, toda vez que uma lei é transgredida quem sofre diretamente o abalo é a própria “Democracia”, esta entidade quase metafísica em que colocamos as nossas débeis esperanças.

Transgredir é necessário muitas vezes, principalmente nos casos em que uma população vive sobre o jugo de uma elite ditatorial violenta e autoritária, porém, nos demais casos, quando o país é regido por leis democráticas e/ou republicanas, a transgressão torna-se perigosa, pois ninguém deve se alçar acima da lei. Neste caso, o melhor é lutar, não com violência e intimidação, mas com as regras do jogo democrático, participando da vida política de seu país. Se uma lei não é boa, tente alterá-la, usando para isso os trâmites legais. Alguns poderão até dizer que isso é impossível, pois se trata de um “jogo de cartas marcadas”, ou seja, o “jogo” está de tal forma viciado que é humanamente improvável conseguir alterar algo dentro deste injusto “sistema de coisas”, no entanto, para que haja o fortalecimento da democracia, precisamos jogar um jogo limpo, só assim conseguiremos fortalecer as nossas instituições democráticas. Sempre que desrespeitamos as leis de nosso país estamos literalmente dizendo a todos que a democracia não vale a pena, o que é muito lamentável. A democracia pode não ser o governo dos sonhos, mas é certamente o melhor sistema que a humanidade conseguiu criar até hoje.

E se você leu até aqui, muito provavelmente deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com a “Season Finale” de Madam Secretary. Bem… eu respondo: tudo e nada. O que eu estou fazendo é uma extrapolação do texto, buscando ampliar o contexto do que foi trabalhado neste último episódio, colocando elementos extratextuais que possibilitem o melhor entendimento da trama e da abrangência do conteúdo nela existente. A série aborda a realidade política americana, neste sentido, podemos sempre fazer algumas comparações com a realidade política brasileira. De fato, a política americana é, em muitos aspectos, muito diferente da política brasileira, mas sempre há alguns pontos de intersecção possíveis. Como por exemplo, neste episódio, o caso do desrespeito da lei, que no Brasil, infelizmente, está se tornando cada vez mais comum.

Elizabeth Faulkner McCord em sua gana de fazer justiça, tentando a todo custo manter a paz entre as nações, acaba descuidadamente infringindo a “Lei de Espionagem” ao compartilhar com o seu marido Henry informações confidenciais do governo norte-americano. O interessante disso é que Henry decide mentir para o Senado para salvaguardar a imagem e o cargo de sua esposa. Henry, um homem honesto e de princípios morais sólidos, abstém-se da verdade para proteger a sua família. Porém, no último instante, Elizabeth, num rompante fulguroso, toma as rédeas dos acontecimentos, e faz o seu testemunho da “verdade”. Ela assume a ilegalidade de seus atos, expõe as razões pelas quais tomou tal atitude, e diz que, se preciso fosse, faria tudo novamente. E após alguns momentos de incerteza sobre o futuro de Elizabeth, recebemos a notícia de que o Departamento de Justiça irá arquivar o processo, tendo em vista que o seu procedimento visava um “bem maior” e que ela contou também, por causa de seu gesto de sinceridade, com um amplo apoio popular. A transgressão de Elizabeth foi vista como algo bom e louvável, mas convém lembrar que isso se deve principalmente ao caráter irrepreensível da protagonista, não podemos fazer da exceção uma regra.

Provavelmente na próxima temporada ainda ouviremos falar muito sobre o Irã e o recém-assinado acordo de paz. Como Juliet disse a Elizabeth: “Você é a traidora”. Tentando evitar que o Irã conseguisse construir armas nucleares, Elizabeth pode ter criado as condições necessárias para que o Irã siga com seu objetivo bélico. Nada é assim tão simples, o mundo sempre foi e continuará sendo um lugar perigoso.

Tivemos a chance de ver bons flashbacks sobre o tempo em que Elizabeth trabalhava como uma agente da CIA. Verificamos que Elizabeth melhorou em muito o seu vestuário e amadureceu bastante desde aquele tempo. Com transições muito bem-feitas, os flashbacks nos mostraram que cada um responde aos traumas sofridos de uma forma diferente. Elizabeth posicionou-se de forma mais sensata, ela soube lidar melhor com marcas deixadas pelo tempo e pela adversidade, enquanto que a sua amiga Juliet acabou somatizando os problemas, não conseguindo assim superá-los. No entanto, não é porque Elizabeth soube reagir melhor aos acontecimentos da vida que ela esteja em posse da verdade. Aliás, só tempo dirá quem realmente está certo.

Quanto a Stevie, aquela que está “voando para a tempestade de Starrison”, como bem disse a adorável Allison, teremos que esperar até a próxima temporada para vermos os desdobramentos deste novo relacionamento entre a filha mais velha dos McCord e Harrison, o filho “problemático” do presidente Dalton. Com certeza os paparazzi irão “cair em cima”.

Para encerrar, em minha avaliação pessoal, acho que Madam Secretary teve um excelente primeiro ano, há alguns problemas é claro, mas, de modo geral, a série se saiu muito bem. Se por um lado tivemos alguns líderes mundiais muito caricaturais e situações pouco prováveis, por outro, tivemos temas relevantes e muito importantes para a análise da atual situação política mundial. Por ser uma série política, Madam Secretary não tem um grande apelo em nosso país, o que é triste, pois a política é uma das chaves fundamentais para a compreensão do mundo e para a devida emancipação do homem enquanto ser social. Ao longo desta temporada, nos deparamos com excelentes reflexões sobre temas atuais, então, espero sinceramente que o aprendizado adquirido nesta temporada frutifique e não se torne apenas mais um “quadro na parede” da memória, um quadro esquecido e empoeirado que ninguém quer mais.

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