No último dia 14 os principais filmes do festival de Cannes foram anunciados, nessa que será a 69ª edição daquele que é considerado por muitos o evento de cinema mais prestigiado e importante do mundo.

O festival terá seu principal júri presidido por ninguém mais ninguém menos que George Miller, o diretor que ano passado sacudiu o mundo cinematográfico com seu épico de ação Mad Max: Fury Road. Será ele que, ao lado dos outros (e ainda não anunciados) membros do júri, decidirá quem levará a cobiçada Palma de Ouro.

Quem entrou na Mostra Competitiva, afinal? É aí que nós brasileiros podemos ficar orgulhosos.

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Aquarius é o segundo longa-metragem ficcional do diretor Kleber Mendonça Filho, que em 2012 chamou a atenção do mundo pelo seu O Som ao Redor. Dessa vez ele tem em seu elenco como protagonista a estrela Sônia Braga, interpretando uma senhora que tenta manter a propriedade de sua casa enquanto uma companhia a pressiona para vender o terreno após ter comprado todos os prédios ao redor (alguém se lembrou de Up?). Vamos aguardar o desenrolar dos acontecimentos: dependendo do sucesso do longa, Mendonça pode despontar internacionalmente da mesma forma que Padilha.

Da minha lista de filmes mais antecipados na coluna passada, Loving, The Neon Demon e It’s Only the End of the World entraram na Mostra Competitiva. Vamos analisar brevemente os outros títulos, focando mais no pedigree por trás deles:

AMERICAN HONEY, de ANDREA ARNOLD: A diretora é prestigiada no circuito alternativo americano, além de já ter vencido um Oscar por Melhor Curta-Metragem. Em Cannes, já teve dois Jury Prizes’, uma espécie de medalha de bronze no festival. No elenco, temos nomes como Shia LaBeouf e a revelação do ano passado Arielle Holmes, estrela de Heaven Knows What.

ELLE, de PAUL VERHOEVEN: Poucos diretores tem um currículo tão discrepante como Paul Verhoeven, e é impossível o que sairá dessa vez. Para seu novo projeto o cineasta foi atrás de Isabelle Huppert, a Meryl Streep do cinema francês. Aguardemos.

FROM THE LAND TO THE MOON, de NICOLE GARCIA: Temos aqui uma diretora francesa com uma filmografia já extensa, sendo essa sua quarta tentativa na Mostra Competitiva. Até agora, saiu de mãos abanando. Será que a presença de Marion Cotillard no elenco irá ajudá-la?

GRADUATION, de CRISTIAN MUNGIU: Quando se fala em cinema romeno, Mungiu é um dos primeiros nomes a serem citados. Vencedor da Palma de Ouro pelo aclamadíssimo 4 Months, 3 Weeks and 2 Days, o diretor é um dos nomes estrangeiros de maior peso no festival esse ano.

THE HANDMAIDEN, de PARK CHAN-WOOK: Oldboy é um dos filmes estrangeiros mais aclamados desse século. Park teve em seu último filme um belo tropeço, ao adentrar a língua inglesa com Stoker. Voltando a suas raízes sul-coreanas com um romance criminal, o diretor conquistou um lugar na Mostra Competitiva.

I, DANIEL BLAKE, de KEN LOACH: Um dos diretores britânicos independentes mais prestigiados da atualidade (seria inútil enumerar aqui seus prêmios, que remontam até a década de 70), Loach retorna para Cannes já tendo uma Palma de Ouro nas mãos.

JULIETA, de PEDRO ALMODÓVAR: Dispensa apresentações. O diretor espanhol já tem prêmios por direção e roteiro em Cannes, mas nenhuma Palma. Seu último longa, I’m So Excited! foi ridicularizado pela crítica, mas todos estão prontos para voltar a amar o cineasta.

THE LAST FACE, de SEAN PENN: Esse é o primeiro trabalho de direção do famoso ator americano após Into the Wild, em 2007. No elenco, Charlize Theron e Javier Bardem. Alguns acusam Cannes de colocar o filme de Penn na Mostra Competitiva para aumentar o “red carpet value” com algumas estrelas americanas. Veremos.

MA’ROSA, de BRILLANTE MENDOZA: Após a presença filipina de Lav Diaz em Berlim, o país asiático segue mostrando sua força com um título do prestigiado Mendoza. O cineasta já venceu um prêmio de direção em Cannes e passeou por todos os mais importantes festivais europeus.

PATERSON, de JIM JAMURSCH: Outro diretor americano independente de peso, Jamursch tem um rico histórico no festival de Cannes. Após o bem-sucedido Only Lovers Left Alive, ele aposta aqui em Adam Driver e, surpresa, em Golshifteh Farahani, estrela do estupendo About Elly do iraniano Asghar Farhadi.

PERSONAL SHOPPER, de OLIVIER ASSAYAS: Após ter uma ótima ressurgência com Clouds of Sils Maria, o diretor francês colabora novamente com Kristen Stewart numa “história de fantasmas”. O fandom vai à loucura.

STAYING VERTICAL, de ALAIN GUIRAUDIE: Após vencer o prêmio principal da mostra Un Certain Regard com Stranger by the Lake, o diretor francês foi promovido ao escalão superior de Cannes.É sua primeira vez aqui, uma oportunidade que, no circuito europeu de cinema, não pode ser desperdiçada.

SIERANEVADA, de CRISTI PUIU: Mais um filme romeno! Puiu  também venceu um prêmio Un Certain Regard (por The Death of Mr. Lazarescu) e, após maturar mais um pouco, faz sua estreia na Mostra Competitiva. O cinema da Romênia vem dominando o cenário europeu nos últimos anos, sem dar qualquer sinal de cansaço.

SLACK BAY, de BRUNO DUMONT: O diretor francês espantou a todos ao abandonar sua filmografia dramática na bizarra comédia Li’l Quinquin. Deu certo, e agora ele continua nesse clima com seu novo longa, dessa vez recrutando Juliette Binoche para sabe-se lá o que virá pela frente.

TONI ERDMANN, de MAREN ADE: A diretora alemã, também conhecida por suas colaborações com o português Miguel Gomes, dessa vez abandona sua terra natal em favor do festival francês. É sua estreia aqui, tanto na Mostra Competitiva quanto em Cannes em si.

THE UNKNOWN GIRL, de JEAN-PIERRE DARDENNE e LUC DARDENNE: Se você perguntar qual é o diretor mais badalado em Cannes, existem duas opções: Michael Haneke ou os irmãos Dardenne. Após nos entregar o fabuloso Two Days, One Night, a dupla não dá sinais de cansaço. Já são duas Palmas de Ouro no bolso, sem contar outros tantos prêmios “menores”.

Exploraremos esses títulos mais a fundo quando o festival começar. Por ora, algumas reviews para vocês:

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Batman V Superman expõe com mais claridade do que nunca os problemas do conceito de universo compartilhado. Emaranhado em diversos fios narrativos, o filme se propõe a servir como uma continuação de Man of Steel, apresentar o personagem do Batman, introduzir com variados graus de atenção os personagens de Wonder Woman, Lex Luthor e outros membros da Justice League, criar uma rivalidade entre Batman e Superman… O resultado é um primeiro ato confuso e extremamente mal montado, com cortes que zapeiam de um lado para o outro sem muito senso de coerência. Pelo menos os momentos iniciais, com a exibição do epílogo de Man of Steel a partir do ponto de vista de Bruce, valem a pena. Depois disso, entretanto, somos torturados com o Lex Luthor de Jesse Eisenberg, que parece ter calibrado sua atuação para irritar ao máximo o expectador. Até mesmo sua intervenção na narrativa não gera bons frutos: toda a construção dos motivos pelos quais o combate entre Batman e Superman acontece (supostamente o ponto central do filme) é frouxa e não resiste ao menor escrutínio do público. Ao fim de tudo temos outro dormente espetáculo de CGI, mas pelo menos sua presença é compensada por algumas ótimas cenas de combate mano-a-mano que nos lembram do bom olho estilístico que Zac Snyder às vezes tem. Avaliação: ★★

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The Lady in the Van ilustra com a sempre lendária presença de Maggie Smith a vida de uma moradora de rua que, com sua van amarela, passou 15 anos estacionada na frente da casa de Alan Bennett. Alan é um escritor que vivenciou essa história na vida real, tendo inclusive escrito o roteiro do longa dirigido por Nicholas Hytner. No filme ele é interpretado por Alex Jennings, que tem a ingrata missão de manter o nível do projeto diante da magnética presença de Smith. A atriz britânica é charme puro, interpretando uma personagem sem qualquer senso de higiene ou de educação que sem cerimônia instala-se na garagem de Bennett. O filme é bem sucedido em sua maior parte, fazendo algumas brincadeiras incomuns com o personagem de Bennett e mantendo-se distante dos clichês do “feel good movie” ao empregar um roteiro sofisticado e cheio de farpas (comumente proferidas pela protagonista mendicante). Bem, pelo menos até o final. De qualquer forma, The Lady in the Van é uma experiência agradabilíssima e uma ótima desculpa para passar mais tempo apreciando os talentos de Maggie Smith. Avaliação: ★★★½

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Mediterranea é o primeiro de muitos filmes que eu provavelmente verei sobre a crise migratória que atualmente é o maior problema humanitário da Europa. Dheepan, vencedor da Palma de Ouro, e Fire at Sea, que levou o Urso de Ouro recentemente em Berlim, também tratam do assunto, mas por coincidência acabei conferindo essa produção mais modesta do diretor Jonas Carpignano primeiro. O filme se centra no protagonista Ayiva, estupendamente interpretado por Koudous Seihon, que é um refugiado que parte da Líbia para a Itália numa viagem perigosa e impiedosa. Na companhia de seu amigo Abas, Ayiva busca um emprego e enfrenta as dificuldades de não ser lá muito bem-vindo em solo italiano. O longa é modesto e segue de forma linear uma história que deve ser compartilhada por muitos refugiados na vida real. Seu trunfo é a atuação central de Seihon e o comprometimento em não sensacionalizar a situação, evidenciando as complexidades do problema e mantendo o foco no protagonista a todo o tempo. Avaliação: ★★★½

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Em 10 Cloverfield Lane a loucura de um fanático do apocalipse é colocada à prova quando a personagem de Mary Elizabeth Winstead sofre um acidente de carro e acorda em um bunker, presa à uma corrente e informada pelo seu captor (John Goodman) de que o fim dos tempos realmente chegou. Deve ela acreditar no que o seu anfitrião lhe diz? No filme dirigido pelo debutante Dan Trachtenberg, Goodman certamente torna essa tarefa difícil: sua atuação é com facilidade o melhor elemento do filme, construindo com crescente desconforto um personagem que alterna loucamente entre o racional e o lunático. Sua presença inclusive cria uma sombra sobre o restante do (escasso) elenco: John Gallagher Jr. tem pouco tempo para se desenvolver e a narrativa de Winstead, apesar de coerente e bem construída, é manjada e nem de longe tão envolvente quanto a de Goodman. Não é problema: em seus primeiros atos 10 Cloverfield Lane dá um espetáculo como filme de suspense, surpreendendo o expectador e criando um ambiente de constante desconfiança e terror. É no desfecho que, infelizmente, o longa perde o rumo. Mesmo assim, tudo o que antecede os desnecessários momentos finais certamente torna o filme uma ótima escolha para o cinema. Avaliação: ★★★½

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Eye in the Sky é uma ótima surpresa em um mercado que atualmente não produz muitos filmes bons de suspense. Com um elenco sólido o filme de Gavin Hood explora um tema (por enquanto) relativamente novo no mercado cinematográfico, que é a guerra com drones. A nova tecnologia não é utilizada aqui apenas como floreio técnico, mas ajuda a construir um retrato mais amplo e exaustivo da plot central do filme, que envolve a captura de terroristas coordenada por uma força conjunta entre EUA e Reino Unido. Alan Rickman, Helen Mirren, Aaron Paul e Barkhad Abdi integram a narrativa e estão em diversos lados da missão, que começa de forma simples e se desenrola num campo minado de questões éticas e decisões dificílimas. Tudo é levado em consideração, e o filme é muito bem-sucedido ao criar os momentos de tensão que vão se acumulando impiedosamente diante do expectador. Eye in the Sky explora questões de legalidade, importância da vida e até mesmo burocracia (essa de forma inesperadamente cômica). Seu calcanhar de aquiles é o sentimentalismo barato que envolve o ponto central do conflito, uma garotinha vendedora de pão que involuntariamente se vê colocada em meio à operação antiterrorista. Avaliação: ★★★½

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Hail, Caesar! é, sem sombra de dúvidas, um filme dos irmãos Coen. Explorando o fantástico mundo de Hollywood nos anos 50 com o característico estilo de comédia da dupla de diretores, o longa vai ziguezagueando por diferentes tons e narrativas ao acompanhar o personagem de Josh Brolin, um chefe de estúdio cujo trabalho é resolver os mais variados e inusitados pepinos. Uma estrela de filmes “aquáticos” (Scarlett Johansson), um regionalíssimo ator de filmes western (Alden Ehrenreich, destaque absoluto), um dançarino despojado de musicais (Channing Tatum), um prestigiado intérprete que é raptado por uma quadrilha desconhecida (George Clooney)… A lista segue infindável, e Hail, Caesar! é prejudicado em certos momentos pela simples loucura de seu roteiro. A narrativa é ridícula, lembrando muito as bizarrices de Burn After Reading. Algumas cenas não funcionam tão bem quando outras. Entretanto, o simples fato é que quando os irmãos Coen acertam, e isso ocorre com prazerosa frequência aqui, estamos diante de algo totalmente original e inteligente.

Temos em Hail, Caesar! uma ótima reflexão sobre a natureza do cinema, com cenas que esfregam na cara do expectador a falsidade que envolve a “magia” da sétima arte e questionam o valor dessa complexa e aparentemente supérflua mídia. Ao mesmo tempo, uma intrincada narrativa metafórica envolvendo o Novo Testamento se apresenta. Como qualquer filme dos irmãos Coen, muito se perde à primeira vista. Todavia, esta já é o suficiente para atestar que temos outra imperfeita obra-prima de um incomum time de gênios do nosso século. Assista e se divirta: eu lembrei de falar que Hail, Caesar! também é hilário? Avaliação: ★★★★

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Embrace of the Serpent, longa colombiano indicado no ano passado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, é um projeto do diretor Ciro Guerra que analisa de frente o conflito entre o indígena e o homem branco. Situado numa Amazônia primitiva mas já dominada pelos barões da borracha e ambientado em duas linhas temporais diferentes, o filme acompanha a visita de dois estrangeiros ao local e seu aprendizado com o protagonista. Este se chama Karamakate, indígena de uma tribo praticamente extinta que se apega aos últimos resquícios de sua cultura. Hostil aos dois cientistas intrusos, o índio não perde qualquer oportunidade de criticar o modus operandis europeu e a aniquilação de seus companheiros.

É justamente nessa crítica direta que o longa acaba se perdendo: a narrativa de Embrace of the Serpent é tortuosa e por vezes absolutamente maluca, uma vez que se presta unicamente à construção da mensagem de apelo que o diretor deseja transmitir. A cada momento em que os personagens estão inseridos na mata amazônica, aqui retratada com uma cinematografia em preto-e-branco que habilmente transfere o foco da distrativa paisagem para os seres humanos inseridos nela, surge um novo acontecimento para demonstrar a destruição da população indígena. Dessa forma, o longa se alterna entre suas construções mais interessantes e os simbolismos mequetrefes. O desfecho espalhafatoso não ajuda. Avaliação: ★★★

É isso pessoal. Querem acompanhar a coluna mais de perto durante a semana? Me sigam no Letterboxd, a rede social dos cinéfilos e, caso queiram bater um papo, entrem no nosso grupo do Telegram. Até a próxima!

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