Sob o comando de Meryl Streep, o renomado festival alemão começa com força.

O festival de Berlim é o primeiro representante da trinca europeia a abrir seus trabalhos, antes de Cannes e Veneza. Invariavelmente, várias pérolas são descobertas aqui e ganham posteriormente notoriedade no circuito alternativo.

Por outro lado, é seguro afirmar que Berlim é o festival menos influente quando falamos em premiações. Seu início é antes mesmo do anúncio do Oscar do ano anterior, deixando poucos títulos fortes que preferem estrear em território alemão. Nos últimos anos tivemos algumas exceções consideráveis com The Grand Budapest Hotel e 45 Years, e as costumeiras submissões ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (Aferim! pela Romênia, Ixcanul pela Guatemala, The Club pelo Chile, 600 Miles pelo México e The Summer of Sangaile pela Lituânia só no último ano).

Já no quesito qualidade… Taxi, The Club e 45 Years, que venceram os principais prêmios de 2015, se provaram todos como ótimos títulos. Berlim não falha, e esse ano as coisas parecem estar particularmente esplendorosas.

Antes de analisarmos alguns dos principais longas em exibição, vamos falar do júri. Meryl Streep participa pela primeira vez de um festival de cinema numa posição dessas, sendo a presidente do júri. Também compõem o júri o ator alemão Lars Eidinger (Clouds of Sils Maria), o crítico de cinema britânico Nick James, a fotógrafa francesa Brigitte Lacombe, o ator inglês Clive Owen (protagonista de The Knick), a atriz italiana Alba Rohrwacher (I Am Love, The Wonders) e a cineasta polonesa Małgorzata Szumowska (vencedora do Leão de Prata por seu filme In the Name Of).

img1

Fire at Sea é o novo projeto do documentarista Gianfranco Rosi, que recentemente venceu o Leão de Ouro em Veneza por seu doc Sacro GRA. O sucesso agora só parece estar aumentando: seu novo filme oferece um panorama da recente crise migratória europeia ao acompanhar a jornada específica de um garoto na ilha de Lampedusa, que nos últimos meses recebeu uma quantidade absurda de refugiados. O longa intercala a jornada do menino com a tragédia coletiva de milhares de pessoas, e emocionou fortemente o público em Berlim. Em competição na seleção principal, Fire at Sea é um forte candidato para os principais prêmios do festival.

Outro título na competição principal é Things to Come, novo projeto da jovem mas proeminente cineasta Mia Hansen-Løve. Ano passado ela nos trouxe Eden, uma biografia de um DJ francês que, ao embalo de ótimas seleções de música eletrônica, nos apresentou de forma naturalista e sutil o desenvolvimento da vida profissional e pessoal do personagem. Agora a diretora tem em suas mãos o talento de Isabelle Huppert, uma das atrizes de mais prestígio do cinema europeu (um total de 15 indicações ao César, o Oscar francês). O longa acompanha a personagem Huppert lidando com a morte da mãe e um fim de relacionamento: o tipo de drama com desenvolvimento lento que é a marca da diretora e conquistou os críticos de Berlim até agora.

img2

Enquanto isso, o Brasil volta com força para Berlim! Mãe Só Há Uma é apenas um dos três títulos brasileiros presentes na seleção Panorama do festival, mas com certeza é o mais badalado. Ano passado o grande vencedor dessa seleção foi justamente Que Horas Ela Volta?, e agora Muylaert volta aqui com seu novo projeto. Mãe Só Há Uma acompanha a história de um garoto travesti que descobre ter sido raptado ao nascer e é consequentemente forçado a se mudar para a casa de seus ricos pais biológicos. O filme recebeu vários elogios, especialmente pelo seu elenco, e pode se tornar a prova cabal de que Anna Muylaert é a nova e mais poderosa voz do cinema brasileiro. Atenção para a presença de Matheus Nachtergaele no elenco, assim como o aclamado novato Naomi Nero.

Enquanto isso, War on Everyone é o incomum novo projeto de John Michael McDonagh, que parece mudar de gêneros a todo momento. Após a comédia criminal The Guard e o ótimo drama Calvary, o diretor brinca com o gênero do buddy cop ao contar a história de dois policiais absurdamente corruptos que tentam intimidar e estorquir alguém que parece ser pior do que eles. Os promissores Michael Peña e Alexander Skarsgård estrelam o filme, que parece ter um futuro brilhante no circuito comercial como uma comédia sádica e irreverente. O curioso é ver as reações diferentes ao filme de quem o viu em Berlim: alguns odiando, outros amando.

img3

Midnight Special é provavelmente o filme mais comercial (e badalado) da mostra competitiva de Berlim. O diretor Jeff Nichols parece não ser capaz de fazer um filme ruim: no currículo estão Shotgun Stories, Take Shelter e Mud. Além disso, esse nem é o único longa do cineasta a ser lançado em 2016. Loving, uma história de amor interracial que foi recentemente comprada pela Focus Features por impressionantes 9 milhões de reais, é uma das potenciais apostas para o Oscar 2017. Enquanto isso, Nichols trabalha com a ficção científica aqui, rodeado de um elenco estelar formado por Joel Edgerton, Michael Shannon, Kirsten Dunst, Adam Driver e o jovem protagonista Jaeden Lieberher (St. Vincent). A sinopse envolve um garoto que descobre ter poderes paranormais e o esforço de seu pai para protegê-lo. As reviews já chegaram e são muito positivas, de forma que prefiro nem descobrir mais sobre o projeto (o primeiro trailer já foi divulgado). Expectativa de sucesso!

Hedi, por sua vez, também está na mostra competitiva mas não é nem de longa tão hypado quanto Midnight Special. O filme da Tunísia está silenciosamente adquirindo boas reviews por onde passa, e tem a prestigiosa assinatura dos irmãos Dardenne na produção. O debutante diretor Mohamed Ben Attia analisa a vida de um jovem tunisiano que se vê forçado a decidir entre uma vida doméstica e familiar em seu país natal ou algo mais aventuresco com a mulher que conhece e se apaixona. Aparentemente, o filme estabelece algumas alegorias relacionadas à crise no Oriente Médio e o dilema enfrentado pelos locais, forçados violentamente a abandonar suas raízes em meio ao caos generalizado.

img4

A Quiet Passion é o novo projeto de Terence Davies que, estranhamente, não foi posicionado na mostra competitiva. O diretor tem vários filmes de prestígio no currículo (The House of Mirth, The Deep Blue Sea) e agora exercita seu talento numa biografia de época da poetisa Emily Dickinson, representada aqui por Cynthia Nixon. Também no elenco estão Jennifer Ehle e Keith Carradine. As reações ao filme foram bem misturadas: o longa parece adotar um formato bastante tradicional, além de ser extremamente lento e impenetrável. Por outro lado, muitos elogios foram feitos à construção meticulosa do longa e à atuação central de Nixon.

National Bird (ainda sem cadastro no IMDb, por isso a ausência do link) é um documentário da seleção Panorama que me chamou a atenção, e foi por sorte que acabei sabendo dele. O longa de Sonnia Kennebeck conta com a produção executiva de dois nomes de peso no mundo dos docs, Wim Wenders e Errol Morris, e se preocupa em analisar de forma mais pessoal a complicada questão moral e política dos drones. Através dos testemunhos de três operadores de drones que largaram sua profissão e agora sofrem os efeitos psicológicos de seu trabalho, a diretora estuda o problema. Esperem ouvir mais a respeito de National Bird: com os nomes de Wenders e Morris no projeto, é bem provável que ele encontre mais espaço comercialmente.

Atualizações

img5

Às vezes um filme extrai de você opiniões contrastantes, e é quase impossível decidir o que escolher. É o caso de Breathe. O segundo projeto dirigido por Mélarie Laurent (a Shoshanna de Inglourious Basterds) mostra que ela tem muito talento, contando a história de uma forte amizade escolar que lentamente se degenera em algo muito mais horroroso. Temos atuações brilhantes das duas protagonistas: Joséphine Japy como a parte mais aparentemente sensível da relação, presa a uma pessoa predatória em função de sua paixão; Lou de Laâge como a manipuladora, cujo relacionamento conturbado com a mãe dá combustível para seus atos maldosos. Existem cenas memoráveis e muito bem dirigidas, e o relacionamento central é explosivo. Apesar disso, em vários momentos o filme me perdeu ao pender demais para o melodramático ou para o chocante. Breathe certamente mostra com precisão cirúrgica o que é ter uma amizade tóxica, mas acaba exagerando ao mostrar suas consequências, que catalisam comportamentos quase maquiavélicos de seus personagens. Avaliação: ★★★½

Não tenho nada a ruim para dizer sobre Trumbo, embora também não tenha muitas coisas boas. O filme não apresenta nada de novo ou realmente interessante, reciclando sem qualquer pudor os chavões de biografias cinematográficas do passado. Cranston está um pouco caricato demais para o meu gosto, e no final das contas o elemento mais fascinante do filme não está relacionado a ele: a história real de Dalton Trumbo é fascinante, e mesmo que não seja contada de forma muito competente por Jay Roach, seu brilho natural impede que o longa caia no marasmo total. Avaliação: ★★★

img6

The Revenant é dirigido por Emmanuel Lubezki e narra a história de Hugo Glass, um explorador.. Não, esperem. Iñárritu dirigiu esse filme. É difícil colocar em palavras a majestosidade do trabalho do cinematógrafo mais estupendo da atualidade. Sua câmera se move com precisão e elegância em meio ao caos, suas imagens são composições de luz, cuja beleza fura o cérebro do perplexo expectador. Lubezki é tão proeminente e chamativo no filme que em certos momentos eu quis esquecer da presença de Iñárritu. Seu roteiro é simples, pouco inventivo e até covarde no final. Histórias de vingança não dão caldo para 2 horas e meia de projeção. Quando penso nos motivos que me fazem gostar de The Revenant, eu sempre retorno a Lubezki. Ao longo de sua projeção o longa se arrasta, embebido em miséria, neve e insistentemente taciturno. É a cinematografia explêndida que nos carrega por esses espaços áridos, e quando o filme decide acelerar o passo (vide a cena de abertura ou o ato final) tudo vira sonho: um espetáculo de movimentos e sons que me faz esquecer momentaneamente dos pontos fracos do projeto. Avaliação: ★★★★

99 Homes é dirigido por Ramin Bahrani e explora o mercado imobiliário americano após a crise de 2007. O ponto de vista aqui, ao contrário de The Big Short, é focado em problemas específicos e no drama pessoal dos indivíduos que perderam suas casas. Andrew Garfield e Michael Shannon estão espetaculares, e é na figura de Garfield que o longa se concentra: seu personagem trafega pelos dois lados do problema, e a verdadeira natureza de 99 Homes se revela em seu arco. Estamos diante de uma poderosa análise moral, investigando as atitudes do ser humano em sua esfera mais egoísta. A questão do cidadão que questiona o político corrupto mas assume as mesmas atitudes em seu lugar é habilmente retratada. Alguns momentos do longa são convenientemente teatrais e acabam roubando um pouco do brilho do projeto, mas as atuações centrais de Shannon e Garfield são tão comprometidas que o estrago é diminuído. Avaliação: ★★★½

img7

Son of Saul me deixou um pouco decepcionado, de certa forma. Certamente há o que elogiar: o trabalho de câmera é perfeitamente concretizado, sendo primordial para estabelecer o ritmo do filme. Somos quase que grudados ao rosto de Géza Röhrig, e não há qualquer interesse em mostrar o que o cerca. O Holocausto acontece nas beiradas da tela em Son of Saul, sempre de forma sugerida. O interesse do diretor Lásló Nemes é nos mostrar a missão de Saul em enterrar o seu filho, uma das inúmeras vítimas do massacre nazista. Há uma interessante alegoria nessa narrativa que é explorada de forma muito bela no ato final, mas até lá Son of Saul não consegue manter seu ritmo ou construir esse enredo de forma tão instigante. Temos cenas espetaculares intercaladas por trechos de inanição, e o ponto de vista tão estreito do filme acaba nos conectando demais a um protagonista opaco e distante. De qualquer modo, a forma com a qual o diretor aborda o tema do Holocausto é singular e merece atenção. Avaliação: ★★★½

É curioso assistir Deadpool e perceber que a ilusão de ineditismo e originalidade que vinha acompanhando o filme é totalmente falsa. Não que o filme não se esforçe, embora essa seja uma descrição um pouco injusta. O filme esperneia, grita e sacode o expectador anunciando sua irreverência. O festival de piadas é generalizado, uma orgia de humor que passa por todas as qualificações entre genialmente hilário e medíocre. A plot em si é descartável, sendo que o vilão parece ter brotado da nova safra de antagonistas aleatórios da Marvel no cinema. O baixo orçamento é claramente visível e as cenas de ação são formulaicas e enfadonhas, facilmente o ponto menos interessante do filme. Quanto à história de origem do personagem, ela é dispensável, quebrando um ritmo que, apesar de irritante, é mais envolvente que o velho procedimento do experimento científico que deu errado (ou certo). Entretanto, existem vários lampejos de genialidade. O humor de Deadpool às vezes acerta em cheio com referências, trocadilhos e ataques verbais às mais diversas entidades do entretenimento. Uma pena que o roteiro não se preocupa em manter o nível durante todo o longa. Avaliação: ★★★

img8

Brooklyn é um daqueles filmes que te faz abrir um sorriso toda vez que pensa nele. A história é flagrantemente simples, mas de um charme sem igual. Saoirse Ronan interpreta com maestria digna de sua indicação ao Oscar uma irlandesa que, passando dificuldades em seu país natal, decide se mudar para os EUA. O longa de John Crowley faz comentários suaves mas pertinentes sobre os desafios da imigração, mas seu sucesso está na construção dos três personagens principais. Ronan, Emory Cohen e Domhnall Gleeson estão impecáveis, e exalam empatia e química desde o primeiro momento em que estão em cena. É muito prazeroso ver um romance tão bem desenvolvido e envolvente no cinema atual, com elementos técnicos seguros e um roteiro inesperadamente engraçado. Avaliação: ★★★★

Críticas negativas não foram poupadas a The Danish Girl, mas fiquei surpreso ao notar que meu maior problema com o filme foi justamente o ponto no qual o mesmo recebeu elogios: as atuações. Redmayne e Vikander ATUAM com o capslock ligado mesmo, entupindo as faces de informação e não dando espaço para mais nada. É o tipo de vício que eu já esperava de Redmayne, mas o mesmo desempenho da parte da ótima Vikander parece dizer que o diretor Tom Hooper é o responsável. Ao mesmo tempo, o roteiro não ajuda ninguém: diálogos constrangedores, melodrama excessivo e um esforço tão hercúleo para emocionar que me deixou completamente desconectado do filme. The Danish Girl é tão açucarado que é impossível não questionar a veracidade da história de uma transgênero do início do século passado que, segundo o roteiro, poucas dificuldades enfrentou, e o filme verdadeiramente omite várias informações a respeito da Lili Elbe da vida real. Avaliação: ★★

Não deixe de me seguir no Letterboxd para conferir mais reviews. Aguardem o próximo artigo sobre os vencedores do festival de Berlim!

Artigo anteriorRush Hour | Assista aos promos da nova série baseada no filme A Hora do Rush
Próximo artigoPrimeiras Impressões: Vinyl