Como sobreviver a um cenário saturado de filmes baseados em quadrinhos? Estamos vivendo um bom momento para os fãs de HQs, onde muitos super-heróis (pra não dizer quase todos) estão invadindo as telas de cinema procurando uma oportunidade para se tornarem uma franquia de sucesso. Isso sem contar com a invasão no mundo dos seriados de TV e o impacto que o marketing disso tudo gera em nós.

Em 2017, foram seis filmes nas telonas, um pra cada dois meses, e pra 2018 já temos confirmados nada menos do que 10 filmes. Esse excesso está saturando o mercado. É difícil assistir a um filme desses sem adivinhar o que vai acontecer ou acreditar que o vilão realmente tem chances reais de conseguir dominar o mundo no final.

Diante dessa super leva cinematográfica, fica cada vez mais claro que assistir a um filme com super-heróis é diferente de assistir a um filme de super-heróis. Seria a sectarização de gênero, um caminho para a sobrevivência desse mercado?

Em 1978, Superman: O Filme deu início ao primeiro grande momento dentro do cinema para os filmes de quadrinhos. Esse foi um passo importante, mas que também deu origem a um estilo que estigmatizou e infantilizou o mercado. Desse tempo, temos pérolas como: Batman & Robin (1997) – que imprimiram vilões como o Charada do Jim Carrey e o Senhor Frio, que fez Arnold Schwarzenegger pagar o mico de ser um vilão que usava pantufas de urso polar.

Qual Será o Futuro dos Filmes de Super-Herói?
Vilões

As roupas, a cinematografia e a sonoplastia foram fundamentais para gerar esse estigma de filme infantil, mas não se engane, achando que eu não reconheço a importância deles no caminho que nos trouxe até aqui. Só quero mostrar que a maior de todas as lutas desse mercado é encontrar um tom que fizesse uma HQ funcionar no cinema. E ainda é.

De lá pra cá tivemos que lidar com muita tentativa e erro nesse processo de busca por um tom certo: Demolidor (2003), Mulher Gato (2004), Elektra (2005), Motoqueiro Fantasma (2007), Hulk (2008) foram exemplos de erros que amargaram em crítica e público. Procuro fazer uma análise sobre a presença desses filmes no mercado cinematográfico e não apenas imprimir os meus gostos. Porém, o sucesso de filmes como o Homem-Aranha (2002, o do Tobey Maguire) ou do primeiro X-Men (2000), já apontavam para o bom momento em que vivemos agora.

O mais difícil é compreender que super-herói não é um gênero, mas no máximo, um subgênero. Você já deve ter visto em algum lugar as categorias do cinema, alguns são filmes de ação, terror, comédia, drama, faroeste, Sci-Fi, entre outros. Entender que filmes de heróis podem acontecer dentro de qualquer um desses gêneros, é importante na hora de tentar prever o futuro desses filmes.

Claro que isso não é, nem de perto, uma novidade. Dentro dessa leva recente de filmes, a 20th Century Fox vem experimentando gêneros com audácia e coragem. Logan (2017) é um ótimo exemplo de um faroeste dramático e Deadpool(2016) é uma comédia adulta de muito sucesso.

Qual Será o Futuro dos Filmes de Super-Herói?
Logan e Deadpool

Mas para que a justiça seja feita, é preciso lembrar da falha que foi o último filme do Quarteto Fantástico e os dois primeiros Wolverines pra perceber que a FOX não é um bom exemplo de constância dentro desses gêneros, o que pode mudar bastante agora que deve ser comprada pela Disney. 

Os MARVETES piram

Em 2008 fomos apresentados a um filme, que mudaria toda a maneira de se entender a relação mercadológica do cinema com os quadrinhos, através do lançamento do primeiro filme do Homem de Ferro. O projeto da “nova” Marvel, respaldada com a força que ganhou quando foi comprada pela Walt Disney Company em 2009, inundou o mercado de superpoderes e vem criando uma grande bolha desse subgênero.

Com uma fórmula pronta, onde: heróis carismáticos + alívios cômicos + vilões mal desenvolvidos = filmes bilionários, a empresa deu início ao seu universo cinematográfico, o famoso MCU. A responsabilidade de orquestrar essa nova era ficou nas costas de Kevin Feige, que sem poder usar personagens importantes, teve a responsabilidade de desenvolver um “selo de qualidade Marvel” para apresentar heróis não tão conhecidos do público.

Há 10 anos, ninguém poderia imaginar que um dos filmes de maior bilheteria, teria um guaxinim e uma árvore como super heróis. A fórmula acabou homogeneizando todos os filmes e preparando o terreno para grandes encontros que se desenrolam até agora, criando essa teia de sucesso, que já ultrapassou a marca de U$10 bilhões.

Thor: Ragnarok é a primeira vez que a Marvel assume com força que está fazendo um filme de comédia, usando uma historia de quadrinhos apenas como background. Trazendo um diretor do gênero, ela muda radicalmente o tom desse filme em relação aos dois primeiros, que traziam um enfoque shakespeariano ao herói.

Qual Será o Futuro dos Filmes de Super-Herói?
Thor: Ragnarok

Se Guardiões da Galáxia já trazia muito humor e irreverência, o terceiro filme do Thor é comédia acima de todas as coisas, inclusive da aventura e da fantasia. A fórmula ainda está presente, porém, conhecemos uma vilã relevante e realmente ameaçadora, que pela primeira vez é invencível.

Apesar de continuar ganhando muito dinheiro e agradando o espectador médio, que só espera ver um filme divertido e comer sua pipoca, Thor: Ragnarok mostra que a Marvel sabe que sua fórmula está cansativa. Depois de 17 filmes, a empresa precisa apresentar novos ângulos para suas histórias.

Preciso destacar também a presença neste ano de um filme da Sony, o Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017), que em sua primeira experiência junto com a Marvel, mostrou um Peter Parker realmente jovem, em uma comédia adolescente focada no High School. O filme foi sucesso exatamente por se encontrar dentro de um gênero específico.

Os DCNAUTAS surtam

O sucesso financeiro da Marvel assustou a Warner Bros, que se coçou e tentou correr para compensar o tempo perdido. O problema é que criar um universo compartilhado dentro do cinema leva tempo e não deu pra acertar o tom de primeira.

Antes de prosseguir, preciso deixar claro que a trilogia do Batman (2008) de Christopher Nolan é uma das melhores coisas feitas dentro do universo de quadrinhos, assim como Watchmen (2009) e 300 (2006). São filmes que conseguiram encontrar seu tom dentro dessa difícil tarefa chamada adaptação. Tenho Watchmen como minha HQ predileta, acredito que a transição pro cinema e a estética de Zack Snyder foi aplicada da melhor maneira possível.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) não funcionou. Aceita que dói menos. Assim como a retalhação na edição de Esquadrão Suicida (2016) acabou com o filme. Fica claro que o planejamento do tom dessa franquia não aconteceu da maneira correta. Entre escorregadas e tropeços esse ano, felizmente, assistimos o primeiro filme da Mulher Maravilha (2017) e a Liga da Justiça (2017).

Qual Será o Futuro dos Filmes de Super-Herói?
Liga da Justiça

Da aventura empoderada da amazona, ao frescor descompromissado dessa nova liga de super-heróis, é possível ver o rendimento no tom dos filmes. Não deu pra bancar a onda dos filmes sombrios e dramáticos que lidavam com consequências profundas e reais. De alguma maneira, no momento em que você ri das piadas feitas pelo próprio Batman, você sabe que eles se renderam à fórmula Marvel.

A Liga da Justiça lida com o vilão mais descartável e sem carisma que já existiu. As piadas correm soltas e estão em todos os lugares e não só na presença do divertido Flash. O grupo funciona e faz você se deleitar nos momentos de aventura e ação do cinema-pipoca que o povo tanto gosta. É uma pena, mas a partir de agora, é desistir da ideia de ver um coringa tipo o Heath Ledger pintando nos filmes da DC.

o MERCADO sobrevive

 É fato que estamos discutindo sobre o atual mercado mais sólido e rentável da indústria cinematográfica. Também é fato que essa guerra entre as duas empresas de comics só beneficia a elas mesmas e provavelmente nada vai mudar muito. É de se esperar que esse modelo perdure até que se acabe com a última gota de paciência.

Porque mesmo que o subgênero se torne tão genérico e sem relevância quanto o mercado de comédias-românticas, ele ainda vai vender muitos bonecos e camisetas. O desafio de se encaixar dentro dos filmes de gêneros é urgente e necessário para que esse esgotamento não aconteça.

Steven Spielberg em 2015 deu uma declaração predizendo a morte dos filmes de super heróis no cinema. Em uma entrevista, ele disse que estávamos aqui quando os filmes de faroeste morreram e que vai chegar um momento em que os de super-heróis seguirão pelo mesmo caminho.

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Fica aqui apenas uma gota de esperança. De que esses filmes se reencontrem em outros gêneros, buscando criatividade e fôlego para não morrerem diante da crítica e do público. Porque eu tenho esperança de assistir um bom filme de terror com o Motoqueiro Fantasma ou um ótimo filme de ficção científica com o Quarteto Fantástico.

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