Quem teve saudade de Orange, acompanhou as notícias sobre essa nova temporada e refletiu sobre a decisão de fazer deste o “ano da rebelião” deve ter esbarrado na seguinte pergunta: a série teria história para preencher tantos episódios? O questionamento é válido e comum. Sempre que uma série que acompanhamos nos surpreende com uma proposta inusitada, ficamos pelo menos parcialmente duvidosos. Nos episódios que antecederam este, a conclusão era de que sim, daria para tirar uma temporada inteira sobre isso — e com tranquilidade. Em Full Bush, Half Snickers, o marco para a contagem regressiva da temporada, a sensação não poderia ser mais diferente.
Com a proposta de lançar todos os episódios de uma vez, algo que se poderia cobrar da Netflix é que a história contada na temporada, nessa divisão em capítulos, estivesse completa o bastante para sustentar um ano sem novidades ao público. É por isso que não há a necessidade de prender o público, mas agradá-lo. O público não precisa voltar na próxima semana, mas deixar que aqueles segundos automáticos disponibilizem o próximo episódio. Só que mesmo os mais persistentes e os mais preguiçosos percebem, quando os créditos chegam, o quão vazio foi o que acabou de ser exibido.

Talvez em séries com a exibição clássica semanal seja possível abrigar episódios ruins pela temporada. É por isso que eu digo que nós só sabemos se uma temporada é boa de verdade quando a assistimos do começo ao fim de uma vez. Acabamos perdoando erros aqui e ali quando nossa experiência é fragmentada por meses e separada por hiatos. Sendo assim, as séries da Netflix têm a responsabilidade de fazer cada seguimento contar.
Nem sempre funciona, e há diversas explicações para isso. No caso de Orange, quem sabe se, depois de seis episódios escritos, eles não perceberam, obviamente tarde demais, o trabalho que daria fazer uma temporada inteira dessa forma? Percebendo ou não (sempre acho que sim), surpreendo-me com o pior tipo de episódio: aquele que se retirado da temporada não fará falta alguma. E assim como serve para a Literatura (a boa Literatura), em que todas as páginas contam, a boa série não desperdiça tempo e não tenta iludir seu público. Até porque não funciona: a maratona destaca essa falha.

Depois de um começo promissor, de passagens estranhas e de gosto duvidoso, e de possivelmente o episódio mais absurdo da história da série, Orange nos entrega uma hora inteira de cenas recortadas, que não avançam a trama e que se dedicam a criar momentos bobos e inúteis. Há também uma sensação de uma ou outra trama sendo requentada — outra coisa que também nunca funciona. Para não ficar só na frase dura e faltar o exemplo, vamos aos detalhes:
Por agora, o público já entendeu que diversos grupos de internas estão tentando recriar a vida externa lá dentro. Entendemos isso no episódio sobre o programa de talentos que praticamente se dedicou a isso. Sendo assim, a brincadeira em referência a Starbucks entra de forma gratuita; Boo e Linda como um casal fazendo compras e analisando a área externa com uma guia ao lado, em forma de alegoria ao mercado imobiliário também. Isso não incomodaria se diversas cenas não se dedicassem a isso.
Crazy Eyes entra em cena, mas o questionamento importante sobre sua medicação, e como algumas presas ficariam sem a dosagem correta e diária é ignorado. No lugar disso, mais uma vez os guardas sequestrados são obrigados a participar de qualquer coisa que venha à cabeça de quem está no comando. Também já havíamos entendido isso há diversos episódios.

Pior do que isso somente Alex como uma líder para o grupo externo, coisa que não faz sentido algum. Não é possível que o roteiro subestime tanto as mulheres ali reclusas ao ponto em que precisem mesmo de alguém que as comande a não fazer nada. Além disso, essa forma de culto a uma pessoa de forma inesperada já esteve por aqui quando Norma, a nossa presa silenciosa, passou por um estranho processo de canonização entre as presas. É desnecessário repetir isso, porque não ficará crível como da outra vez.
Piper e Alex passam o episódio discutindo sobre tomar banho, ou qualquer discussão vazia que não agrega nada a ninguém. Daí temos o antes e depois de diversas personagens, mas é algo que só ocupa espaço em tela. As brigas entre Nicky e Morello são absolutamente as mesmas desde que a série começou. Red, enquanto isso, está comprometida com aquela operação bizarra e de momentos exagerados. As detentas do porão… Estão no porão, e a aparição delas conta tanto quanto a ausência.

Em resumo, temos uma cena final envolvendo uma briga, que, além de mal coreografada, é um dos poucos pontos relevantes do episódio. E a questão não é nem se o episódio é ruim (e ele é) ou se ele é engraçado (e ele não é), mas se ele contribui em algo para o restante da temporada. Séries com episódios de uma hora precisam ter uma hora. Os destaques aqui, incluindo aquela cena linda envolvendo a biblioteca “aberta”, se unidos não dão mais que dez minutos. Se compararmos aos episódios anteriores, a situação fica ainda pior.

Resta-me perceber que ele é o resultado de uma decisão tomada pelo roteiro: não levar a rebelião a sério. Afinal, Orange é uma comédia. Só que a decisão traz consequências que não são positivas à série. Se a revolta começou de uma forma séria, cruel e triste, por que não abordá-la dessa forma? O que uma temporada “engraçada” agrega à história da série se vem depois de uma temporada tão polêmica e difícil? Cada um fique com a sua conclusão. Creio que no próximo as coisas já melhoram, mas, mesmo com uma temporada divertida, mesmo com uma temporada leve, a minha conclusão só pode ser uma: havia um potencial gigantesco para esse quinto ano; poderíamos estar dialogando sobre muitas coisas, sobre muitos problemas, sobre diversas questões.
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Orange Is The New Black está desperdiçando uma temporada.
















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