Os perigos do efeito borboleta em Orange Is The New Black.
Mesmo quem não está familiarizado com a Teoria do Caos costuma ter claro em mente o conceito do chamado Efeito Borboleta (obrigado, Ashton Kutcher!), que basicamente afirma que a sensibilidade de um fenômeno a alterações e variações das condições iniciais é gigantesca. A manjada frase “o bater de asas de uma borboleta pode influenciar o curso natural dos eventos e provocar um intenso tufão do outro lado do mundo” resume bem a teoria.
Foi mais ou menos isso que aconteceu com nossa querida Nicky Nichols em Empathy is a Boner Killer (“Empatizou, o clima acabou”), um episódio cheio de idas e vindas que termina punindo a responsável pelo primeiro desvio da heroína pra começo de conversa. Foi injusto, sem dúvida, principalmente por Luschek conseguir sair dessa com tanta tranquilidade – achei que Caputo fosse melhor do que isso, e ele deu um pequeno indício de que talvez até seja ao olhar fixamente para o carcereiro eletricista enquanto falava sobre a política de tolerância zero a drogas.
A verdade é que Nicky acabou confiando na pessoa errada, e é justamente por sabermos disso desde o início sobre Luschek foi que aquela pegadinha do episódio anterior funcionou tão bem. Esse é um cara que não se importa com mais nada além de si mesmo e ferra quem precisar para ficar bem na fita.
Não dá pra dizer, porém, que não foi divertido ver Leanne e sua BFF viradas nas drogas, pra lá de Bagdá, jurando que a magia de Norma havia feito aparecer heroína do nada pra elas no presídio – vale dizer, aliás, que esse é o tipo de pedido que mostra o nível de perspectiva e de profundidade de uma personagem na série. E nem as condeno por terem denunciado Luschek para a prisão toda, eu também faria o mesmo. Infelizmente, mal sabiam elas quem realmente ferrariam nessa história.
O mais interessante dos flashbacks foi perceber que karma is a bitch, já que Nicky já fez no passado exatamente o que fizeram com ela agora: abandonar companheiros de crime à revelia do destino, pensando só em si mesma e em se safar de tudo o que apronta. Da mesma maneira, a mãe da personagem também não deixa de ter colhido o que plantou, já que a vimos negligenciar tanto a filha pequena na premiere da atual temporada.
Eu sou o primeiro a achar um saco essa fixação freudiana de muitos roteiristas de séries que culpam a mãe por tudo o que os personagens viram, mas OITNB conseguiu ao menos intrigar em um sentido: quem vê a mãe de Nicky sofrendo com a filha nesse episódio isoladamente certamente a considera apenas uma vítima, e não alguém que trouxe a si mesma esse destino lá na infância da garotinha. É muito importante não generalizar, mas, nesse sentido, vale a reflexão: quem realmente faz quem sofrer na vida de uma família como essa? Quem é culpado (se é que podemos falar em culpa) ? Na vida real – e eu acredito que OITNB seja verossímil suficiente para permitir que eu faça essa afirmação -, vilões aparentes nem sempre são vilões e vítimas aparentes nem sempre são vítimas. Família é um negócio complicado, mesmo. Observação: só pra deixar claro, casos de violência doméstica como o de Gloria não entram nessa relativização, sendo a vítima e o vilão muito bem definidos.
É curioso como, até o momento em que escrevi os parágrafos acima, estava pronto para criticar um pouco os flashbacks desse episódio, porque estava tão interessado nos acontecimentos frenéticos da prisão que não fiquei nem um pouco fisgado pelas cenas do passado de Nicky. Mas, elaborando esta review, acabo de mudar de ideia. Percebi que essas cenas foram mais interessante e ficaram mais na minha mente do que eu havia notado enquanto assistia.
A questão agora é: o que será da nossa queridíssima Nicky Nichols? Não consigo nem cogitar a possibilidade de ver Natasha Lyonne nos deixando, mas com essa história de fechamento da prisão, tudo pode acontecer, e essa é a magia dessa trama ao longo da temporada. Todo o clima de tragédia em torno da ida da personagem para a segurança máxima, com uma Red e uma Morello que encheram o meu coração de tristeza, mas também o aqueceram com essa clara demonstração de que há amor familiar na prisão, deixou forte a sensação de que estávamos diante da despedida de Nicky. Ainda assim, vou ficar aguardando o seu retorno. A personagem é querida demais para acabar assim, certo?
Quem também merece menção nesse episódio é o casal Piper e Alex, que afinal foram quem deu o título do episódio. Depois de uma cena fofa, mas absurdamente incômoda de assistir de tão forçada que foi aquela situação (evidência clara de desgaste da trama de Piper e necessidae de uma reformulação geral do papel da personagem na série), as duas voltaram a se amar, mas criaram tanta empatia que perderam o tesão. Preciso dizer que essa não é uma situação irreal, muito pelo contrário. Acontece mais do que a gente pensa, mas ainda não sei aonde isso pode levar as personagens. Por ora, o que importa é que elas fizeram as pazes.
Red e Healy também merecem ser citados, principalmente pelo brilho absoluto da nossa ruiva na ótima cena de “tradução”. Aqui, Kate Mulgrew segue mostrando por que é um dos nomes mais necessários do elenco (se não “o” nome) e consegue, em uma mesma cena, ir do cômico ao dramático com uma facilidade imensa e mantendo a sequência de eventos totalmente orgânica. Ótima saída do roteiro para tentar deixar o dispensável Healy levemente mais interessante.
E, enquanto acompanhamos o drama dos guardas (que também são pessoas complexas que interferem consideravelmente na dinâmica da prisão e, portanto, personagens que considero fascinantes) fazendo corpo mole com a expectativa de voltar à rua da amargura e somos presenteados com a diva e maravilhosa Mrs. Fig, chegando com a cavalaria em papel pardo para salvar a prisão depois de uma chantagenzinha básica, eu diria que, em termos de ritmo, Empathy is a Boner Killer é tranquilamente o episódio mais agradável do ano até agora. Foram 56 minutos tão bem aproveitados que, no fim, não parecia que havia passado nem metade desse tempo. Não podemos dizer, por enquanto, que a terceira temporada mostrou a que veio, mas, ao menos individualmente, cada episódio segue 100% sublime de se assistir. Resta o desejo de ver uma trama maior se consolidando, mas, mais importante, de que o ritmo e e a qualidade de OITNB continuem firmes e fortes assim.















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