Três vivas para a nossa Madre Teresa!
É inegável o fato de que o rol de personagens de Orange Is The New Black é extremamente respeitável. Apesar de não dar um tratamento absolutamente perfeito a todos, o que fica perceptível quando notamos alguns sumiços nesta segunda temporada (Watson e Yoga Jones, por exemplo, que só foram elevadas a uma posição maior que a de figurantes neste décimo episódio), de uma maneira geral, a série cuida muito bem de suas criações e dificulta muito que cedamos à tendência natural de escolher uma personagem favorita.
Mas Little Mustachioed Shit (“Filho de Bigode”) conseguiu ao menos uma vencedora parcial da briga com Poussey, Red e a própria Piper no meu coração: Nicky Nichols, a eterna Madre Teresa da Siririca. E da força de vontade.
Nicky é, ao meu ver, a personagem mais redonda de Orange Is The New Black. Funciona muito bem como alívio cômico, como pudemos ver em seu arco filler com Big Boo na primeira metade da temporada. Funciona bem nos momentos calientes de sexo lésbico – aliás, é a grande protagonista das cenas +18 da série. Funciona quando atua como o grande coração da cadeia, circulando pelas histórias de Alex, de Piper, de Red, de Boo, de Fischer e, agora, de Morello. Em todos os casos, Nicky entra em ação como uma espécie de conselheira, de guia, e sempre sabe o que dizer para facilitar a vida de suas companheiras e amigas. As cenas com Morello nesse último episódio estão tranquilamente entre as minhas favoritas de toda a série. Nicky trata a loucura e os erros alheios como todos deveríamos: com compreensão. De braços abertos, a personagem está lá sempre para facilitar a vida de outros, e acaba tornando-se a alma da prisão de Litchfield, também graças ao gigantesco carisma de Natasha Lyonne em um inspiradíssimo trabalho.
Mas Nicky é uma personagem suficientemente forte para protagonizar seu próprio arco, e eu já estava com o coração apertadíssimo desde a cena em que ela havia recebido heroína de Taystee (que daí em diante perdeu completamente o brilho e entrou em queda livre como personagem, ao meu ver). E comemorei a força de vontade de Nicky e a decisão de entregar a heroína para Red mais do que comemorei a vitória do Brasil nos pênaltis. Nicky é muito maior do que um arco de vício em drogas, e, ainda que não fosse, a verdade é que ela não merece sofrer como quase sofreu nas mãos da nova gangue de traficantes de Litchfield. E, agora fortalecida e do lado da russa, Nicky pode ser uma chave para que o núcleo das detentas brancas consiga destronar Vee.
A grande vilã da temporada está com o império praticamente consolidado. Mesmo sem a colaboração de Gloria, a mulher já dominou totalmente as latinas. Vee também intimidou Poussey e provavelmente se tornará a nova dona da biblioteca. Admiro Poussey por enfrentar a chefona do mal, mas devo dizer que fiquei levemente decepcionado com a maneira como ela fez isso. Não que não seja perfeitamente condizente com o perfil construído para a personagem, mas o fato é que eu torcia muito para que ela tentasse ser mais inteligente do que isso. Deu muita pena, e muita raiva de todas as cúmplices da surra. Até porque a ida de Watson para a solitária já deixou muito claro que a lealdade a Vee é uma via de mão única, como era nos tempos em que Red cometeu o erro de confiar nela (coisa que, graças a Nicky, não acontecerá novamente).
Alheia a toda essa disputa de poder na cadeia (ou quase, já que nem o telefone ela pôde usar direito) está a nossa protagonista, que também protagonizou os flashbacks do episódio. Confesso que não fiquei nada surpreso, mas ainda assim me impressionei com o modo como a relação com Alex começou. Sim, Laura Prepon voltou para que ficássemos sabendo que sua personagem tinha uma namorada (e uma namorada completamente psicótica) quando começou a se relacionar com Piper. Mas é claro que nossa Katy Perry oxigenada não tinha noção disso.
A verdade é que tudo o que aconteceu fez muito sentido: uma relação que começa toda errada dessa maneira não tem como acabar bem. E é engraçado como cada nova informação sobre o relacionamento dessas duas faz Piper mais pata aos nossos olhos, sempre caindo no papinho manso de Alex. Aliás, Nicky – a personagem, mesmo! – deveria receber uma indicação ao Emmy pela melhor imitação de Laura Prepon da história do universo!
A cena da visita de Polly foi um show à parte. Cheia de tensão do primeiro ao último segundo, a construção do diálogo foi deliciosa e extremamente envolvente. Fazer com que acompanhássemos a expressão de Piper (e a de Polly também, mas Taylor Shilling foi quem realmente deu o show aqui) à medida que tudo ia ficando cada vez mais claro nas entrelinhas foi de uma inteligência absurda! Eu, que adoro uma boa Revenge, fiquei fã particularmente do incentivo de Red para que a protagonista criasse um plano de vingança. A pergunta que fica é: já pode adotar o método do saco de merda em chamas para a vida? E Piper que se cuide, porque, graças ao jornalista mais juvenil (e azarado) que a prisão já viu, ela agora ficará na mira de bitch Fig.
Curiosamente, o arco que dá o título ao episódio é o menos interessante de todos. Não que tenha sido ruim, mas a história de Pornstache e do estupro acabou sendo ofuscada pelas outras. Não consigo condenar Bennett por ter destruído a vida do “colega”, porque eu penso exatamente igual a ele: o cara pode ser inocente desse crime específico, mas era culpado por tantos outros (a morte de Tricia, só para começar) que é impossível ter alguma pena dele. E assustador assistir à sua obsessão por Daya ao sair algemado da prisão de Litchfield, prometendo voltar para cuidar da amada. Credo!
Em mais um episódio eletrizante desse final de temporada, Orange Is The New Black segue mostrando que não dá ponto sem nó e sabe exatamente aonde quer chegar. Toda a construção do novo cenário em Litchfield feita na primeira metade da temporada teve propósitos bastante específicos. O resultado são episódios como Little Mustachioed Shit, em que mal temos tempo de respirar com a angústia e as bombas (de merda, inclusive) que são atiradas em cima de nós. Que venha mais, muito mais!
P.S. – As aventuras de Healy para se tornar um tutor melhor com a ajuda da fiel escudeira Pennsatucky estão divertidas, mas é feio ficar copiando os métodos da própria terapeuta, hein?
P.S. – Pessoal, farei uma viagem nos próximos dias, mas desta vez a cobertura vai continuar sem mim. Nosso caríssimo Henrique Haddefinir fará o favor de escrever a review do décimo primeiro episódio. Voltarei na semana que vem, com o décimo segundo e o aguardado season finale. Até lá!
Próxima review: 2×11: Take a Break From Your Values – 4/7














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