As roseiras não falam.

O terceiro episódio da segunda temporada de Orange Is The New Black segue a fórmula de nos dar um foco em uma personagem interpretada por alguém recém-promovida ao elenco fixo: a adorável Crazy Eyes, a underdog das underdogs na organização social da prisão feminina de Litchfield. Impossível reclamar, já que é sempre ótimo ver a excelente Uzo Aduba em ação.

Os Eyes de Crazy Eyes só apareceram depois de uma certa idade, mas que ela sempre foi Crazy todo o mundo já sabia. A crise da menina que queria porque queria o bebê de volta em seus braços deixa muito claro que Suzanne é tão adorável quanto perigosa. Como diria meu colega Vinícius Barros, toda a cena do chá das meninas branquinhas com quartos cor de rosa foi “a maior torta de climão dos últimos tempos”, mas a história do dragão foi sensacional (vou confessar que, na historinha da Chapeuzinho Vermelho que eu contava para o meu sobrinho quando ele era mais novo, o Lobo devorava geral e saía feliz de barriga cheia, fim da história – ele se divertia horrores com as minhas versões das histórias e me identifiquei com Crazy Eyes como se não houvesse amanhã nessa cena)!

O que realmente surpreendeu no episódio foi ver que, antes de desviar de caminho, Suzanne realmente viveu o American dream, tendo sido adotada por uma família loirinha, branquinha e bem de vida. E, como qualquer pessoa negra e com deficiência colocada num ambiente cheio de crianças, Suzanne sofreu um bocado, porque se existe alguém que sabe ser cruel nesta vida, esse alguém são crianças bem estabelecidas na hierarquia social do meio em que vivem. É claro que esse tipo de comportamento só reflete os valores aprendidos em casa, que fique claro.

O episódio explora uma questão curiosa: a maneira como o discurso cheio de boas intenções de que pessoas diferentes precisam ser tratadas como iguais pode acabar saindo pela culatra. O amor da mãe de Crazy Eyes era legítimo, e isso a fazia lutar para que sua filha fosse vista como todas as outras crianças. O problema é que, em algum momento, a própria Suzanne percebeu que não era bem assim e precisou lidar da pior maneira possível com as próprias limitações, sem estar preparada para isso. Mais importante do que a igualdade talvez seja a isonomia: tratar desigualmente os indivíduos de acordo com suas diferenças, e assim garantir que eles sejam protegidos. Mas a verdade é que criar uma criança jamais será uma ciência exata, e todo caminho escolhido é passível de resultados bons ou ruins.

Mas chega de filosofias sobre criação de filhos! O importante dessa história é que pudemos compreender a forte conexão entre Crazy Eyes e Piper, ao menos na cabeça da primeira. A semelhança entre Chapman e a mãe adotiva de Suzanne é bastante considerável, e, com suas limitações e o estado em que ela acabou saindo dos cânticos de Natal, tudo acabou fazendo muito sentido. No fim das contas, Suzanne foi quem parou Piper na marra, e acabou fazendo com que a luta com Pennsatucky parecesse uma luta, não um espancamento. Ufa!

Falando em Pennsatucky, que diferença fizeram os novos dentinhos, hein? Honestamente, não sei exatamente o que a série ganha com essa decisão. A princípio, não consigo enxergar nada muito interessante vindo daí, mas pode ser que a atriz simplesmente tenha pedido para interpretar com seus dentes normais, e assim deram um jeito na personagem.

Piper, por sua vez, pode até ter retornado a Litchfield (ufa! Chicago nunca mais, espero!), mas acabou sendo relegada ao segundo plano nesse episódio, já que até mesmo a grande revelação sobre o final da briga da temporada passada age mais em função do desenvolvimento de Crazy Eyes do que do dela. Como destaque, ficam mesmo as divertidas cenas com Soso (também conhecida por mim como “a japa folgada”), a nova detenta que apareceu para dar um pouco mais de diversidade aos grupos étnicos da série. Difícil esquecer o diálogo: “Ué, mas aqui as pessoas não se chamam pelo sobrenome?” “Sim, mas não vou conseguir falar o seu e manter a cara séria numa hora dessas.” Estou curioso para saber mais sobre Soso, especialmente os podres!

Todo o arco de Crazy Eyes em Hugs Can Be Deceiving (“Aquele Abraço”) foi, na verdade, uma maneira sutil de iniciar a aparente construção do império de Vee entre as detentas negras, com direito a cigarro e até a bolo confeitado como moedas de troca. E, a julgar pela maneira como Red e Gloria (que, junto com Vee, podem oficialmente ser consideradas as líderes de cada uma das três etnias mais representadas na série) interagem com a nova bad-ass e reagem às suas armações, essa rivalidade tripla ainda vai dar o que falar! Que venham os barracos!

Observações:

– Como não amar Crazy Eyes no momento em que Vee diz para a detenta manter a cabeça erguida e ela imediatamente passa a fazer isso literalmente até o final da cena?

– Não entendi muito bem a inserção de cenas de Nicky fazendo sexo com outras detentas, espero que isso faça sentido no futuro. Mas vale um salve para o momento “utilidade pública” de Big Boo ensinando a coleguinha a comer uma mulher direito. Priceless!

– A pretendente de Larry sambou na cara da blogosfera toda ao comentar sobre blogs e podcasts não serem trabalho. Carapuça serviu geral.

– As legendas em português da Netflix merecem um baita elogio! Eles traduzem direitinho os palavrões todos, sem frescuras, sem poupar desnecessariamente o espectador (mentalidade predominante aqui no Brasil). Acho uma coisa maravilhosa, e sonho com um mundinho em que todas as legendas sejam assim. #utopia

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.