Os prazeres e as dores de uma transgressão.

Ao longo de toda a sua primeira temporada, Orange Is The New Black sempre foi uma série extremamente dinâmica, com um elenco que permitia aos roteiristas manipular bastante o foco de cada episódio, sem nunca nos deixar esquecermo-nos de que toda essa história está sendo contada através do ponto de vista de Piper Chapman.

Depois de muita espera, a segunda temporada foi lançada na última sexta-feira (6) pela Netflix (com ela, vem a vontade de sair devorando loucamente os episódios e a necessidade de puxar o freio de vez em quando, porque, né, viver também é bom), e sua première brincou maravilhosamente com toda essa premissa, entregando-nos uma trama muito mais dinâmica do que qualquer um de nós poderia esperar: Chapman mudando-se para um novo presídio.

É interessante a maneira como a série desenvolve essa ideia ao longo do roteiro, fazendo-nos calçar os sapatos da nossa protagonista e ficar pensando: “Mas o que diabos está acontecendo, para onde raios essa mulher tá sendo levada?” É o velho recurso da aproximação entre personagem e espectador que, se bem executado, funciona muito bem. Pra mim, funcionou. Fiquei tão perdido quanto Piper ao longo do episódio, e isso só aumentava a minha empatia por ela e a minha imersão na série. Inteligentíssimo!

A pergunta que não quer calar é: se ambas foram transportadas da mesma origem para o mesmo destino, por que Alex não foi no mesmo ônibus e no mesmo avião? Que baita falta de preocupação com logística e com o orçamento público, não? Aliás, é tão divertido o fato de que Alex sempre surge inesperadamente, quase como um fantasma ou uma alucinação! Nesta temporada, essa ideia é ainda mais simbólica, depois de toda a polêmica em torno do retorno de Laura Prepon à série – que, desta vez, está listada como “Special Guest Star”, e não no elenco fixo, o que confirma a ideia de que ela aparecerá pouco na temporada, provavelmente apenas para encerrar o papel de Alex na vida de Piper.

Uma vez solucionado o mistério (o que só aconteceu depois de 35 minutos de desorientação), veio o dilema: como testemunha no julgamento de Kubra, o traficante e antigo chefe de Alex, deveria Piper atender ao pedido de Alex e mentir, ou fazer alguma coisa certa uma vez na vida?

Para compreender a decisão da personagem, passamos por interessantíssimos flashbacks da infância da protagonista. Desde criança, Piper sempre teve uma enorme batalha mental contra a transgressão. A garota tinha valores muito bem definidos em mente e não gostava de quebrar regras. Isso tanto é verdade que ela nem chegou a entrar em conflito antes de contar à mãe que viu seu pai com outra mulher. A pequena Piper simplesmente fez a coisa certa, e não só não mudou absolutamente nada como acabou sendo colocada de castigo pela frustrada mãe.

A verdade é que fazer a coisa certa nem sempre é uma boa opção. Há verdades que não precisam ser ditas, há verdades que só pioram as coisas quando vêm à tona. Essa foi a suposta lição aprendida por aquela criança e aplicada por Piper Chapman, a detenta, quando ela mentiu descaradamente no tribunal para proteger a ex. O poder de uma paixão é realmente inexplicável, ainda mais quando se trata do primeiro amor da nossa vida. Com isso, Piper perde o pai de Larry, que, mesmo não sendo um dos aliados mais simpáticos e apoiadores, ainda era um importante aliado.

É claro que um twist viria, e ele não poderia ser outro além do fato de que a própria Alex, que havia pedido para que Piper mentisse, desembuchou tudo logo depois de Piper ter mentido. Ou seja, Piper será condenada por perjúrio e terá sua pena estendida. Meu esôfago se contorce cada vez que essa anta confia na Alex, ainda mais depois de receber a confirmação de que foi a própria ex quem a denunciou! Revolta define.

É curioso como o último flashback, com Piper já adulta e com Alex na vida criminosa, além de deixar mais do que claro que nossa Katy Perry loira conheceu Kubra muito bem, também mostra uma nuance interessante da personagem, durante a conversa por telefone com o pai. Aquele pai, que ensinou tanto, que ensinou a só andar por trechos iluminados nas ruas, a não falar com estranhos, provavelmente a não saltar de ônibus em movimento. Aquele pai, que, por uma armadilha da vida, também acabou sendo quem ensinou a filha a transgredir.

No fim das contas, não gostaria de ver um grande destaque desse novo mundo com o qual Piper precisou lidar nesse episódio – a ainda precisará, por um tempo – em longo prazo, e espero um retorno a Litchfield o mais brevemente possível. Que assim seja, porque é um mundo assustador, com homens presos junto com mulheres (por sorte, há mais assassinos de aluguel do que estupradores, ufa!), companheiras de cela que cagam quatro vezes por dia na sua frente e astrólogas malucas que te lambem e podem cortar sua língua caso você não diga o horário do seu nascimento. Mais importante que isso, é um mundo em que baratas amestradas transportam cigarros entre detentos. Lembrei-me do divertidíssimo episódio da galinha, na primeira temporada (o melhor da série até hoje, ao meu ver), porque fiquei pensando: será que aquele bicho realmente estava ali, ou Piper está perdendo a noção da realidade como todos (inclusive ela mesma) dizem estar? Fica ao nosso critério.

Thirsty Bird (“Pássaro com Sede”) inaugura a nova jornada de Orange Is The New Black em excelente estilo, prendendo do início ao fim do episódio e aumentando ainda mais a expectativa do retorno de Piper ao seu “lar” e a nossas maravilhosas personagens. Saudades, Red, Taystee, Nicky, Crazy Eyes e, claro, nossa maluca favorita, a inquebrável Pennsatucky! E seja muito bem-vinda de volta, OITNB!

P.S. – Pessoal, ainda estamos nos adaptando à cobertura de séries da Netflix, e por isso tentarei sempre divulgar a data da próxima review, para que vocês já saibam o dia em que poderão encontrar o próximo texto aqui no Série Maníacos. Espero que esse sistema facilite o acompanhamento da nossa cobertura da série. Um abraço, e até a próxima!

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.