Se me pedissem para tentar expressar em uma única palavra aquilo que eu senti após a sessão de Que horas ela volta? (2015), filme de Anna Muylaert, eu diria “abandono”, sentimento que se ressignifica durante toda a narrativa. Sucesso no Festival de Sundance e no Festival de Berlim, a película protagonizada por Regina Casé faz um retrato da forma como a relação entre patroa e empregada, no contexto doméstico, é mediada por hipocrisia, egoísmo e também pela sinceridade daquela que ama sem a pretensão de ter algo em troca.
A personagem Val, babá e empregada doméstica de uma família paulista de classe média alta, vive às sombras do peso de ter abandonado a sua única filha em Recife para tentar uma vida melhor no sudeste e, consequentemente, conquistar condições financeiras para manter Jéssica (Camila Márdila) próxima de um futuro bem-sucedido, decisão que motivou a separação entre as duas. Vemos na construção da personagem Val um cuidado no roteiro em transmitir, através de pequenos detalhes, aspectos da cultura nordestina que são muito bem apropriados por Regina Casé, sem que isso seja utilizado apenas como um recurso cômico, como é de praxe quando se representa a figura do nordestino em muitas produções.
Logo no início do filme, há um simples diálogo que diz muito do que o filme irá mostrar ao espectador: ao perguntar se é possível que Jéssica, sua filha, passe alguns dias na casa em que trabalha, a patroa de Val, Bárbara (Karine Teles), responde, numa voz correspondente a um exemplar perfeito de “falsiane”, que a estadia solicitada está permitida, pois a babá “é praticamente da família”. É nesse advérbio de modo que se produz a invisibilidade de Val, já que ela, apesar de ter sido a presença materna no crescimento de Fabinho (Michel Joelsas), filho de Bárbara, é tratada como se fosse alguém que estivesse impossibilitada de compartilhar a intimidade familiar, ainda que ela seja uma peça fundamental para a manutenção do bem estar da casa.
Outra cena que chama bastante atenção é o momento em que Val presenteia Bárbara com um conjunto de xícaras, objeto pelo qual esta não demonstra nenhum apreço, mas agradece forçosamente o agrado que lhe foi dado. A babá não compreende que não existe espaço para aquele presente na casa, fato expresso de maneira indelicada pela patroa numa determinada situação. Dominada por uma (cega) gratidão aos patrões, Val, por ingenuidade, não compreende que está vivendo numa roda de reprodução histórica de segregação social, subordinação e modos de subserviência alimentados pelos detentores do poder econômico.
A chegada da filha a São Paulo é o elemento utilizado para que inquietudes sejam plantadas no olhar que Val possui sobre a forma como é tratada na casa: quais os motivos de não poder sentar-se à mesa do café da manhã, caso haja uma cadeira vaga? Por qual razão a piscina, que a princípio teria uma função de espaço de lazer, transforma-se num local proibido? Por que temos que tomar sorvetes distintos, se todos nós temos a mesma vontade de saciar o calor?
Diferente da mãe, a adolescente, que parte para São Paulo com o objetivo de prestar vestibular para Arquitetura, não compreende as regras que Val cumpre tão piamente. Por exemplo, Jéssica se hospeda, por convite do patrão, no quarto de hóspedes que está desocupado, o que causa revolta em Val, pois acha que a filha está ocupando um local que não é seu, pensando até que ela seja uma “folgada”. Mas a garota, desde que soube que iria ficar na casa dos patrões da mãe, foi contra essa ideia, provavelmente por já desconfiar que seria sujeita a um amontado de restrições sem sentido. O que ela buscava, então, ao desejar sair do quartinho dos fundos, era um espaço para que pudesse estudar, ter o conforto em sentar numa escrivaninha para ler, e não num colchão no meio de um cômodo pequeno, sem luz.
À medida que a narrativa avança, os conflitos entre mãe e filha tornam-se mais frequentes, tal como a insatisfação de Bárbara em hospedar a filha da empregada. Val, em um momento do filme, diz à filha que nunca entrou na piscina, deixando-a estupefata. Na sequência, Fabinho e um amigo entram na água e puxam Jéssica do jeito que ela estava (com roupas inapropriadas para o banho) para dentro da piscina. Uma erupção vulcânica de raiva e indignação brota no rosto de Bárbara ao ver aquela cena. Porém, vale lembrar aqui que a patroa se sente rejeitada pelo filho que, ao invés de visitá-la, pois sabia que naquele momento a mãe acabara de retornar do hospital por conta de um acidente, foi se divertir na piscina. A palavra “abandono”, assim, começa a ser sentida de um modo menos silencioso entre as personagens da narrativa.
Após esse acontecimento, Bárbara pede para que a piscina seja esvaziada, alegando que viu um rato lá. Logo, é como se a personagem comparasse Jéssica a esse animal, metáfora do submundo, causador de temor, pestilento. Nessa atitude, Bárbara apresenta a sua visão sobre as pessoas que não estão em seu mesmo círculo social, que pode ser aplicada facilmente a sua relação com Val. É bom destacar ainda que uma das cenas mais belas do filme é quando Val, finalmente, desce para a piscina para dar o telefonema de felicitação à filha pela aprovação no vestibular. É como se a vitória da filha tivesse dado a liberdade para romper com todo aquele fosso social estabelecido pelo sistema de segregação de classes. O som de Val brincando com a água da piscina com os pés é a poesia do sentimento de considerar a conquista da filha como uma conquista também sua. E, afinal, é isso mesmo, já que Jéssica somente teve condições de ter uma vida escolar de mais qualidade por causa da mãe que enviava dinheiro mensalmente.
Em alguns momentos, o roteiro de Anna Muylaert soa um tanto maniqueísta, porém, se olharmos mais de perto para alguns detalhes, perceberemos que alguns pontos fogem do didatismo em formar personagens que se guiam numa única direção. Bárbara é a mulher mantenedora da casa. Ainda que em uma cena do filme seu marido afirme que herdou uma boa quantia em dinheiro, podemos pensar que a sua ausência em casa deve-se também ao fato de ser a principal provedora de recursos financeiros. A relação de Fabinho com sua mãe é afetada por essa situação, bem como vemos na cena em que ele recebe a notícia de reprovação no vestibular: Bárbara questiona o fato de o filho querer abraçar somente Val. Ele rebate dizendo que enquanto a mãe o chama de “burro”, Val acredita que a reprovação foi uma fatalidade, consolando-o. Entretanto, no decorrer da história, temos indícios de que o garoto não estudava para as provas, o que aponta para uma possível razão de sua mãe ao afirmar que ele precisava estudar mais. Por outro lado, nessa situação, notamos que a ingenuidade de Val em achar que Fabinho não passou por uma ocasionalidade estava sendo mais útil para a superação do fracasso do que a franqueza de sua mãe que, pelo visto, pouco o conhece.
Encaminhando-nos para o final do filme, a saída de Jéssica da casa dos patrões de sua mãe provocou uma nova separação que, combinada com a partida de Fabinho, proporcionou o mote que Val precisava para pedir demissão. Mas será que a babá se deu conta de toda a falsidade que imperava na personalidade de Bárbara? Provavelmente, não. Val, num momento catártico, diz à filha que roubou o conjunto de xícaras. Ou seja, ela não compreendeu que aquele presente, na verdade, sempre foi dela, fato que descaracteriza a ação como um roubo, a meu ver. Parece que o real motivo da demissão foi a partida de Fabinho, dado a necessidade constante de Val de ter alguém que dependesse dos seus cuidados. Nesse caminho, o ciclo do abandono se estende.
Frente à revelação da maternidade de Jéssica, vemos a pergunta título do filme “que horas ela volta?” no cerne vida das três mães da história: Bárbara, Val e Jéssica. Cada uma, a seu modo, marcaram uma ausência na rotina de seus filhos para que eles pudessem ter a oportunidade de ter um futuro promissor. Nessa reflexão, lembro-me do fim de Central do Brasil (1998), de Walter Salles, quando Dora (Fernanda Montenegro) deixa Josué (Vinícius de Oliveira) e escreve uma carta para ele: “espero que você lembre que fui eu a primeira pessoa a te fazer botar a mão no volante, você merece muito mais do que tenho pra te dar”. As três personagens são atravessadas por esse medo de serem esquecidas pelos filhos, bem como, no caso de Jéssica e Val, se separaram de suas crianças por acreditarem que aquilo que tinham para oferecer era insuficiente.
Apesar de o filme ser conduzido, em certos momentos, por caminhos esperados, a direção de Anna Muylaert acerta em seu elenco, bastante entrosado, por sinal; e na reflexão sobre a posição de uma classe trabalhadora que ganhou muito destaque em 2012 na televisão brasileira com a novela Cheias de Charme e em 2013 com uma Emenda Constitucional (PEC das domésticas). Um filme que compõe bem o quadro de produções do cinema nacional que consegue narrar um Brasil petrificado pela cultura de que certos direitos são validados pelo o que nós possuímos (bens materiais) e não pelo o que nós somos (bens não exatamente quantificáveis).
Take 1: a capa de Que horas ela volta? é muito semelhante a capa de Central do Brasil, narrativas marcadas pela dor do abandono. Vale pensar numa possível referência intertextual.






















