Os forninhos começam a cair, e o primeiro alvo é Suffragette.

Muitas coisas aconteceram nessas últimas duas semanas, enquanto a temporada de premiações vai se aquecendo cada vez mais. Vamos fazer aqui um pequeno “recap”.

O Festival de Nova York

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A esse ponto do ano já passamos por tantos festivais que é difícil Nova York trazer muitos títulos novos para a temporada de premiações. Em 2015 tivemos dois: Bridge of Spies, a nova colaboração entre Spielberg, Hanks e os irmãos Coen, e The Walk, o filme espetáculo de Robert Zemeckis com Joseph Gordon-Levitt no papel principal.

Bridge of Spies é uma das minhas grandes apostas esse ano. A resposta do filme (76 MC/89% RT) indica mais um filme sólido na filmografia do diretor mais bem-sucedido de todos os tempos, mas por enquanto está difícil encontrar alguém com paixão ardorosa pelo projeto. É um drama tradicional que não assume riscos, muito bem produzido em todos os aspectos e cuja maior surpresa parece ser a atuação de Mark Rylance. Talvez eu deva baixá-lo um pouco em minhas previsões, mas Bridge of Spies com certeza encontrará seu caminho dentro de várias categorias do Oscar. Não parece um vencedor, mas a campanha da Disney não pode ser ignorada.

The Walk, por sua vez, está flopando lindamente. As críticas ao filme são quase esquizofrênicas (70 MC/86% RT), reprovando de forma pesada os dois primeiros atos do filme e a narração do protagonista que parece atacar durante toda a duração do espetáculo. Já a parte final e mais importante, a travessia em si, recebeu incontáveis elogios. Parece que não foi o suficiente: como falarei em mais detalhes abaixo, The Walk foi massacrado na bilheteria americana, o que machuca muito suas chances nas premiações.

Lista oficial dos longas submetidos ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

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São ao todo 81 países na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2016. A lista de filmes foi anunciada, e algumas surpresas sempre acontecem. Dheepan, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, foi deixado de lado pela França a favor de Mustang, um drama sobre cinco garotas turcas que são oprimidas pelos costumes conservadores de seu país. Quais são os outros títulos mais importantes?

The Clan, filme argentino que abordei no artigo sobre o festival de Veneza, está na lista e tem boas chances de entrar na corrida. O terror austríaco Goodnight Mommy já foi lançado nos EUA com ótima recepção e está na minha watchlist, mas é improvável que entre em função do gênero. The Club é outro título latino com potencial: o drama sobre uma comunidade de padres e freiras acusados de pedofilia ganhou o segundo maior prêmio do festival de Berlim, o Urso de Prata. Entretanto, a força da América Latina não termina aí. Embrace of the Serpent é um título colombiano que está recebendo atenção por onde passa, um retrato em preto e branco do relacionamento entre dois cientistas gringos e uma comunidade indígena do Amazonas. Vindo da Guatemala, Ixcanul Volcano retrata o drama de uma mulher indígena que vive à beira de um vulcão ativo e deseja visitar o “mundo moderno”.

A Alemanha traz Labyrinth of Lies, um filme sobre uma investigação de oficiais nazistas que, apesar de não ter críticas muito boas, carrega o nome da Sony Pictures Classics, a distribuidora mais poderosa na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. A India traz Court, longa premiado em Veneza que retrata os absurdos do sistema judiciário nacional.

Já comentei sobre alguns outros filmes aqui, todos eles potenciais competidores. Que Horas Ela Volta? é a grande chance brasileira. Son of Saul é o gigante a ser batido, tendo potencial em outras categorias como Cinematografia, Melhor Ator e até Melhor Filme. Rams é um curioso filme islandês que pode surpreender. The Assassin fica no limbo pela sua inacessibilidade, mas o longa da Tailândia pode também aparecer na categoria de Cinematografia após elogios unânimes sobre esse quesito. A Pigeon Sat On A Branch Reflecting On Existence é um dos meus filmes favoritos do ano, mas a obra do sueco Roy Andersson também pode ser impenetrável demais para a Academia.

A polêmica de Suffragette

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As últimas semanas estão sendo catastróficas para a campanha de Suffragette, que está apenas no início. Tudo começou com uma declaração controversa de Meryl Streep. Após virar meme ano passado por aplaudir o discurso da oscarizada Patricia Arquette e estrelar em um filme claramente feminista, a atriz simplesmente disse isso quando perguntada se era feminista:

Eu sou uma humanista. Sou a favor de um bom e simples equilíbrio”

Bastou para acender a discussão. Porque uma atriz que defende diversos ideais feministas se recusa a assumir a tarja? Isso parece seguir uma recente onda de atrizes famosas que não compactuam com o feminismo por ter uma visão (ao meu ver errônea) de que essa ideologia busca alguma coisa além da simples igualdade entre gêneros. O comentário de Streep não passou batido e ela teve que se esclarecer depois, dizendo que “o termo não tem mais o mesmo significado que antes”. Ahn?

Quando já haviam passado alguns dias e o assunto parecia ter morrido, eis que Suffragette apronta novamente. Num ensaio fotográfico na Inglaterra foi veiculada a foto acima. Entre o simples efeito de ver quatro mulheres brancas vestindo uma camiseta mencionando a escravidão e alguns burburinhos a respeito do papel nulo que mulheres negras tiveram no movimento retratado pelo filme, a internet pegou fogo mais uma vez. Criaram a hashtag #feministsowhite e começou o apedrejamento.

A frase “I’d rather be a rebel than a slave/Prefiro ser uma rebelde do que uma escrava” é de um discurso da ativista Emmeline Pankhurst, interpretada no filme pela própria Meryl Streep. Obviamente que ela tem um contexto, mas em 2015 as conotações parecem ter ficado um pouco diferentes. É cedo para dizer o que acontecerá com Suffragette, mas o filme com certeza está mal no momento após essas polêmicas e as críticas não tão positivas. Já não estou mais o prevendo em nenhuma categoria além de Melhor Atriz, e é bom ficar de olho: a Academia sempre passa longe de polêmicas, apenas olhem para Selma ano passado.

A campanha surpresa de Tangerine

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A cena acima é do “set de filmagens” de Tangerine, e a escolhi por imediatamente chamar a atenção para a característica mais absurda do filme: ele foi completamente rodado em um iPhone 5S. Entretanto, essa não é a única curiosidade. O longa foi lançado nos EUA em julho, e apesar de ter uma bilheteria fraca conseguiu críticas fenomenais (85 MC/95% RT). Ficou nisso: ninguém foi tolo o suficiente de prevê-lo para qualquer prêmio, e o buzz acabou aí.

Eis que, completamente do nada, surge a Magnolia Pictures e os geniais irmãos Duplass para anunciar que Tangerine receberá uma histórica campanha para o Oscar. Por que histórica? Porque será a primeira vez em que atrizes transgênero receberão esse tipo de apoio na história da Academia. As felizardas Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor serão divulgadas, respectivamente, nas categorias Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante. Todos os envolvidos parecem estar com o pé no chão, tendo a (correta) noção de que uma indicação seria no mínimo improvável. Mesmo assim, ninguém parece ligar. Ótima iniciativa, e assim que eu assistir Tangerine passo aqui para dizer o que achei.

Sites oficiais do Oscar

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Todo ano as distribuidoras envolvidas na campanha do Oscar criam domínios dedicados aos membros da Academia, trazendo a lista dos filmes que estão apoiando e, principalmente para nós, as categorias em que irão concorrer. Isso é uma grande ajuda para que possamos entender quem vai como protagonista e quem vai como coadjuvante, especialmente nesse ano em que a fraude de categorias está mais forte do que nunca.

A Universal e a A24 foram as primeiras a criarem seus sites. Na Universal são poucas as surpresas, embora seja notável a ausência de Everest e By the Sea na lista. Provavelmente serão adicionados com o tempo. Em relação a Straight Outta Compton, uma opção curiosa: todos os principais integrantes do elenco receberão campanha na categoria de coadjuvantes.

Na A24, o estúdio alternativo que nos últimos anos cresceu estrondosamente e vem lançando um título mais interessante que o outro, temos a primeira fraude de categoria oficial do ano. Jacob Tremblay, o garoto de Room, receberá campanha como Ator Coadjuvante. É realmente difícil para atores mirins conseguirem indicações como protagonistas, mas parece que essa decisão em particular é difícil de engolir para quem viu o filme. Fica a curiosidade para saber o que a Netflix fará com Abraham Attah, que é ainda mais protagonista que Tremblay.

Outra fraude é a de Jason Segel em The End of the Tour como Ator Coadjuvante. Em Mississippi Grind Ben Mendelsohn fica na categoria principal enquanto Ryan Reynolds vai para o time dos coadjuvantes. Em Ex Machina, Domhnall Gleeson é protagonista enquanto Oscar Isaac e Alicia Vikander são coadjuvantes. Também é interessante lembrar do documentário Amy: enquanto todos olham para Room como a maior chance da A24 finalmente conseguir sua primeira indicação, o aclamado retrato de Amy Winehouse pode até ser uma escolha mais provável.

Primeira exibição de Joy

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Um dos filmes que em teoria são importantíssimos para o Oscar mas só chegarão no final do ano, ao lado de The Revenant e The Hateful Eight, Joy teve uma exibição teste em Los Angeles. Todo mundo aguardava por esse momento: JLaw é finalmente o centro das atenções em um filme de David O. Russell, será que ela consegue um segundo Oscar tão cedo na carreira? O próprio Russell começa a criar sua narrativa, já que seus últimos três filmes fizeram sucesso com a Academia e mesmo assim ele continua sem uma única estatueta.

Com um campo até agora sem claros frontrunners, esses três filmes podem mudar completamente o jogo, e parece que Joy tem todo o potencial necessário. As primeiras reações ao filme são ótimas: um dos melhores filmes de Russell, 100% comandado por Lawrence em uma performance fenomenal que poderia facilmente ganhar o Oscar, etc. Robert De Niro parece entregar uma ótima performance, enquanto que no lado feminino Diane Ladd e especialmente Isabella Rossellini são os destaques. Bradley Cooper e Édgar Ramírez passam batido.

É sempre bom tratar essas primeiras reações com cautela, mas vocês foram avisados. Minha dúvida é em relação ao que a 20th Century Fox pode fazer pelo filme. Com o sucesso estrondoso de The Martian e a presença de The Revenant, será que aguentarão o tranco de montar uma campanha para três grandes concorrentes?

Atualizações

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Everest é um filme tremendamente impessoal, mesmo querendo ser o contrário. O elenco é absurdamente gigantesco: Jason Clarke, Josh Brolin, Jake Gyllenhaal, Keira Knightley, Emily Watson, John Hawkes, Robin Wright, Sam Worthington e outros tantos. São fatos reais e pessoas reais que sofreram nesse retrato de uma das maiores tragédias já ocorridas no Everest, mas o uso de tanto personagens acaba dando pouquíssimo tempo para o desenvolvimento deles. Pessoas morrem sem que saibamos exatamente quem elas são (as roupas, máscaras e toucas também não ajudam), e é difícil se importar com o destino dos protagonistas. Entretanto, ao mesmo tempo há algo de bom nessa impessoalidade. As mortes ocorrem de forma seca e documental, acompanhadas de um trabalho sonoro e visual incrível que merece ser visto na tela do cinema. O diretor Baltasar Kormákur consegue transmitir a ferocidade inabalável da montanha, que ao final do filme realmente parece ser “maior” do que seus personagens. Uma verdadeira faca de dois gumes. Avaliação: ★★★

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Labyrinth of Lies é o filme estrangeiro mais hollywoodiano que assisti desde… Não me lembro exatamente. Não é no bom sentido, e só estou comentando sobre o longa aqui pois ele é a submissão alemã para o Oscar 2016, e dada sua distribuição pela Sony Pictures Classics e o tema obviamente atraente para a Academia é bem possível que entre na corrida. O que temos é a história de um jovem promotor em Frankfurt que, duas décadas após o fim da Segunda Guerra, começa a investigar o paradeiro dos nazistas que comandaram Auschwitz e tenta levá-los a julgamento. Há algo inerentemente interessante nessa premissa e que às vezes salta aos olhos em alguns momentos do filme: o dilema de um país que ainda tem a responsabilidade de punir os responsáveis por uma das maiores barbáries da humanidade e ao mesmo tempo quer esquecer de tudo isso. Infelizmente tudo é soterrado por um roteiro antiquado e entupido de clichês isca de Oscar que parecem saídos de um filme do Tom Hooper. Antes que perguntem: sim, temos a esposa bonita que só existe em função do protagonista e não tem importância nenhuma na trama. Yikes. Avaliação: ★★½

– Não irá sair esse ano, embora muitos quisessem. Mesmo assim me sinto obrigado a compartilhar essa belezura chamada Hail, Caesar!, o próximo filme dos irmãos Coen que será lançado em fevereiro de 2016. É uma comédia ambientada na Hollywood dos anos 50 e focada nos bastidores de filmagens de vários filmes diferentes. O elenco? George Clooney, Josh Brolin, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Channing Tatum, Tilda Swinton, Frances McDormand e Jonah Hill. DEAL WITH IT.

Trailer legendado:

https://www.youtube.com/watch?v=nGJq4U0ayTc

Nos Cinemas

A grande notícia dessas últimas duas semanas é The Martian, que por duas vezes ficou no topo da bilheteria americana com um lançamento que quase quebrou o recorde de Gravity em outubro. Nesse fim de semana o filme teve uma queda de apenas 32%. A reação da crítica após o lançamento também foi esplendorosa (81 MC/93% RT) e imediatamente as especulações de Oscar atingiram novos níveis de efervescência.

O mesmo não pode ser dito de The Walk, que apostou em um lançamento limitado para IMAX antes de abrir nacionalmente e flopou pesado. Nessa semana, com mais cinemas no catálogo, o filme sequer entrou no Top 5. Também no limbo ficou Freeheld, que em lançamento limitado com 51 cinemas no catálogo fez apenas 94 mil dólares. “Flop” é um termo suave para o filme, que também foi esmagado criticamente (50 MC/44% RT). The Walk talvez sobreviva nas categorias técnicas, mas é improvável. Freeheld está morto e enterrado.

Também tivemos, por fim, o lançamento limitado de Steve Jobs nesse fim de semana. O filme chegou com um arraso, quebrando o recorde de Sicario de maior média de bilheteria por cinema do ano. As críticas continuam sólidas (82 MC/88% RT), e uma das minhas apostas para o Oscar 2016 continua firme em sua campanha.

Previsões do Oscar

Como de costume, vou deixar as alterações se “acumularem” para que eu faça uma mudança completa na lista. Mesmo assim, não lhes deixarei no escuro e já aviso que Bridge of Spies e Suffragette cairão algumas posições, enquanto The Martian provavelmente subirá algumas.

Melhor Filme Melhor Diretor Melhor Roteiro Original

Melhor Roteiro Adaptado Melhor Ator Melhor Atriz

Melhor Ator Coadjuvante Melhor Atriz Coadjuvante  

Melhor Animação Melhor Cinematografia Melhor Trilha Sonora Original

Como sempre, lembrando vocês de me acompanhar no Twitter (notícias em primeira mão) e no Letterboxd (a rede social dos cinéfilos). Até mais!

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