Quando uma expressão artística, seja qual for a natureza, desperta na gente sentimentos “perturbadores”, a ponto da gente pensar na vida e em tudo que a ela lhe trouxe ou mesmo que trará, você está diante da exacerbação da arte; quando ela sai de onde está para habitar dentro de você por um tempo. É a sensação que eu tive durante a exibição de “Divertida Mente” (“Inside Out”, título original), talvez a obra de arte da Pixar/Disney, um manjar para nossos sentidos.
Vamos acompanhar parte da infância de Riley (dublada no original pela atriz Kaitlyn Dias), uma criança que leva uma vida normal aos 11 anos. Cheia de energia, comungando de harmonia com sua família em sua cidade, Riley vai enfrentar o maior desafio de sua então precoce caminhada v: irá se mudar para São Francisco e re-começar sua trajetória ao lado dos pais.
Sob uma premissa básica e simples, “Divertida Mente” apresenta uma profundidade pouco vista sob um olhar mais filosófico dentro do reino da Pixar. Quem chegou muito perto de um discurso existencialista foi “Wall-E” (2008), com uma retórica sobre futuro da humanidade e re-adequação da vida humana em convívio com a tecnologia e suas idiossincrasias. “Divertida Mente” vai apostar em uma criativa metáfora envolvendo sentimentos básicos que o homem denominou como: alegria, raiva, medo, tristeza e o “nojinho” (no inglês temos “Disgust” e você pode trocar por “Dislike”…). Todos personalizados de maneira incrivelmente dinâmica, não há como não simpatizar com os seres que o diretor Peter Docter tão bem aprumou, sob a elegante atuação (dublagem) de Amy Poehler, daquelas difíceis de esquecer.

O grande acerto de “Divertida Mente” é demonstrar o óbvio de maneira alegórica tratando de um tema tão recorrente (mudança) sem cair na preguiça de abusar dos estereótipos, o que poderia ser normal porque estamos falando de uma obra de animação. Não. Assim como já aconteceu em “Frozen” (também da Disney), quando se permitiu diluir um pouco da temática com canções, “Divertida Mente” recorre às piadas e auto-referências artísticas (como quando cita trecho do “Rei Leão”) para fazer uma radiografia do modus operandi das reações de uma menina de 11 anos! Tão óbvio e genial.
… E o exagero do elogio passa por genialidade porque quando a arte recorre para pontuar um comportamento, ela pluraliza o evento e acaba alcançando qualquer pessoa que tenha como desafio sair do lugar cômodo do bem-estar e ir ao encontro do assustador e desmotivante desconhecido. Desta forma você cria um relicário de sentimentos a partir de uma animação tão bem produzida e criadora de um universo encantador e delirante.
Há outras coisas a serem ditas desta produção, uma delas é ter escapado do final feliz, o principal motivador de uma grande parcela da audiência ir até salas de cinema. A proposta de desafio de “Divertida Mente” é como lidar com o revés a partir de um conceito de felicidade que cada um pode construir. Para alguns a solução mais fácil seria “voltar uma casa” e retornar à cidade de origem. O roteiro também de Docter e do diretor Ronaldo del Carmem (filipino que também já havia trabalhado na animação “Ratatouille”) assume um lado bem mais adulto quando aponta para continuidade dos planos a melhor solução para enfrentar o revés e todo o sentimento de frustração que vem a reboque.

Apesar de tudo que disse acima não sei se a ótima animação (pra mim ganhadora fácil do Oscar do ano que vem em sua categoria) terá a mesma repercussão positiva que tantas outras produções do gênero. Muito em função do subtexto de “Divertida Mente”. Algo semelhante já ocorrera com o excelente “Up:Altas Aventuras” (“Up”), animação carregada de bons momentos de humor, mas repleta de melancolia, um derivado muito forte para o público infantil, o maior nicho das animações.
Não me lembro de ter assistido alguma produção estadunidense que tenha sido tão tocante e fugido do lugar comum nos últimos 5 anos como esta animação . Não exatamente porque outros filmes não souberam fazê-lo de maneira decente e digna, sim, temos bons exemplos de películas que surpreenderam pela ousadia no texto, mas quando estamos falando das produções nas quais a dimensão da mensagem pode restringir-se apenas ao entretenimento, a Pixar faz um dos melhores filmes do ano, quem sabe um dos mais emocionantes. Se sair chorando da sala, não se envergonhe, outros fizeram o mesmo.






















