O mal assume muitas formas.

A história americana está repleta de ciclos de perseguição paranoica: índios na chegada ao novo mundo, os negros, os comunistas na década de 50, os terroristas e atualmente os imigrantes. Tal atitude talvez esteja arraigada na origem puritana da população americana. Os puritanos eram um braço dissidente da doutrina protestante inglesa que, perseguidos por Carlos I, se viram obrigados a aportar em novas terras, escolhendo o recém descoberto “novo mundo” como lar. As atitudes severas, os preceitos religiosos rígidos destoavam totalmente da liberdade de uma terra onde a influência real era mera formalidade. E talvez o maior exemplo de perseguição paranoica seja a da “caça às bruxas”, que assim como sua irmã da década de 50, teve efeitos sociais devastadores. Assim, “A Bruxa” (The Witch, 2015), que estreia comercialmente agora, mostra que se Deus escreve certo por linhas tortas, o Diabo se aproveita de todas as curvas que estas criam.

O filme sensação no Festival de Sundance do ano passado acompanha a história de uma família puritana fundamentalista que expulsa da comunidade onde vive se vê obrigada a encontrar uma nova localidade para morar. Calha que esta nova terra é ao lado de uma floresta onde o mal espreita, mal esse que no final das contas está no seio familiar sem ser percebido de início. O subtítulo “Um Conto da Nova Inglaterra” é quase uma dica sutil do que na verdade o filme realmente trata: como a religiosidade latente acaba sendo a ruína do estilo de vida guiado por essa. O desaparecimento do pequeno Samuel e a podridão da colheita tem sim causas “sobrenaturais”, mas as verdadeiras atrocidades são cometidas pelos humanos, com suas frustrações e mentiras.

O filme também pode ser interpretado como uma fabula sobre o crescimento numa família opressora. Ao focar grande parte dos acontecimentos em Thomasin e Caleb, a trama vai mostrando os pontos de vista de uma garota entrando na fase adulta e de um jovem em vias de descoberta da sexualidade. Motivos esses que dão estopim para a pressão familiar guiada pela religião. Falando nos garotos, Anya Taylor-Joy e Harvey Scrimshaw não só conseguem manter, como desenvolvem bons personagens, em comparação com o elenco adulto composto de dois veteranos de peso, com destaque para Katherine, a mãe ensandecida interpretada por Kate Dickie, a eterna Lisa Arryn de Game of Thrones.

Robert Eggers, que ganhou o prêmio de melhor diretor do festival com este debut, acertou em fugir do horror gore focando mais num suspense psicológico do que numa chuva de sangue nas telas. Ao criar uma aura de pressão psicológica crescente os momentos de terror físico se tornam muito mais sentidos, se destacando no decorrer da película. O filme emula bastante o clima de alguns clássicos do gênero como “O Bebê de Rosemary” ao focar mais no terror humano do que nas criaturas maléficas que envolvem o ambiente. Não se preocupem, há sim momentos de sanguinolência, alguns evolvendo infantes, mas há muito mais sugestão do que violência explícita. E isso é bastante bem-vindo deixando ao público o trabalho de imaginar o horror que realmente aconteceu. Dando mais imersão na trama. Tudo apoiado por uma edição que se utiliza de cortes precisos e música climática no ponto.

No final das contas o filme pode até ter uma aura de “filme de festival”. Não deixa de ser verdade, mas justamente por fugir de alguns dos clichês do gênero e inovar em algumas viradas da trama, que se torna uma obra bem recebida, dando um frescor ao gênero tão baseado ultimamente na cartilha de “mostrar demais e não aprimorar a coesão da trama”. Pode não ser o filme de terror que você esperava, mas é com certeza mais assustador por usar o mal como um subproduto da natureza mundana. O mal assume muitas formas. A principal delas é a humana.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Universal Pictures Brasil

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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.