Para onde vai um cineasta após dirigir Boyhood?

Durante a última semana o festival South-by-Southwest (SXSW) ocorreu nos EUA, onde vários filmes tiveram suas estreias mundiais. O SXSW é um evento que engloba muito mais do que o cinema, e normalmente suas ofertas em filmes são bem escassas em títulos interessantes. Sundance é o grande chefão do cenário independente americano, e isso fica claro todos os anos.

Entretanto, antes de compartilhar com vocês todos os filmes que eu vi nas últimas semanas, eu me senti na obrigação de falar sobre o novo longa de Richard Linklater que estreou no SXSW. Após dirigir o filme mais aclamado pelo crítica do século XXI e bater na trave pela corrida do Oscar, o cineasta não mudou seu estilo nem um pouquinho. Apelidado de uma sequência espiritual ao seu clássico coming-of-age Dazed and Confused, Linklater agora nos apresenta a Everybody Wants Some!!. Confira o trailer legendado:

Enquanto Dazed and Confused era um panorama da juventude dos anos 70, aqui somos apresentados ao mundo universitário dos anos 80. Os críticos receberam o filme de braços abertos, dizendo que ele não tem uma plot discernível e isso realmente não é necessário. O poder de Linklater ao escrever seus roteiros parece ser o suficiente para acompanharmos as maluquices de um grupo de universitários sem risco de cairmos no sono. Além disso, é bom ficar de olho no elenco do filme, praticamente todos desconhecidos do grande público. Dazed and Confused revelou para Hollywood nomes como Ben Affleck e Matthew McConaughey, e os elogios ao elenco de Everybody Wants Some!! parecem implorar para que o mesmo aconteça com os jovens atores da vez.

Por último, honrando o nome da coluna, vamos falar sobre as possibilidades de Oscar: nulas. O filme está sendo distribuído pela Paramount, que tem uma coleção explosiva de títulos em 2016 com o potencial de conseguir estatuetas (falaremos mais disso ao longo do ano). O lançamento em abril e o próprio tema do filme em si não ajudam nada.

Agora vamos às nossas reviews!

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The Witch é um daqueles filmes que identifica com precisão os diferentes tipos de público de terror e inexoravelmente os separa. Talvez isso nem se limite apenas a um gênero específico, algo que torna o longa de Robert Eggers uma ótima oportunidade para descobrir se você pode confiar na opinião de alguém (dependendo das justificativas). Falando por mim mesmo, The Witch é uma obra-prima de terror psicológico que se junta a outros ótimos e recentes filmes do gênero que se recusam a empregar os velhos conhecidos truques do horror. Temos aqui um drama familiar de época, permeado por questionamentos religiosos e uma preocupação histérica com o pecado. Assistimos com lentidão angustiante a família da protagonista Thomasin se corroer por dentro quando manifestações sobrenaturais colocam em xeque a devoção de seus membros.

Essas improváveis narrativas para um filme de terror são acompanhadas de uma visão espetacular do diretor (e originalmente designer de produção e figurinos) Eggers. Seu elenco é magnífico, sendo que Anya Taylor-Joy se qualifica como nada menos que uma estrela em ascensão. A ambientação é construída com extremo cuidado. A cinematografia, com suas cores lavadas e posicionamentos de câmera sempre espertos, cria ao lado da dissonante e cacofônica trilha sonora o clima opressor que o longa precisa. Caso você aceite o ritmo lento da narrativa e sua ausência de sustos, as imagens de The Witch ficarão impressas em sua memória por um bom tempo. Caso isso não aconteça, tenha pelo menos respeito com o restante da audiência. Avaliação: ★★★★½

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É comum criticar biografias de grandes personalidades mundiais pelas suas estruturas convencionais e pouco inovadoras. O que Chatô consegue fazer é me jogar para o outro lado do mesmo pêndulo: a história de Assis Chateaubriand é dilacerada pelo diretor Guilherme Fontes, pegando o ritmo da mais maluca comédia dos irmãos Coen e subindo a voltagem muito, muito mais. O fio narrativo é tênue e quebradiço, de tal forma que um leigo a respeito do magnata pouco irá extrair da experiência. Inúmeras experimentações são feitas com a montagem e o roteiro, resultando numa salada mista tão espantosa que os personagens se perdem completamente no redemoinho de informações. As comparações com Citizen Kane são fáceis (e realmente fazem sentido), mas é visível que Fontes quis imprimir um tempero brasileiro no longa. A outra comparação nada tem a ver com o filme em si: Boyhood levou 12 anos para ser feito, de propósito. Com Chatô foram 20, sem querer. O resultado está na tela. Avaliação: ★★

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Racing Extinction é um documentário que veste sem qualquer vergonha sua indumentária ativista. O filme funciona como um grande alerta sobre a extinção de várias espécies do planeta Terra caso o ser humano não se mova. Não há espaço para sutilezas: a narração, muitas vezes do próprio diretor, invade o filme por completo. É um estilo de documentar que me desagrada, mas Racing Extinction pelo menos não é apenas um alerta do apocalipse. O longa pode acabar encaixotando narrativas demais em seu bojo, mas faz isso a fim de mostrar várias ações ao redor do planeta que estão ajudando a mudar a situação. Um defeituoso porém efetivo chamado à ação, que traz uma “ótima” variedade de materiais chocantes e pode abrir mentes para a situação de perigo no qual o nosso planeta se encontra. Avaliação: ★★★½

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Dado o nível das críticas negativas direcionadas a In the Heart of the Sea, acabei me surpreendendo de forma positiva com o filme. Entretanto, todas as boas experiências que extraí do projeto de Ron Howard são relacionadas ao virtuosismo técnico: a ótima cinematografia de Anthony Dod Mantle, com ricos tons de verde e um belo enfoque na luminosidade solar, e a segura direção das cenas de ação envolvendo as baleias. O convincente CGI é mesclado com uma edição rápida e certeira, disposta a mostrar para o expectador o funcionamento de um navio. Cordas, mastros, âncoras, velas e arpões são exibidos constantemente, emprestando um tom de realismo e complexidade ao movimento do navio Essex.

Na parte do enredo, entretanto, nada digno de nota. O longa mistura uma história de sobrevivência com o ataque da baleia homicida, emoldurando essa narrativa através da busca do lendário Herman Melville por uma história que futuramente inspiraria Moby Dick. Como em muitos filmes de Ron Howard, o sentimento de manipulação emocional é presente. Temos até, vejam só, momentos de questionamento sobre a caça às baleias e a posição do homem frente à natureza. Não que eu acredite nesse tipo de reflexão existindo nessa época (ano 1820). Nem por um segundo. Avaliação: ★★★

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Enquanto Part 1 me reduziu à indiferença, Mockingjay – Part 2 pelo menos teve alguns momentos genuinamente interessantes. A complexa dinâmica entre Katniss e a cada vez mais poderosa Coin é o principal ponto de interesse do último capítulo da saga, que se compromete a questionar a revolução dos distritos e avaliar o quão legítimas são as ações dos rebeldes. Entretanto, há um distinto sentimento de inevitabilidade à coisa toda: desde o início a vitória da rebelião parece assegurada. É óbvio que a narrativa principal acaba sendo a de Katniss (e, infelizmente, a de seu horrorosamente resolvido triângulo amoroso), mas o pano de fundo militar parece ser tão certeiro que as ações da protagonistas perdem o significado. O que acaba machucando muito o filme são os dois principais momentos finais: o primeiro é um plot twist totalmente spoileado pelo posicionamento de câmera (imagem acima), o segundo sendo o epílogo dolorosamente ridículo. Agora, que tal parar de dividir livros pequenos em duas partes? Avaliação: ★★★

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Segundo o IMDb, Nina Forever é uma mistura de terror, romance e comédia. Parece bagunçado? É. Entretanto, o filme consegue extrair ótimos momentos de sua premissa estapafúrdia: dois jovens britânicos se apaixonam, mas têm seu relacionamento atrapalhado pela ex-namorada morta do rapaz, que insiste em ressuscitar toda vez que o casal faz sexo. Os diretores Chris e Ben Blaine fazem de tudo com esse enredo, desde momentos deliciosamente cômicos com a namorada morta (Fiona O’Shaughnessy, num papel que já pode ser considerado como um dos melhores do ano) a um drama existencial sobre luto e superação. É difícil se importar com o segundo quando o primeiro está presente, mas há algo estupendamente original em Nina Forever que mantém sua atenção até nos momentos mais aborrecidos. O final do longa, entretanto, é costurado de qualquer jeito na trama e dá uma forte sensação de coito interrompido. O que é adequado, já que Nina Forever gira basicamente em torno de sexo. E morte. E sangue. E várias outras coisas. Assista. Avaliação: ★★★½

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The Survivalist é um minimalista drama/suspense pós-apocalíptico, explorando com um orçamento bastante reduzido a jornada de um homem em busca apenas da sobrevivência. A visão do longa do diretor Stephen Fingleton é a mais sombria e dura possível: os personagens são emocionalmente distantes, muito quietos e quase que cruelmente focados em sua própria subsistência. Esse ponto de vista distingue The Survivalist de outras ofertas do gênero, por mostrar com exaustiva simplicidade e total desatenção com qualquer elemento humano a derrocada de uma civilização em função de seu próprio egoísmo. Ao final, o longa se acovarda um pouco com sua própria visão, mas a direção cirúrgica e inabalável em mostrar os mais torpes detalhes do comportamento de cada personagem é digna de nota. The Survivalist nos apresenta um selvagem e assustadoramente realista panorama do apocalipse. Recomendo. Avaliação: ★★★½

É isso aí. Fiquem de olho no meu Letterboxd para mais reviews e se preparem, pois o festival de Cannes está chegando!

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