Às vésperas do último episódio de Objetos Cortantes, esbarrei em uma música chamada Your Love Is Killing Me. Com este nome dramático, seria impossível que eu não aceitasse a recomendação do YouTube e fosse atrás da canção, da letra e da artista. Os versos vão de uma descrição direta à beleza artística de reinventar a língua em que são escritos para transporem os sentimentos retratados. “Você me diz que você gosta / quando eu o deixo passar por cima de mim. / Você me ama enquanto me tortura” são exemplos do que encontramos nas estrofes. A cantora fala, então, não de uma relação angustiante, na qual as duas pessoas se odeiam e estão tentando se destruir mutuamente por qualquer que seja o motivo. Não, a referência aqui é sobre uma forma de amar que adoece, que amputa e muitas vezes mata — nos mais diversos sentidos de todas essas palavras.
Uma coisa que pouco se comenta é que tendo bilhões de pessoas no mundo, temos bilhões de definições sobre o amor. Ainda assim, agimos como se só houvesse uma: estabelecemos algumas regras dentro de um senso comum ligadas à nossa memória coletiva. Os limites sociais, ou mesmo dos grupos que fazemos partes, limitam aqui e ali o território do amor em uma lógica geográfica que se confunde o tempo todo. A partir disso, portanto, ou daquilo, não se é amor. Então quando algo ocorre, principalmente quando ligado à tragédia, dizemos no susto que, claro, aquilo não é, nunca foi e jamais será amor. O amor não machuca.

Será, no entanto, que a lógica do amor só faz (e deve fazer) sentido ao amado? Já dizia Oswald de Andrade, colocando a frase na boca de uma personagem sua, que o amor é a quebra de toda ética. Nossas regras, humanas e racionais, não acompanham os sentimentos. Temos outro exemplo em outro texto dramático: Salomé de Oscar Wilde, peça que o autor teria escrito em uma madrugada, depois de passar muito tempo obcecado pela história da mulher que pede a cabeça de João Batista, personagem bíblica. Na peça, a cabeça é pedida por paixão, como demonstração de amor. A protagonista em nenhum momento deixa de amá-lo. Sua lógica, de machucá-lo como forma de demonstrar seu amor, inconsciente talvez da própria realidade do sofrimento que impunha, relaciona-se com essa complexidade.
Em Objetos Cortantes lidamos com este amor. Não com o ódio ou com o desprezo: estes são quase indiferentes. Explico: enquanto negligenciadas pela figura materna, as personagens que acompanhamos estão salvas. O perigo está quando a vontade de ninar surge a partir da oportunidade dada pelas filhas. Do mais óbvio possível para o menos óbvio, o roteiro faz um caminho intrigante ao nos surpreender com a ideia de que não são os objetos cortantes, como o título insinua, o real perigo aqui — ou não aqueles objetos que pensávamos. O perigo está no que vai no leite, no que se mistura ao mel, no frasco azul, quase infantil, carregado em bandeja pela mãe.
Milk, o último episódio de Objetos Cortantes
Milk. Substantivo. O primeiro alimento do homem; dos mamíferos. Funcionava, antigamente, como base para sacrifícios. “Caráter sacramental”. É aquilo que a pessoa consegue comer quando não consegue comer sozinha. Símbolo do cuidado, talvez? Usado também em cerimônias de purificação. Das várias aparições na bíblia, a mais famosa talvez seja a descrição da Terra Prometida como aquela do “leite e mel”. Sem deixar de fora o grande símbolo que é o da mãe que segura o bebê ao colo, para alimentá-lo, um quase ritual de adoração de nossa espécie. A explicação, também, para o nome de nossa galáxia, via láctea, segundo a mitologia grega.

Para os pouco preocupados com significados, dá para resumir o nome do episódio com a bebida estranhamente disposta para Camille e Amma no jantar em família. Este, aliás, é o primeiro que assistimos desde a chegada da repórter à cidade. Milk começa com a filha mais velha de frente à casa como quem entra pela primeira vez e é recebida como se finalmente tivesse, de fato, retornado. Sua mãe e padastro, variações modernas das figuras que abandonam os filhos na floresta para sobreviverem, recebem-na bem, pedindo que sente e compartilhe o momento com eles.
Antes de prosseguir, preciso falar do grande problema do episódio — até porque não ficarei muito tempo nisso. Aos que se permitirem lhe assistir somente uma vez, sem uma segunda para tirar a prova, o oitavo episódio pode parecer fraco. Dentro da sequência proposta pela produção, e talvez pela expectativa de seu desfecho, vemos quarenta minutos quase desassociados com o restante da temporada, lembrando o começo atmosférico, mas desajeitado.
Com diálogos fracos, motivações pouco justificáveis, destinos abertos e certo raciocínio ilógico no que diz respeito à resposta policial aos problemas do enredo, não dá para afirmar que a minissérie termina em seu auge. Não que este seja um determinante, afinal, mesmo Big Little Lies não fez isso. Outras também não. O final é satisfatório, mas não deixa de causar um estranhamento, principalmente aos que assistirão futuramente em maratona. Da segunda vez, menos empolgado, pude aproveitar melhor a experiência de conclusão da história. Fica a recomendação.

Mesmo co-escrito com Gillian Flynn, é perceptível que momentos essenciais foram retirados na transposição do livro para o roteiro. Não me entenda mal, não sou apegado com a obra original (longe de), mas lá há boas soluções para movimentos que aqui aparecem sem finalidade crível. Um exemplo é o retorno de Camille à casa. No livro, a jornalista é orientada a ir para a casa e descansar, sem dizer nada a ninguém, enquanto espera pelo mandado de busca na casa da mãe. Aqui, no entanto, vemos alguém correndo para a casa, sem um plano definido, na tentativa de salva a meia-irmã. Conforme os minutos passam, as decisões de Camille ali dentro vão ficando cada vez mais absurdas. Para explicá-las, pretendo recorrer ao livro — o que evidencia a falta de algumas passagens.
Desta vez acolhida, Camille chega para o jantar. Além de participar de uma estranha conversa que faz referência ao papel da filha menor dentro da casa, a repórter se distrai e se entrega à comida e à bebida como se não tivesse amanhã, rendendo-se ao copo de leite à sua frente. É-nos um ruído, essa decisão, esse descuido. Enquanto isso, com o símbolo de poder e diferenciação sobre si, uma coroa de flores, Amma fala sobre Perséfone e dá uma deixa sobre as agulhas (o verdadeiro objeto afiado/sharp do título?) que aparecem em sua rotina, as quais são apontadas pela mãe como diferentes, já que as outras são fatais. (Seriam tão diferentes assim?) Uma lição para não se enganar: se o roteiro tende a nos mostrar Adora como a grande vilã da história, nunca a vimos cometer os crimes relacionados às garotas que desapareceram. Então, quando Amma diz que é a deusa grega responsável por punição nas terras de Hades: aí está nossa maior pista.
Não posso deixar a cena do jantar antes de creditar as atrizes Patricia Clarkson e Amy Adams pelo melhor momento como dupla na série. Deixemos de lado a sequência em que a primeira assume para a segunda que nunca a amou, o olhar trocado na mesa é maior do que todas as palavras afiadas trocadas antes. Há muito do que no estudo da atuação chamamos de “subtexto”, tão difícil de construir. Sem falar com todas as letras, Camille tenta comunicar à mãe que “sabe de tudo”. Não há arrogância em seu olhar, no entanto, mas uma tristeza recente.

No livro, atormentada pela descoberta e cansada deste assombro representado pela figura materna, Camille resolve se deixar “cuidar”. Há um senso de provocação nessa decisão suicida, cutucando a mãe e tudo o que ela pode oferecer como perigo, feito aquela criança que enquanto apanha não derrama lágrima, não grita e, quando mais ousada, pede por mais. É também uma escolha de martírio, oferecendo seu corpo como futura prova para condenar a mãe. No meio de tudo, enquanto deseja que tudo acabe, um desabafo: “Precisei de você desde sempre, mamãe. De verdade. Não uma precisão criada por você para que pudesse ligar e desligar quando quisesse.”
Na minissérie, no entanto, conforme Camille começa a passar mal, isso não fica muito claro. Primeiro, pensamos que há um fingimento para que Amma não seja mais cuidada, livrando a irmã de ingerir mais veneno. Após, uma tentativa de resgate. Depois, desisti e só esperei sem me apegar muito à lógica da coisa. Esta de lado, só reparei no líquido vermelho no frasco azul, muito parecido com sangue, como se a mãe tivesse levando sangue para as filhas.

Vamos à delegacia, onde os policiais perdem algum tempo com John, arruinado agora que a irmã está morta — itálico do livro. O ator tem uma fala bonita e um bom momento com os outros dois, que só nos faz questionar a direção que a investigação tomou. Há uma constante insinuação sobre algo entre o chefe de polícia e Adora, o que explicaria por que uma das ligações entre as meninas não fora investigada como suspeita. A obra original se ausenta dessa necessidade de arrumar desculpa, porque lá, assim como para o leitor, Adora é suspeita desde o começo, principalmente por Willis, que aqui é só um cara desajeitado, munido por uma intuição que escancara coincidências que não fazem bem a histórias policiais.
“Às vezes você fica com alguém, e a única razão é que você não tem a energia necessária para passar pelo fim disso.”
A conexão entre esta cena de interrogatório e a chegada dos policiais à casa de Adora para resgatar as irmãs não faz sentido. Ela é explicada por um “o seu editor chegou gritando na delegacia”. Bom, não é assim, até onde sei, que as coisas funcionam. Se suspeitassem da mulher, ambos teriam que ir em busca de um mandado com uma boa justificativa e esperar certo tempo até consegui-lo. A minissérie vende bem o momento em que os responsáveis pela investigação se dão conta de que estão olhando para tudo da perspectiva errada. Nós assistimos a isso. O que não realiza bem é a tarefa de arrumar uma solução para este problema. Para isto, somente recorrendo ao livro ou sendo um telespectador muito indulgente.
Não é muito difícil relevar isso, afinal, mesmo sem sentido, a sequência de resgate é aterrorizante e melancólica. Estes sentimentos são trazidos graças ao clima geral da série, que é de desesperança. Tudo, na verdade, é pior do que se imagina e o retorno ao seu lar só te faz perceber o grande pesadelo que as coisas eram. De pontas afiadas, cada um dos lados do triângulo destacado na série desde o começo têm um destino.

Para que falemos deles, será preciso separar cada um e fazer uma última análise de seu perfil:
Camille: a filha regressa
“Uma criança criada com veneno considera dor um conforto.” A frase, na verdade, faz referência a Amma, mas não podemos deixar de ver muito de Camille aqui. Em estudos sobre automutilação, muitos autores enfatizam o desejo de se aliviar das pessoas que recorrem a isso. Mas para falar sobre este sofrimento induzido a si mesmo, seria necessário resgatar a história do sofrimento, desde sua estranha ligação feita com a virilidade masculina, passando pela imitação do sofrimento de Cristo feita por muitas mulheres do período medieval aos dias de hoje.
Dentro da lógica de Camille, fiquemos com duas possibilidades sobre as marcas: a) ela pratica como a cicatriz penal, que marcava o corpo para fazer da pele o espelho de uma alma perversa — partindo do princípio de que ela mesmo se vê como perversa, e não uma pessoa boa, como o que fora declarado em Ripe; b) ela o faz para ter o domínio do próprio corpo. Isto é, a única pessoa capaz de machucá-la é ela mesma, e não a mãe, que tanto tentou. Suas marcas são responsabilidades suas e dentro de suas regras, não de outras pessoas: sem nomes, sem namorados, como mencionado.

“Eu nunca terei uma casa.” Sentindo-se assim, nossa grande protagonista faz a viagem de retorno para lidar com os problemas da família, agora escancarados. O que vemos nesses oito episódios, é uma espécie de jornada na qual ela é vista como uma heroína que precisa voltar à sua terra, enfrentar um inimigo e resgatar alguém. Há tardiamente o entendimento que não dá para se retirar alguém de um ambiente danoso sem que a pessoa tenha em si algum dano. O real destino da personagem fica em aberto — a série não aborda a recaída do livro. No entanto, depois de atravessarmos essa maratona de questões complicadas, não é difícil imaginar alguém que lá no futuro encontrará sua paz de alguma forma.
“Teve sorte de sua mãe não demonstrar grande interesse por você.” Ficamos assustados, há algumas semanas, quando Adora disse à filha que nunca a amou. Conforme a história se desenrola, percebemos que foi este desprezo que salvou sua vida. Esse jogo de amar e odiar a mãe, mas sempre ser independente a seus carinhos, deu-lhe a mesma independência que une ambas. Tornou Camille, também, esta pessoa incapaz de superar o período da adolescência sem que o encarasse de frente — algo que acompanhamos. Por último, temos um conflito que nenhuma das mídias responde: esse senso heroico pela meia-irmã pode ser um sintoma da doença da mãe se manifestando. Nunca saberemos. “Eu cuidei bem de Amma por causa da gentileza? Ou gostei de cuidar de Amma por ter a doença de Adora?” Que prossiga acreditando na gentileza.

Não adianta ignorarmos uma infância cruel. É preciso lidarmos com isso, porque há sempre uma reflexão direta. Esta aparece nas relações construídas com os outros ou nas marcas geradas em nosso corpo. Precisamos voltar e lidar, entender melhor, exorcizar essas marcas.
Adora, a bruxa má de contos de fadas
A mãe não demonstra interesse em Marian quando esta está bem. De fato, parece puni-la. A mãe segura a criança apenas quando esta está doente ou chorando — trecho do relatório escrito por uma enfermeira; livro. Falei há pouco que a “lógica” do amor de Adora, que mata através do carinho, faz sentido para ela, numa manifestação do cuidado que sua mãe não teve. O que é preciso destacar, antes de prosseguirmos, é que mesmo derrapando aqui e ali, a minissérie trata seu estado como doença, justificativa que criou para seus atos. Isto é, não adianta me apresentar uma doença que existe fora das telas, mas tratar o doente como representante da maldade pura do ser humano, sem levar este fator em consideração. Objetos o faz, e agradeço a série por isso — longe do desastre visto em filmes como Atração Fatal, sabe?
“Eu acho que talvez todos nós devêssemos ter acabado junto com ela.” Adora é a responsável pelo clima de contos de fadas presente na história. Aparenta ser a mãe e a madrasta para as duas filhas, mudando o modo de tratamento conforme a pessoa. Sua personalidade, intocável, também lhe coloca no alto de sua torre, sem se importar com as consequências daquilo que faz. Em seu comportamento, uma estranha relação com o luto, ignorando (como parte da doença?) sua participação para chegar a este estado. No passado, uma infância perdida na floresta, tentando voltar para casa.

Não é preciso consultar um dicionário de símbolos para identificar que há algo de sagrado a respeito da figura da maternidade, não só na arte, mas em nossas vidas. Tocando nessa representação para reverter nosso conceito sobre ela, Objetos Cortantes, entre outras coisas, nos faz refletir sobre alguns papéis determinados e nos instiga a refletirmos a relação que temos com as pessoas, duvidarmos mesmo da mais absurda possibilidade: uma mãe que vai matando suas filhas pela forma de zelo que impõe a elas.
A produção da HBO falha em ser honesta em alguns pontos: Adora, a senhora rica, praticamente dona da cidade, não ficaria muito tempo presa. No livro, Alan paga (imediatamente) a sua fiança, e ela espera o julgamento em liberdade, sendo posteriormente condenada. Faz mais sentido e se adequa melhor à visão de poder que vimos nos outros episódios.

“Ele escreve cartas para ela nos dias em que não pode visitá-la.” Aproveitando a deixa, leríamos as atitudes de Alan como amor? Como reflexão da tradição do matrimônio? “O casamento é considerado um vínculo indissolúvel.” Dessa forma, assim como algumas mulheres no passado, ele está preso a Adora seja por amor, seja por convenção, abaixando a cabeça a suas ordens, como na história de João e Maria.
Amma: Ártemis
Vestida como a deusa grega caçadora e protetora das meninas, Amma chamou suas vítimas para “brincar”. Ártemis, a deusa em questão, é também associada aos animais selvagens e tem um relacionamento ambíguo com o feminino. Utilizando suas ninfas companheiras, contemplamos nas duas cenas dos créditos o quão terrível é o lado de Amma que nunca vimos, por mais que tivéssemos presenciado insinuações. Respondendo à pergunta que deixei em um texto passado, dentro da lógica da série, somente uma menininha para matar outra menininha. A resposta estava na pergunta, como apontou um comentário do texto.
O assassino é uma mulher que ressente força feminina, que vê isso como vulgar — diz Willis para Camille quando explica que suspeita da mãe dela há muito tempo. Para entender a cabeça do assassino da história, preciso explicar de onde vem a complexidade que enxergo em Amma. A garota convive com três gerações diferentes de mulheres e tem uma dinâmica para cada uma delas. Não só presa dentro da situação em que vive, como Camille e Adora, a jovem tem uma leitura incrível dos três mundos e consegue se distanciar ao ponto de manipular todas as pessoas ao seu redor. Só acontece aquilo que ela deixa que aconteça. Isto não ocorre simplesmente porque Amma é um gênio, como outras séries justificariam, mas pela sua capacidade de adaptação — algo que nem todos temos, porque encontramos conforto em determinados tipos de situações e não em outros.

Às amigas, Amma representava a deusa das ninfas, quem era capaz de arquitetar tudo, a grande superioridade. Para Camille, Amma era a meia-irmã desajeitada, mas fascinante, que precisava ser resgatada de sua vida (numa representação falsa da própria realidade), como a aranha dentro do frasco. Para a mãe, no entanto, a jovem deixava toda a ousadia de lado e usava da dissimulação para parecer que precisava de seus cuidados. Assim, enquanto seu organismo assimilava o veneno durantes os anos, ela competia com a figura intacta e perfeita de Marian, sempre a um passo de superá-la — porque não morreu. “Eu sou incorrigível, ela apenas não sabe”, já dizia para Camille nas primeiras conversas.
Então temos essas duas meninas escolhidas por Adora, Natalie e Ann: selvagens, destacáveis, rebeldes. Assim como tenta consertar tudo, Adora lhes trouxe para sua intimidade e fez de tudo para ajudá-las. Elas, no entanto, não seguiam o jogo do cuidado, virando-se contra essa figura fantástica — em episódios passados, ficamos sabendo que uma delas mordeu a matriarca Crellin. Amma, vendo essa força feminina que ia contra seus métodos, que não se deixava acarinhar como ela fazia, que colocava em jogo a tradição da família, resolveu tomar uma atitude e se livrar das garotas.

Há alguns episódios, quando Amma repara na atenção dada a Willis durante sua apresentação, ressente-se com Camille e foge para chamar o foco para si. Em outros momentos da série, inclusive, brigou com a meia-irmã para acentuar o cuidado dado pela mãe. Isso complica ainda mais nossa visão sobre esta garota, que é independente para manipular outras personagens, mas precisa deste algo que somente outra pessoa pode te dar.
Seu destino, também em aberto, é dado quando vemos que não consegue não levar sua casinha consigo, um modo da história expressar que Camille não conseguiria tirar algo puro dali.
Conclusões
Não poderia terminar este texto sem apontar que Objetos Cortantes é, sim, meio irresponsável durante sua temporada. Diversos temas não são tratados com a grande responsabilidade que esperamos deles, desde a própria doença da protagonista à sequência na floresta que nunca entendemos direito como se passou. Se há doença envolvida, é preciso que o cuidado demonstrado com Adora se estendesse para toda a minissérie e mais atenção fosse dada a este detalhe.
Dito isso, vale confirmar que a minissérie não conseguiu (acredite) ser mais bizarra do que o livro, que é bem descritivo em algumas coisas. Quem gostou bastante dos episódios e sentirá falta daqui para frente pode aproveitar para ler e complementar sua experiência — recomendação apenas neste caso. Um series finale meio óbvio do meio para o final e com uma ruptura desagradável não estraga a experiência de acompanhar uma minissérie que soube se ater à própria proposta e criar um ambiente visual que valesse a pena ser assistido e estudado. Assistimos. Estudamos.
Mesmo acostumados a séries de tevê como um veículo responsável por quebrar tantas regras e se tornar vanguardista dentro da nossa cultura, às vezes nos assustamos quando os critérios mais clássicos são questionados. Por isso é tão difícil e arriscado entregar-se a alegorias e redescobrir dentro destas nossas relações ocidentais outros modos de perceber o perigo e a ternura da nossa rotina. No caso da minissérie, a percepção de maternidade, casamento, corpo e herança vão do sagrado para seu oposto.
O resultado se deu, como vocês viram, em oito episódios melancólicos, desagradáveis de assistir, de se identificar, de mesmo recomendar. Contudo, vendo o cuidado voltado aos mínimos detalhes, não podemos confrontar os criadores sem assumir que o desejo de questionamento não ficou só na cabeça deles. Não, saiu da tela e nos obrigou a refletir sobre alguns papeis, algumas tradições e algumas dinâmicas. Isto porque, entre muitas coisas, o desagradável tem sempre algo a nos dizer.
——-
ps:
(1)
Outros símbolos:
A cabana na floresta:
A floresta por si só já é um símbolo de um distanciamento da sociedade. Podemos vê-la como um mundo no qual todas as garotas poderiam se distanciar do perigo oferecido lá fora; se distanciarem de Adora, do luto, das brigas, da família. A cabana foi responsável para que Camille se sentisse crescendo, tornando-se mulher.
Os dentes:
“Não é o sorriso a maior arma de uma garota?” O sorriso / os dentes são vistos com certa sexualidade/sensualidade. Há uma força de espírito vinda deles. É por isso que, na sequência durante os créditos, há algo tão selvagem e forte em Amma mostrando dentes afiados num sorriso asqueroso.
Os ventiladores:
Tradicionalmente, o vento tem o símbolo da passagem de tempo, o que pode explicar os ventiladores como forma de conectar o passado e o presente.
(2)
No livro, há uma sequência na qual Amma, visitada por Camille, explica o que aconteceu e por que fez o que fez. Esta cena fez MUITA falta aqui.
(3)
Aceitem minha recomendação e reassistam Cherry, sexto episódio, e para mim ainda o melhor.
De recomendação fica também a música mencionada: Your Love is Killing Me é da Sharon Van Etten.
(4)
Para falar sobre simbologia, fui buscar auxílio. Deixo alguns livros como referências para quem quiser se aprofundar:
- “Art and the wish to die”, Fred Cutter
- “Dicionário Ilustrado de Símbolos”, Hans Biedermann
- “Dores, sofrimentos e misérias do Corpo”, Alain Corbin
(5)
Diferente dos outros textos, para este resolvi entregar o texto sem pressa: assisti ao episódio, reli parte do livro, passei uma tarde na biblioteca da escola, reassisti ao episódio, fiz anotações e vi trechos de outros episódios. O objetivo era fornecer a reflexão mais completa que eu conseguisse neste momento — assim como todas as semanas, dentro de um prazo semanal, meu objetivo foi escrever o melhor texto que eu pudesse.
Agradeço bastante todo o retorno positivo que tive. Todos os comentários são lidos, e fico sempre grato pelo carinho demonstrado, além da companhia que aparece por aqui.
> SHARP OBJECTS (Objetos Cortantes) – Livro Vs Série #1 feat Carol Moreira!
Se você leu essas quatro mil palavras até aqui, venha nos fazer companhia nos comentários. (Quem topa ranquear os oito episódios do melhor ao pior?) Foi uma ótima experiência dividir este espaço com pessoas que sempre traziam uma informação a mais. Conversando com pessoas que assistiram a série por fora, é engraçado como elas acham que está tudo jogado e sem sentido, enquanto nós conseguimos, juntos, ligar todos os pontos.
Nos vemos no #MêsDoHorror.























