O sobrenatural não é real para todos. Se o horror fosse contemplar unicamente as pessoas que acreditam nele, seria um gênero ainda mais negligenciado em seu prestígio. O mesmo pode se dizer da comédia e do drama que não se propõem apenas, respectivamente, às pessoas que querem rir e às que querem chorar. É preciso ter algo no recheio da coisa que a eleve ao patamar do pessoal, daquilo que nos toca. A identificação entre público e personagens é quase regra para se fazer essa avaliação. Mas e se os monstros nós não conhecemos e as experiências sobrenaturais não temos, onde vai se dar nosso encontro entre as narrativas da tela e as nossas narrativas cotidianas? Pensando nisso, os roteiros se afiam em suas linguagens e estruturas para utilizar suas criaturas e cenários não apenas para mexer com nosso senso de perigo e de receio do desconhecido, mas para falar sobre a vida —o maior e principal assunto.

“As metáforas são uma coisa perigosa. Com as metáforas não se brinca.”

Milan Kundera, A insustentável leveza do ser

A METÁFORA NA TELEVISÃO

Como uma pessoa que tem na escrita seu momento mais claro de expressão, vejo-me diariamente lidando com o desafio de exprimir na comunicação oral aquilo que pretendo. Falar exige a agilidade nem sempre disponível em nossa forma de pensar as questões da vida. Falar, mesmo se dando entre pausas, silêncios que constroem os ritmos da linguagem e da fala, exige a morte da espera. Durante um diálogo, se ficamos alguns segundos a mais do que o que é lido como natural pelo nosso grupo ou parceiro de conversação, somos indagados sobre o silêncio, a hesitação. Isso porque até o silêncio tem significado — algo que venho tentando estudar no teatro. É para resolver essa questão que constantemente recorro às metáforas, às analogias e às comparações. Troco as coisas de lugar e vou para os famosos exemplos.

Isso se dá porque quem está na situação não vê a situação ou vê sempre de uma forma comprometida. O distanciamento, quando você faz parte da realidade, é impossível, por mais que se queira. Dá para chamar, aqui entre a gente, de lei da parcialidade improvável. Para vencê-la, tomamos a metáfora como distanciamento. Usamos outras pessoas, animais e objetos para mostrar a seriedade ou impossibilidade por trás de nossas mensagens. Mesmo as complicadas questões de ciência vão se tornando amenas diante desse recurso. Este chega às artes em suas diversas mídias. As artes visuais quase que são tomadas somente por isso: pinturas, esculturas e fotografia, por exemplo, caem sempre no colo da população para ter seus significados cavados diante de cada olho que interpreta o mundo através de si. Precisa significar algo.

Kristen Bell and D'Arcy Carden in The Good Place (2016)
The Good Place (NBC).

Na televisão, então, a metáfora chega para fazer divisões mais severas entre os diversos formatos possíveis na plataforma. É preciso a metáfora para separar de vez a ficção da não-ficção, as séries dos jornais, os filmes das séries e os retratos autobiográficos daqueles cujas personagens foram construídas do “zero” — entre aspas, mas isso é assunto para outro texto. Os (bons) roteiristas e os produtores se esforçam para enriquecerem seus textos nesse distanciamento proveniente deste meio. Às vezes, as tais metáforas passam despercebidas, pelo menos no princípio, mas um olhar que dispõe a procurá-las atestará sua existência.

É assim que percebemos o discurso de The Good Place (NBC), que constrói uma pós-vida para falar, sutilmente, sobre a dificuldade da vida e da impossibilidade de ser bom dentro dos parâmetros morais que a sociedade inventou para si; tudo apadrinhado por uma lógica divina de justiça que há de nos falhar todos. The Handmaid’s Tale (HULU), por sua vez, na pluralidade de seus temas, troca nosso presente para nos assustar com as possibilidades de uma América, infelizmente, possível. A série estrelada por Elisabeth Moss vai tão longe para debater a liberdade feminina num contexto (ocidente) em que um passo foi dado em direção a isso, mas há uma ameaça de que muito mais se dê no sentido contrário. Ousadamente, dou exemplos rápidos ao dizer que Anne with an E (CBC/Netflix) é sobre traumas, Pose (FX) sobre maternidade e Black Mirror (Channel 4, Netflix)… Bom, Black Mirror é sobre muita, muita coisa.


O GÊNERO PERFEITO: O SUSTO COMO MÉTODO

Na plataforma perfeita para isso, afinal, não parece haver termômetro melhor para se medir uma população do que a programação de sua televisão, chegamos ao gênero perfeito. O horror precisa, obrigatoriamente, de metáforas. Enquanto Fleabag (Amazon), Insecure (HBO) e outras produções ainda podem ser vendidas e perguntadas como parte biográficas, no horror a ficção é o mínimo. No cinema, pouco se é produzido na fórmula do “baseado em fatos reais” quando olhamos o total, e na televisão isso quase não se vê. Até porque, em era de zombies e vampiros em alta, ficaria difícil colocar essas quatro palavras juntas em um pôster.

Não achemos que isso limita o horror, entretanto. O que ele ganha é justificativa para existir. Se lhe é necessário a metáfora, o gênero encontra comentários sociais para fundamentar suas produções. Nessa lógica, tivemos Penny Dreadful (Showtime) falando sobre a posse do corpo, Santa Clarita Diet (Netflix) sobre crise financeira, A Maldição da Residência Hill (Netflix) sobre ausência materna e tantos outros exemplos. O horror entendeu, primeiro no cinema e agora na televisão, algo que a literatura já havia descoberto quando o movimento pelos escritos góticos começaram: a validade de ensinar através do medo. Ou o princípio moral do susto, aproveitando que estamos a inventar nomenclaturas.

Mckenna Grace, Lulu Wilson, Julian Hilliard, and Paxton Singleton in The Haunting of Hill House (2018)
A Maldição da Residência Hill (The Haunting of Hill House, Netflix).

Não é à toa que as primeiras versões dos contos de fadas eram terríveis e hoje são lidas com certa curiosidade em relação ao seus tons macabros. Não se queria entreter crianças, mas ensinar perigos reais que deveriam ser prevenidos. O susto era a ótima ferramenta para se conservar a vila longe das encrencas retratadas nas histórias. Hoje podemos estranhar o que esses estranhos ensinamentos queriam dizer porque, em novos tempos, o que temos a passar para aqueles que são comuns de nós mudou também. Não faria sentido, por exemplo, uma história sobre violência policial ou na qual alguma figura medieval fosse prevenida pelos pais de andar sem RG.

Caímos, novamente, na necessidade de apreender aquilo que nos é passado. Há o “entreter por entreter”, assim como a crítica artística já lidou com o “arte pela arte”. Mas em época (absurda) em que tempo é dinheiro, há um resquício disso em nossas escolhas. Cobram-nos, mesmo de maneira indireta, que nossas leituras, nossos filmes, nosso material de lazer como um todo se justifique — nos ensine algo. Os professores universitários torcem o nariz para certos títulos, a mídia se junta para detonar certos cantores e os críticos fecham o ciclo de aprovação e desaprovação de certos conteúdos. A televisão, que tudo apreende, tem reflexo disso. É talvez por esse motivo que as minisséries de maior sucesso esse ano são Chernobyl (HBO) e Olhos Que Condenam (Netflix), ambas com histórias reais, que precisamos conhecer.

Sharp Objects (HBO).

Volto ao susto, mas continuo na ideia do aprendizado. Ou quase. Porque ensinar também é complicado em nossa era. Mesmo em salas de aula, alunos calouros levam a petulância juvenil (sempre bem-vinda) para questionar os especialistas no assunto. Na internet, questiona-se os pesquisadores, os cientistas, os filósofos, questiona-se tudo. Tudo precisa passar pelo “eu”, e esse “eu” está cada vez menos disposto ao diálogo. Então, quem esses produtores pensam que são para me ensinar algo através dessa série? Nesse sentido, o susto pode não ter mais a função de antigamente. Agora, o susto quer começar conversas, introduzir diálogos.

Os melhores exemplos disso são as séries que dão certa dor de cabeça ao público porque não se explicam. E não falo de finais abertos, não — que Saint Alicia nos previna de finais abertos. Tivemos reclamações nesse sentido durante a exibição de Sharp Objects (HBO) que criou seu mistério principal de forma contemplativa, utilizando repetitivos elementos visuais que o público precisou decifrar por conta. Channel Zero (SyFy) enfrentou a mesma barreira, mesmo que, nesse caso, a audiência não tenha desistido ou tomado isso como motivo para analisar a qualidade da série. Nas duas séries, vemos um texto que nunca chega a conclusões, mas levanta material suficiente para conversarmos a respeito. A primeira falou sobre amor e relações familiares de uma forma sufocante, mas não atribuiu valores às decisões de suas protagonistas. A segunda teve quatro temporadas de mundos e protagonistas diferentes, deixando-nos com provocações como: até onde você iria para conservar sua sanidade?


METÁFORAS ATUAIS: O QUE É RELEVANTE AO HORROR

Posto que a metáfora é um bom caminho para falar do agora, mesmo colocando mortos-vivos e muito sangue nessa trilha, precisamos pensar nas produções de agora, naquilo que é de interesse para o horror agora. É importante falarmos sobre política — e calma, talvez não no sentido que você espere. Não no mesmo pulso e direcionamento de The Good Fight (CBS All Access) e sua (espetacular) terceira temporada. No sentido de encontrarmos a política em tudo, porque a política está em tudo. É importante falarmos, caso o termo política ainda incomode, de poder — liberdade e emancipação. Nas histórias de horror, o corpo está sempre em risco. Ou de ser vítima de algum mal ou que o mal habite seu corpo. Há uma luta para que as criaturas das trevas não tirem sua vida, sua maior posse como indivíduo, mas há também uma luta para que o mal, seja ele qual for, não invada seu corpo (demônios, vampiros), não te torne ferramenta dele (bruxas) ou tome o que é seu (fantasmas). O mal ameaça a nossa propriedade, assombrando-a, nossos corpos ou aqueles que amamos que, dentro das teias confusas em que se estruturam os relacionamentos humanos, parecem-nos posse em alguma medida.

Janet Montgomery in Salem (2014)
Salem (WGN America)

Por que estaria o horror interessado em falar sobre essa posse? Na verdade, arrisco dizer que toda história tem um pouco disso. E o interesse é porque estamos caminhando para a noção de que somos pequenas empresas que trocam contatos entre si. Não é por nada que mesmo ao conversar sobre tempo nós ouvimos a palavra “administrar” para falar sobre como devemos lidar com ele. O horror escancara, em suas obras, como o indivíduo que luta contra essa dissolução do indivíduo é tido como mal. Salem (WGN America) tem três temporadas, basicamente, sobre isso. The Terror (AMC) fez uma linda temporada ano passado abordando essa briga pelo poder. Sua conclusão é que, para o monstro dentro da história, as noções de hierarquia dos humanos são bobas e facilmente esquecíveis — na vida real, as constantes mudanças na nossa constituição mostram isso. Há, inclusive, uma ótima cena na qual uma personagem tenta exercer um comando sobre a criatura, mas acaba devorada. É o horror debochando do humano em seu ápice de arrogância.

Afirmo acima que o grande tema, a grande metáfora do horror hoje é falar sobre poder. Mesmo com os exemplos citados, talvez seja interessante analisar algumas produções mais de perto, com mais detalhes. Há poucos spoilers nas citadas, mas estejam avisados que aqueles que gostam de assistir sem saber nada e que não veem nem trailers (eu), talvez devam pular essas análises. Final não é coisa que eu conte mesmo aos que pedem, então nisso residam na paz.


TESTANDO A TESE: BREVE ANÁLISE

Chambers (Netflix) teve uma vida curta. Com apenas uma temporada e sem grande alarde, muitos fizeram maratona lá em abril, quando estreou, talvez movidos pelo nome de Uma Thurman no elenco. Após ser cancelada, no entanto, a série vai para o limbo de originais da Netflix que ninguém vai ter coragem de ver por medo da falta de desfecho. Distante de uma análise sobre as qualidades e os defeitos da série — nossa conversa sobre ela está pendente, mas sai daqui a pouco —, não pretendo abordar o ritmo, a atuação e a resolução, mas trazer a história para que possamos refletir juntos.

Sivan Alyra Rose in Chambers (2019)
Chambers (Netflix).

Para começar, Chambers não só tem uma atriz de descendência indígena, como a cultura indígena é abordada e importante para a história. Ou seja, isso não é uma coincidência, as referências do roteiro (falta-me conhecimento para atestar se respeitosas ou verdadeiras) aos povos que menciona foram bem pensadas. É importante que a protagonista tenha essa descendência, portanto. O argumento da série é o seguinte: uma garota recebe um novo coração através de transplante, mas, após a cirurgia, tem sua personalidade mudada.

Acompanhando os comentários lá no TV Time, já que assisti à série tardiamente e não tenho lá tantos amigos fãs de horror, percebi que pouco se fala sobre as representações das coisas. Sasha (Sivan Alyra Rose) recebe esse novo coração de uma garota branca. Ao recebê-lo ela entra em contato com a família da menina e passa a fazer parte da rotina que era dela, ganhando, inclusive, uma bolsa em um colégio rico e com mais oportunidades. Sasha recebe um carro, é convidada para festas e o futuro se mostra promissor nessa nova roupagem. Mas não é sem custo: o próprio corpo começa a abrir espaço para que a menina branca o ocupe: mechas loiras aparecem e mesmo sua pele vai se tornando branca. A protagonista vai, literalmente, abrindo mão do seu corpo — perde a posse de si. Até poderia resistir e revidar com armas provindas da crença de seu povo, mas Sasha foi criada por um tio o mais distante possível da cultura de sua ascendência. Quanto menos se sabe sobre a própria origem, menos capacidade se tem de anular os diversos meios de colonização praticados através da história humana.

Chambers (Netflix)

Não é de hoje que se conversa sobre apropriação de corpos e como isso se dá. O mais radical da coisa se deu séculos atrás, em travessias de oceanos no que hoje pode ser considerada a maior tragédia humana. Mas colonização também se pode falar da mente — uma maneira “sofisticada” de ter posse sobre o corpo do outro, realidade que os pensadores africanos e a rica literatura desenvolvida no continente vem combatendo.

Por que Chambers falaria sobre isso lá no fundo, como eu proponho? Para começar, porque não só tem uma protagonista de ascendência indígena, como tem uma atriz criada em reservas encabeçando o elenco. Primeiro um exercício: qual a última série protagonizada por um ator indígena que você viu na televisão? Consegue listar cinco? Tem aquele episódio maravilhoso da segunda temporada de Westworld (HBO), eu sei, eu sei, com um Zahn McClarnon assustador de tão bom. Mas por que não conseguimos ir além? Por que falta espaço, seja lá nos EUA ou aqui no Brasil para retratar e aprender das primeiras pessoas que estiveram por aqui? Com sua protagonista, Chambers elabora um roteiro que não parece ignorar isso. Não permite que a escolha da atriz pareça ao acaso.

Sharon Hope in Only Child (2019)
Two Sentence Horror Stories (The CW)

Agora passemos a Two Sentence Horror Stories e o susto que eu tomei ao decidir ver esse produto televisivo da The CW. Para quem não liga o nome do canal a produções, é aquele que exibiu Gossip Girl, One Tree Hill e tantas outras séries nas quais ou não existem personagens negras ou elas são aquelas secundárias e que ninguém gosta, naquela reinvenção de um continente norte-americano que não teria atravessado a história da cultura negra na mesma “distração” que aparece em Friends (NBC). Quão grande não foi a surpresa ao perceber que, nessa antologia, 90% dos protagonistas são não-brancos — personagens negros ou de ascendência oriental, outra carência no meio televisivo. A única exceção se dá em uma história protagonizada por um garoto homossexual. Ou seja, não fugimos da minoria em nenhum momento.

Qual a diferença se o casting é branco ou não? Bom, não me deixe desviar o assunto, afinal, ainda estamos falando de metáforas, e não do papel social do horror — e já adiando que este será um tema no futuro. Ainda dentro da minha tese de que falamos sobre poder quando falamos sobre este gênero atualmente, devemos analisar com cuidado as histórias. É o mesmo convite que estendo para The Twilight Zone (que retornou pela CBS All Access). Somos aficionados por criar teorias e entender as tramas de Black Mirror e outras séries populares, mas às vezes negligenciamos outros textos ricos.

Tara Pacheco in Squirm (2019)
Two Horror Sentence Stories (The CW).

Depois de uma festa em seu escritório, uma jovem acorda com um estranho bilhete avisando que alguém teria colocado algo dentro dela. Um serial killer faz de tudo para criar intimidade com mães solteiras e, em suas casas, avaliar seu extinto maternal. Mesmo depois de morrer, um homem que abusava de sua esposa continua a rondar a casa onde ambos viviam. Enquanto grava um vlogger, uma mulher tem sua casa invadida por um homem. Com outras histórias compondo sua primeira temporada, Two Sentence parece ter algo a dizer.

A figura que representa algum mal quer, nessas histórias, integrar-se aos protagonistas. Vemos a permanência de traumas que ainda repercutem em relações familiares, nora e sogra, transformada em alegoria na ótica de um horror que não sai desse apartamento; um horror, por assim dizer, cotidiano. O jogo de domínio entre um patrão abusador e suas subordinadas também está presente. O monstro no outro, quando não sobrenatural, é alguma parcela de opressão da sociedade.

John Speredakos in Little Monsters (2019)
Two Sentence Horror Stories (The CW).

Um exemplo ótimo é um episódio chamado “Little Monsters”. Neste, três crianças pobres precisam enfrentar uma criatura que assume muitos corpos e persegue esses filhos que são deixados sozinhos por pais trabalhadores. Os adultos não veem e não estão disponíveis para resgatar essas crianças. Na verdade, o “monstrinhos” do título é gritado por uma senhora que vê essas três crianças (dois meninos negros e uma menina de descendência asiática) saindo da casa de um homem adulto (branco) assustadas. Isso porque, nós sabemos, crianças com esse perfil correndo pela rua são automaticamente associada com delinquentes —Olhos Que Condenam mostra isso.

Para fechar essas breves análises, ganhamos Evil (CBS) recentemente. A série foi criada pelo casal Michelle King e Robert King que nos presenteou com The Good Wife (CBS), a antes mencionada The Good Fight e BrainDead (CBS). Nesta última, de apenas uma temporada, mas muito bem articulada e finalizada (tem critica minha aqui), temos o horror ganhando o terreno da sátira política. Na história, insetos alienígenas invadem a cabeça de políticos e comem seus cérebros, fazendo-os agirem de maneira estranha. A partir daí, o radicalismo dentro da política é retratado numa saga divertida protagonizada por Mary Elizabeth Winstead e tendo um Tony Shaloub hilário. Temos um sistema político regido por pessoas cujo comportamento é tão absurdo que jamais saberíamos diferenciar se tiveram seus cérebros comidos e estão possuídas por alienígenas ou se são realmente assim?

Evil (CBS)

Evil tem uma questão parecida, mas dessa vez falando sobre o sobrenatural — demônios no Piloto. Um home é acusado de ter assassinado friamente uma família inteira. Sua esposa, no entanto, acredita que ele foi possuído por um demônio. Ela chama especialistas para resolver o mistério. Estes esbarram na cética Kristen (Katja Herbers), que fica em dúvida conforme a história avança. Seria uma pessoa realmente capaz dessa monstruosidade ou só o sobrenatural explica? Nesse verdadeiro estudo de comportamento social, mais um ponto na carreira do casal produtor, falamos sobre a influência de sementes que estão na multidão para causar o mal — colonizadores de mentes? Parece que sim.

Uma vez que aceitamos que as séries são uma máquina imparável de metáforas, os efeitos são diversos. Dentro do horror, poderá haver a quebra de algum trauma do gênero. Isto é, as histórias deixam de ficar tão assustadoras a partir do raciocínio sobre o que está por trás delas — ou pelo menos essa foi minha experiência. Criamos uma afinidade maior com a crítica televisiva ou de cinema, entendendo por que algumas obras são cultuadas e outras não. Ou nós mesmos nos tornamos capazes de atestar a qualidade e a inteligência de roteiros que fazem analogias, às vezes com muito tato, para abordar assuntos delicados. Compreendemos por que o horror está em fase de prestígio a ponto da nomenclatura (estúpida) “pós-horror” ter sido criada.

Katja Herbers and Mike Colter in Evil (2019)
Evil (CBS)

CONCLUSÕES E OUTRAS PROVOCAÇÕES

Metáforas não são aqui apresentadas com o intuito de induzi-lo a deixar de aproveitar as séries em sua superfície, em sua diversão escapista ao fim do dia. A metáfora não anula o entretenimento — às vezes ele se dá por ela. É preciso reconhecer, no entanto, que o horror é um gênero inteligente, que exige tanto de todos. Costuma colocar seus atores, diretores e roteiristas à prova. Mais do que na comédia, talvez o horror seja o gênero no qual os artistas se provem. É por isso que nos deparamos com tantos filmes e séries que não nos agradam, não nos perturbam. Não é fácil chegar a isso. Colocar, a partir de agora, os óculos da significação em suas séries favoritas e investigar as entrelinhas para entender seu sucesso (ou fracasso), seus diálogos e narrativas fica a seu critério.

Há quem termine pensando que, no fim, algumas coisas simplesmente não têm significado. Assim poderia, mas acontece que tem. Enquanto televisão e enquanto horror, haverá sempre explicações por trás do que é exibido e por trás de nossos medos. Ter medo de algo sempre nasce de uma razão e de um mito. O mito, a criatura ou a representação do perigo, nós vemos em tela, percebemos qual é. Pode ser que ignoremos a razão, entretanto. Creio que ignorar a razão é abrir mão do horror em sua plenitude — quando representação e representado se unem para nos dizer que o que está fora da tela é sempre mais assustador. Milan Kundera pode estar certo. Há um perigo nas metáforas. A realidade, entretanto, será sempre mais perigosa que elas.

 

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Assim começa o Ano IV do #MêsDoHorror no Série Maníacos. Durante outubro, falaremos sobre séries de horror e mistério que tiveram textos ausentes aqui no site em 2019. Ao final do mês, temos um TOP 13 com os melhores episódios, então já pode ir preparando o seu ranking. (O do ano passado, inclusive, foi corrigido recentemente, com o melhor episódio de mistério, de fato, vindo de uma série de comédia.)

O “Mês do Horror” é inspirado por Tatiana Feltrin e o trabalho que ela desenvolve neste mês no YouTube.

Se você gostou deste artigo e quer ler mais reflexões sobre o horror por aqui, talvez goste dos textos a seguir:

Uma breve história do horror na TV

Horror na TV: atualidade e perspectiva do gênero

Por que o horror fascina seu público?

Quando o grotesco dominou a TV

Os monstros desta década

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Aproveitando a reflexão do texto acima e exercitando a proposta, deixo a pergunta: se sua série favorita (ou favoritas) fosse uma metáfora de algo, seria uma metáfora de quê?

 

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.