Mantidos em suspense durante uma semana pela possibilidade mínima de que uma das protagonistas fora assassinada, retornamos domingo para descobrir que está tudo em ordem e o clima é de festividade. A verdade é que Objetos Cortantes é (muito bem) sustentada por seu trio principal, e, se a série ousasse mexer nisso, não seria tão cedo. A cena em questão, dentro daquela sequência que não combina em nada com o ritmo da minissérie, se passara somente dentro da cabeça de Camille, um dos lugares mais obscuros aqui. Indo do individual para o coletivo, e fazendo o caminho de volta, temos outra vez o enredo alcançando seu auge e entregando seu melhor episódio.

Nossa protagonista é o elo de interação entre as personagens, usada aqui para ressignificar as noções de longe e perto. Isto reafirma a importância dada ao título dos episódios, quase uma dica sobre qual caminho de interpretação os telespectadores devem seguir. Para começar, percebendo que o tradicional evento de Wind Gap pode nos dar pistas sobre a população do lugar, mas não lhe representa totalmente. Isto é, quando vemos interações individuais, percebemos a cidade representada no comportamento de cada pessoa, mas, quando juntas, escondem-se em grupo e se tornam distantes — o contrário da proposta da festa. O fato de se passar na propriedade de Adora, por exemplo, só reafirma esse conceito de intimidade. Mesmo com pessoas invadindo sua casa, ela não se encontra mais próxima de ninguém dali. É como Clarice disse em um de seus livros: “Quanto mais uma pessoa penetrasse no centro menos saberia como é uma cidade”.

Por trás do Calhoun Day, data fictícia de comemoração, temos uma história trágica envolvendo mulheres da cidade. Se nos atentarmos ao fato de que são jovens garotas que desaparecem e temos três protagonistas mulheres, não é coincidência este ser o passado da cidade, descrito aqui de maneira tão violenta. Dá para ligar esta história de uma mulher grávida amarrada em uma árvore às perdas já retratadas anteriormente, mas deixo a interpretação para cada um.

Camille está cada vez mais insegura, resistindo pouco às investidas da cidade em reabrir feridas antigas. Para que a compreendamos inteiramente, há uma ponte com seu editor que nos explica suas sensações de maneira direta. A relação com Frank Curry é paternal e aparece aqui em dois momentos: no primeiro quando ele é deixado de lado e no segundo para ouvir um desabafo difícil de assistir. Não só por usar a palavra “lar” com sua repórter, mostrando que o retorno à metrópole é uma possibilidade, mas esta forma de consolá-la nos remete à relação de pai e filha.

Aproveito a oportunidade para pontuar que Closer é definitivamente o momento da produção em que Amy Adams conseguiu romper a distância com o público. Sua personagem tem diversas camadas, sendo tanto o adulto frágil que ainda não aprendeu a enfrentar as investidas da figura materna quanto a mulher independente que sabe controlar as coisas ao seu redor. Camille é sensível, mas amarga, é melancólica, mas não deixa de lado as gargalhadas momentâneas ao destacar o ridículo das coisas. Isso tudo com o apoio de um roteiro que não a deixa rasa e uma direção que não tem pressa para nos colocar ao seu lado.

Como toda forma de tortura em Gap não é suficiente, o artigo escrito sobre o lugar por uma ex-moradora começa a circular. Entre outras consequências disso, temos outro embate entre o xerife e o detetive, algo que se tornou repetitivo na narrativa. Willis, quando não comprometido a essas cenas, parece seguir um instinto que o direciona à filha desgarrada da comunidade. Sua quase novelesca interação com a mãe dela rende-lhe mais informações, mas a intromissão de Adora diz mais sobre ela mesma. Vista como uma constante figura de onipotência (pelo marido, pelos policiais e pelas filhas), a matriarca deixa escapar o quanto é atingida pelos atos da filha regressa.

A citada imagem de Adora também é vista no passado, quando dá uma entrevista e se vê diante de um estranho em sua casa. Mais nova, Camille brinca com isso e já estuda a intenção por trás dos olhares maliciosos dos homens. Vale destacar que a moça não está presente na foto da reportagem emoldurada. Seria ela um fantasma maior do que a própria irmã? O mesmo pode se dizer sobre as poucas informações sobre seu pai, usadas em momentos de briga com a mãe. Se o conhecimento sobre as coisas é uma arma, Adora sabe utilizá-la: tem um tato apurado para lidar com as pessoas.

É engraçado notar que nas duas cenas em que Adora e Camille se confrontam, a segunda é descrita como agressiva pela primeira. No entanto, esta agressividade não transparece, sendo ela mais um bicho acoado e que machuca a si mesmo como necessariamente agressiva. Talvez, então, a referência seja de seu interior, e aí estaria a relação com seu pai. É irônico ouvir isso vindo de alguém que usa seu tempo para atormentar a filha, mesmo com a desculpa de lhe pedir desculpas.

O relacionamento conflituoso entre Amma e a meia-irmã é bem utilizado pela narrativa. Vemos brigas constantes, mas também vemos quando uma aparece com um vestido como forma de fazer as pazes ou trazer alguma cura. As duas vão da inteligência à ingenuidade muito rápido, o que as torna críveis. A mais nova ganha o foco com sua fuga, mas é difícil perceber se há algo mesmo de errado ou se ela só aproveitou o momento para chamar a atenção para si — uma vez que se sentiu negligenciada durante sua apresentação. É quando vemos novamente a cabana, realizando de maneira diferente o devaneio de Camille.

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Uma atmosfera de melancolia domina os últimos dez minutos do episódio e mergulha as personagens em pessimismo. Objetos Cortantes traz essa noção de irreversível, aqui explorada no relacionamento entre mãe e filha e na experiência sexual da repórter. Esbarramos novamente na noção do perto em uma cena desconfortável na qual, mesmo com um dos atores completamente desnudo, só visualizamos a distância entre eles e a incapacidade da protagonista se aproximar. A minissérie se sai melhor em criar esse tipo de atmosfera do que ao criar tensão.

Há alguns episódios, eu destaquei que o roteiro não sabia balancear bem a interação e a importância das protagonistas. Closer vem para deixar essa sensação de lado e nos oferece bons momentos com cada uma delas. Não caminhamos muito na investigação do mistério, requentando discussões que há cinco semanas assistimos, mas com a resolução do mistério se aproximando, talvez faça sentido que o enredo seja abordado dessa forma. Mais importante do que isso, porém, é perceber um caminho bem estruturado para o desfecho, não deixando sequer o título dos episódios sem justificativa.

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ps

“Pa’lante”, música da banda Hurray for the Riff Raff que finaliza o episódio é devastadora, não?

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
objetos-cortantes-1x05-closerCloser vem para deixar essa sensação de lado e nos oferece bons momentos com cada uma delas. Não caminhamos muito na investigação do mistério, requentando discussões que há cinco semanas assistimos, mas com a resolução do mistério se aproximando, talvez faça sentido que o enredo seja abordado dessa forma.