Com uma linguagem quase infantil, a nova trama das 19 surpreende com um ótimo e honestíssimo texto.
Uma das coisas que nós – críticos profissionais ou amadores – mais fazemos na avaliação de um trabalho é considerar o peso do clichê. Sim, porque o clichê é completamente inerente ao processo criativo, mesmo porque a recorrência dele é inevitável na ficção e na vida. Um artista pode ser muito inteligente na hora de lidar com o clichê e fazê-lo passar despercebido pelo olhar mais atento. O clichê é perdoável, desde que manipulado com destreza, sobretudo porque ele é uma verdade irrefutável, apenas sublinhada várias vezes. Se tratado com doses calculadas ele pode acabar dando a volta nos próprios significados e se tornar empatia. Nenhuma dramaturgia vive sem clichês, porque são eles que nos tornam humanos.
O Tempo Não Para estreou no final do mês de julho e em duas semanas de vida já revela que dentro de sua “ideia fora da curva” está uma reunião de clichês hollywoodianos clássicos. Pensem em todos os filmes que passaram na Sessão da Tarde e que tinham como premissa uma viagem no tempo (seja pro passado ou futuro), uma troca de corpos, uma passagem repentina para a vida adulta ou uma travessia para outras realidades. Filmes assim são pautados pelo choque cultural, sempre. Sabemos que na engrenagem funcional desse tipo de roteiro, há alguns passos a serem seguidos e mesmo que aconteça todas as vezes, a gente compra e acredita, justamente porque há algo de fascinante em acompanhar esses espelhos invertidos.
Uma outra coisa que essas dramaturgias têm em comum é que em quase todos os casos elas são “familiares”. De Volta para o Futuro, De Repente 30, Quero ser Grande, Splash, Minha Noiva é uma Extraterrestre, A Vida em Preto e Branco e até Jurassic Park tem todos uma aura de otimismo e ingenuidade. Esses são apenas alguns exemplos, claro. São filmes feitos para agradar pequenos e grandes, feitos com uma voz pueril, que não leva em consideração os principais códigos dramáticos dos tempos modernos – os nossos. Até mesmo a adorada Caça-Talentos (criada para exercitar os talentos de Angélica) tinha a mesma estrutura e colocava um ser fantástico no nosso mundo antes mesmo que Harry Potter fosse um sucesso. Se for feito com cautela, um clichê pode ser a arma mais valiosa de um dramaturgo.
O Tempo Até Que Para
Estive na festa de lançamento da novela e por lá o clima era de reinvenção. Dentro da nossa teledramaturgia o modelo não é comum como é nos filmes americanos; e exatamente por isso a ansiedade era grande. Deus Salve o Rei era uma outra ideia-chave e acabou não dando certo. O Tempo Não Para tinha a missão de levantar o horário e de conseguir contar uma história “diferente” sem frustrar as expectativas. O autor Mário Teixeira parece ter entendido, então, que a melhor estratégia seria não ser pretensioso e talvez por isso o aparente êxito da novela seja uma realidade. Com alguns capítulos de exibição é notável o controle e o planejamento que o autor estabeleceu para sua obra.
O Tempo Não Para parte de um princípio fantástico: uma família que vivia nos anos 1800 sofre um naufrágio, congela num iceberg e acorda 132 anos depois, em plena São Paulo do ano de 2018. É evidente que isso acontece seguindo todos os códigos desse tipo de dramaturgia; nada escapa da carpintaria decidida por Mário Teixeira. Porém, ao contrário do que acontece com tramas cansadas em que a previsibilidade entedia, em casos como o de O Tempo Não Para a previsibilidade é sedutora. Sabemos direitinho como o choque cultural vai acontecer e é justamente por isso que continuamos assistindo. É delicioso ficar esperando, por exemplo, pela inevitável sequência que mostrará Marocas mudando o visual.
A escolha do elenco também foi determinante para a eficiência da novela. Juliana Paiva é absolutamente irresistível e construiu sua Marocas com segurança e carisma. Edson Celulari é a segunda peça mais importante da relação passado-presente. Ele está sensacional, em seu melhor papel desde muito tempo. O núcleo enriquece mais ainda com Christiane Torloni leve e bem humorada. Até Nicolas Prattes – que sempre parece atuar com ansiedade – serve ao lugar de herói-filantropo. Milton Gonçalves é o outro interlocutor essencial e todo esse núcleo magnetiza a audiência, fazendo com que cada diálogo e cada referência deslize naturalmente pela cena. O texto dinamiza perfeitamente a linguagem formal do passado e a preparação dos atores foi indispensável para essa naturalização.
Por fim, é importante mencionar que Mario Teixeira não esqueceu de tratar assuntos importantes que também seriam inevitáveis. Marocas é uma voz pertinente para reforçar uma realidade muito interessante: os valores e ideais dela eram impossíveis em 1884, mas são meramente possíveis em 2018. Sendo assim, ela é mais moderna do que pensa e suas posições feministas casam com nossos tempos perfeitamente. Além disso, as sequências com os escravos são desconcertantes e impactam, indo contra o humor presente na maioria do tempo. Impressionante como a dosagem de seriedade é calculadíssima, o que também é mérito da direção artística de Leonardo Nogueira. A escolha de colocar canções contemporâneas embalando todas as cenas com os congelados não é original, mas ajuda a estabelecer o universo da novela.
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Enfim, cheia de recursos clássicos da boa dramaturgia hollywoodiana, O Tempo Não Para desafia avaliações por não ser nem a voz do passado, nem do presente e muito menos do futuro. E mesmo assim, ela é – como diria Marocas – garbosa, polida e encantadora.
Tempinhos:
- Que abertura HEDIONDA para uma novela tão boa. É poluída, feia e acho que a música apesar de bacana não combina com a trama.
- Usar O Tempo Não Para, do Cazuza, não dava também. É uma canção dramática demais.
- Adriane Galisteu estava blindada na festa da novela e cheia de assessores antipáticos. Ela, contudo, sempre disposta. E sua aparição na novela foi festejada. Outro dia ela soltou um “Cadê a POC?”… Vai ser musa do twitter.
- Leo Bahia (A POC), Woof pra você.
- Cleo ficou com o pior personagem de todos: a noiva megera ressentida. Manoel Carlos e Gloria Perez adoram o tipo.
- O núcleo do Pasquim, precisava?




















