Jess vs. Os Chineses.
Dizem que uma pessoa só é capaz até 15% do que ela é e nasceu para ser. E que só o faz quando tem uma motivação muito grande, como se encaixar em uma nova sociedade ou aumentar a compatibilidade com um terceiro querido, como uma namorada ou uma esposa. Essa dificuldade inerente do ser humano em sair do seu casulo tem explicação biológica, e pouco tem a ver com desejos ou força de vontade. É assim que vemos Nick nos dois primeiros anos de New Girl, como uma pessoa imutável e incorrigível. Até que Jess surge em sua vida e temos momentos como o que vemos em Menus.
Escrito por Matt Fusfeld e Alex Cuthbertson, o episódio acontece pouco depois do Coach voltar a morar com o grupo, substituindo Schmidt, que devolve suas chaves mas não consegue se desapegar de seus antigos companheiros de quarto. Tentando convencer Nick a ser mais saudável, Coach consegue fazê-lo querer malhar com ele, mas não tem nenhum sucesso na tarefa, atrapalhado por um cada vez mais machucado Winston. Enquanto isso, Jess luta pelo direito de seus alunos conhecerem o oceano, mas esbarra na mania de seu diretor de dizer “não” para ela, levando-a a procurar outras coisas para descarregar sua frustração.
É curioso como Menus se inicia como um simples episódio comum, trazendo em sua cold open um Nick tomando café da manhã com comida chinesa sem maiores extrapolações. Mas é incrível como essa cena mundana se torna o pontapé inicial de uma série de acontecimentos relevantes para cada um dos personagens (exceto Cece, em participação curtíssima, mas hilária). Isso demonstra um amadurecimento muito grande de New Girl, que parece cada vez mais sair do plano de uma comédia romântica para algo realmente significativo para as figuras que compõem a série.
Comecemos pela característica de Nick em sempre se omitir de tudo. Na primeira cena, todas as suas atitudes levam a crer nisso, desde a maneira com decide pedir comida chinesa logo pela manhã até o diálogo com Jess em que a aconselha a não levar a ideia de uma viagem ao oceano para frente para que ela não se decepcione ao ouvir “não” mais uma vez. Sempre o vimos tomando decisões parecidas, procurando sempre evitar problemas e aceitando tudo que a vida lhe oferece. Tudo isso passa pela dificuldade com a qual passa pela malhação e culmina no cômico momento em que batalha com Coach pela comida, espalhando-a toda pelo chão.
Nesse aspecto, a condição de Coach é acessória para que a de Jess funcione ainda melhor. Todas as suas cenas, desde quando apresenta os perturbadores desenhos de seus alunos sobre o oceano até quando descarrega toda sua frustração em Brian, são muitíssimo bem executadas, equilibrando com sutileza o humor característico da série com a quase desistência da garota em relação a fazer a diferença no mundo. Coach, por sua vez, passa pelo mesmo, mas com problemas um pouco mais pontuais.
O que leva ambos a entregar os pontos e se transformarem exatamente no que Nick é, simbolizado aqui pelo exagerado consumo de comida chinesa. É nesse momento que o personagem de Jake Johnson dá continuidade ao seu processo de evolução para que Jess o julgue um par mais apropriado. Se em The Box o vemos finalmente abrindo uma conta no banco, aqui ele dá um passo ainda mais avançado, dando um passo a frente e criando um hilário discurso para mudar a opinião da namorada e do amigo, que inacreditavelmente acaba funcionando. Tudo isso é importante para ressaltar a relação quase simbiótica entre Jess e Nick, evoluindo o casal sem em momento algum sacrificar a proposta de New Girl de fazer rir.
Missão que é cumprida com louvor por Schmidt. Sentindo falta de morar com seus amigos, ele tenta participar dos momentos importantes, mas se perde em todos eles, chegando ao ponto de se martirizar por não saber o porquê de Winston estar em uma cadeira de rodas. Essa situação chega ao seu ápice quando, sozinho, passa a acompanhar a dança de Nick e Coach para malhação, em uma das cenas que comprovam o preciso timing cômico de Max Greenfield. Além disso, Menus tem por função encerrar de uma vez por todas a cisão do grupo de amigos, como podemos ver no diálogo que Schmidt tem com Jess.
Já Coach parece finalmente integrado com o restante do grupo. Se em Coach o personagem soa deslocado e até atrapalha o desenvolvimento daquela história, aqui sua participação é efetiva e nada exagerada. E sua atração por Cece é uma forma de ressaltar que ele está no apartamento para literalmente substituir Schmidt, o que pode gerar desconforto entre os dois mais adiante. O importante aqui é ver como Damon Wayans Jr. está mais confortável no papel e se desvencilha de Brad, de Happy Endings.
Diante de tudo isso, é impossível não classificar Menus como o ponto alto desta terceira temporada de New Girl. Um episódio sensível, bem executado, equilibrado e carregado de pontos altos.














