Em um mundo futurista, as preocupações são outras, certo? Em um mundo futurista no qual nossa realidade ganha não só a tecnologia, como elementos que até então consideramos como fantasia, as preocupações com certeza são outras, certo? Talvez. Para Kaz Kaan, a missão de combater demônios e livrar pessoas possuídas é tão importante quanto a escala social em que está inserido e as roupas que veste. Seu instinto para lidar com o mal é tão forte quanto a intuição para se vestir e ditar modas pela cidade. Uma pena que sua vida amorosa não se beneficie dessas qualidades.
Neo Yokio estreou sua primeira temporada na Netflix em 22 de setembro deste ano, composta por seis episódios de pouco mais de vinte minutos cada. A animação foi criada por Ezra Koenig, vocalista da banda Vampire Weekend. O músico costuma trabalhar na trilha sonora de algumas produções, enquanto que aqui atua também como escritor, assinando três episódios e dividindo a coautoria nos restantes. Não só é a primeira vez que ocupa esse cargo televisão, mas sua experiência na escrita se resume aos aclamados álbuns da banda. Isso é perceptível no desenrolar do enredo da série e na falta de complexidade para as personagens e suas respectivas tramas.

A animação chega quase clandestina ao #MêsDoHorror porque não se propõe a falar sobre o sobrenatural da forma como Castlevania, que também chegou através do serviço de streaming. Digo quase porque o roteiro se utiliza de diversos elementos do horror para, talvez, desconstruir a ideia que fazemos sobre demônios e o mundo em que eles vivem, proposta de diversos mangás e animes. Aqui temos, portanto, um texto pouco sério e episódios que desenvolvem aventuras e confrontos apoiados no humor da história.
O problema no desenvolvimento de Neo Yokio pode se relacionar ao fato de ser uma produção original. Além da pessoa responsável por elaborar a história não ter experiência com isso, não temos uma base, uma matéria prima — ou algo que assim seja diretamente creditado. O resultado é que fazemos pontes com outras produções, aqui e ali, algo que não beneficia a animação porque esta parece pobre quando comparada a outros exemplos. Comparando com a citada Castlevania, que conta com um mundo já criado em outras mídias, e ao reparar que o roteiro dela foi desenvolvido por Warren Ellis, que tem experiência com filmes e séries de animações, descobrimos facilmente a justificativa para o desempenho mediano.

A construção de mundo futurista e entregue aos elementos de fantasia que conhecemos não é tão atrativa. Alguns lugares, como uma parte da cidade submersa, são interessantes, mas aparecem raramente. O que se pode argumentar como contraponto é que o interesse da série é divertir o público e provocá-lo com situações divertidas e despretensiosas. Nesse caso, dá para relevar uma parte dos defeitos apontados, uma vez que há momentos divertidos, sim, mas eles não cobrem alguns problemas que sobrevivem a essa justificativa. Entre eles, a falsa ideia da série de ser adulta — considerando que sua classificação é para maiores de 16 na Netflix. Além de não fazer sentido, é um tiro no pé, porque talvez (talvez) o único público que seria indulgente o bastante com a narrativa seria o infantil.
Tentando fazer jus à faixa etária, o roteiro distribui palavrões em situações em que não faz nem sentido que eles estejam. Colocar fuck em uma frase não a torna uma fala adulta — vulgar, com muito esforço. Não há temas adultos ou mesmo diálogos que ofereçam algum respaldo para essa decisão equivocada na hora de escolher para quem se destinaria o projeto.

Para fechar as questões problemáticas, há um desvio estranho depois de alguns episódios e não temos muita certeza sobre qual é a jornada do protagonista ou da série. Em um momento, ela é sobre a caça a demônios, em outro é sobre uma corrida, em outro dá a certa personagem a importância que deveria caber ao protagonista, nunca definindo seu rumo de forma que consigamos relacionar as tramas. Não é como séries procedurais, nas quais cada episódio aborda uma aventura diferente. Aqui há um pouco disso, mas, conforme caminhamos para o desfecho, não o visualizamos como resposta ao caminho, à sinopse, à concepção da narrativa ou mesmo ao clímax, que aqui se torna inexistente.
Kaz Kaan, nosso herói, é dublado por Jaden Smith. Ao contrário do criticado por aí, creio que ele reforça bons momentos da série, justamente por não se importar com aquilo que esperamos que se importe e ser alguém tão ligado à moda e às regras sociais quanto à missão pessoal e da família. Acho que precisamos dessa distância de protagonistas moribundos e com algum problema de relacionamento interpessoal. Outros nomes conhecidos na função são Jude Law e Susan Sarandon. Há algumas personagens secundárias, como um estranho e bobo antagonista, mas vale destacar somente Helena St. Tessero (dublada por Tavi Gevinson), blogueira sobre moda que questiona a própria função depois de passar por uma experiência sobrenatural.
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Além do episódio inicial, mais voltado ao horror, temos um terceiro episódio divertido, que nos lembra Gossip Girl — se isso é bom ou não, fica a critério do telespectador. O quarto episódio tem reviravoltas estranhas e o quinto apresenta quase tarde demais vilões que geram as complicações que todo roteiro precisa.

É um exagero ler por aí que Neo Yokio é inassistível, não só por ser curta, mas por ter momentos que se melhor trabalhados resultariam em boas surpresas. Ela termina, no entanto, como uma série que não parece de fato um projeto importante, bem cuidado e bem planejado pelos responsáveis, com o mesmo carinho destinado a outras produções dessa mídia. Parece a realização pessoal de um artista que produziu porque podia, envolvendo-se demais com funções que deveriam ser responsabilidades de outras pessoas.
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Este post faz parte do segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2016 e setembro de 2017.
















