De que serve a TV se não for para influenciar a opinião pública? Fala de Pompeu Azevedo Queiroz.

O machismo de Saulo na reta final de Nada Será Como Antes é intensificado através de uma forma controversa que ele encontrou de reconquistar Verônica. A ex-atriz de televisão, numa tentativa de retomar a guarda de seu filho Tiago, decide fazer uma auto-entrevista rádio, em que Oligária, sua personagem, conversa sobre as atitudes de Saulo, afirmando que ele não é um bom pai e usou o filho como instrumento de se aproximar da ex-esposa. Foi uma atitude bem corajosa: mostrar o verdadeiro lado de Saulo, sádico e egoísta, para os ouvintes.

Ao invés de recorrer à justiça, Verônica preferiu expor Saulo. Por outro lado, como era de se esperar, o público gosta de casos de família mal resolvidos. Logo, o “tiro saiu pela culatra” e audiência do programa aumentou, uma vez que os ouvintes queriam justificativas do comportamento de Saulo. Para reverter ainda mais a situação (e vilanizar Verônica), Saulo resolve dar uma entrevista para Oligária, surpreendendo-a ao falar de sua esterilidade. Dito isso, o produtor de TV pousa de bom pai ao dizer que adotou Tiago por amor, pois sabia que ele não era seu filho biológico.

Quando esses bastidores do relacionamento de Saulo e Verônica foram apresentados, de forma descontextualizada, o público se volta contra ela e o produtor de seu programa cancela o seu contrato. Saulo se mostra, mais uma vez, uma pessoa baixa e calculista: roubou o filho e o emprego de Verônica. Porém, novamente, ela consegue se recuperar, dessa vez, fazendo um trabalho de dublagem. Aqui, mais uma vez, a série perde uma ótima oportunidade de fazer o que tinha proposto fazer: falar, nem que fosse um pouco, da história das telecomunicações no Brasil. O novo emprego, ainda visto como um “bico”, foi jogado na tela, sub-aproveitando o que poderia ser uma ótima cena, principalmente quando temos “O mágico de Oz” sendo dublado.

A trama de Beatriz, Otaviano e Júlia segue bem insossa, principalmente quando a inserção de Davi, o músico vivido por Jesuíta Barbosa. Não gostei da personagem, pois traz um estereótipo do que é ser um artista já muito batido na TV e no cinema. Ele só chegou, a meu ver, para mostrar que Beatriz é uma mulher movida por paixão, e não está presa aos irmãos Azevedo Queiroz. Mas isso nós já sabíamos desde o início…

No episódio 10 foi dada muita atenção para a história de Davi e Beatriz, algo bem desinteressante, que, para mim, foi um retrocesso na construção da personalidade da moça, uma vez que as suas ações foram bem repetitivas. Todavia, esse rápido romance mostrou como Júlia e Otaviano nutrem um sentimento de posse em relação à atriz, que sempre deixou evidente que não se prenderia a ninguém. A armação planejada para colocar Davi na prisão reafirmou que Júlia é mais perigosa do que aparenta. A função do músico na série foi ser o mote de desentendimento entre Beatriz e os irmãos, tanto é que ela rompeu com eles e os ameaçou ao saber que Davi estava preso por conta do poder da família Azevedo de Queiroz. Não sei se precisávamos de mais uma personagem na série para construir esse término. Preferia que isso fosse construído colocando os três em conflito, sem uma quarta pessoa. Afinal, nem sempre se precisa de um elemento externo para conturbar uma relação amorosa.

Os elos que se mantém entre televisão e política, quando mostrados na série, são interessantes, porém, tiveram tempo reduzido por causa desse excesso de tempo em tela de Davi. A fúria despertada em Pompeu por Saulo não apoiar a presidência expressou uma situação ainda bem atual no Brasil: quem detém o poder consegue atropelar quem quiser. Uma dos poucos momentos que que valeram a pena nesse episódio foi o incêndio da TV, pois será algo que irá afetar Saulo diretamente. Só espero que não utilizem esse fato como recurso humanizador da personagem, tornando-o bonzinho para reatar com Verônica.

A cena que mais gostei desse episódio foi a da conversa de Odete com Beatriz. Cassia Kis sempre chegando no fundo da humildade e da maternidade de sua personagem. Foi bonito vê-la costurando o vestido de noiva pra filha e agarrando-se a ele no momento do incêndio. No entanto, aquele vestido simboliza outras coisas, já que Beatriz estava sem noivo e a vestimenta, assim, não teria muito sentido naquele momento. Por mais que a filha se esforçasse, tivesse fama e ganhasse dinheiro, Odete não estava satisfeita, pois o casamento representava a “boa conduta” da mulher naquela época. Então, aquele vestido era uma espera, uma espera de que a filha pudesse ser algum dia feliz dentro dos olhos preconceituosos da sociedade brasileira dos anos 50, que parece não diferir muito que é atualmente.

Outro momento marcante foi a festa de aniversário de Tiago. Saulo, sórdido, como sempre, usou a situação para chantagear Verônica para voltar para ele. A tentativa de estupro somente comprovou o quanto a ex-esposa é mais uma propriedade do que uma pessoa para ele. Sinceramente, espero que não arranjem um final feliz para esse casal. O lugar de Saulo deveria o ser de Odete.

Como já comentei em textos anteriores, a série perdeu bastante o rumo ao se distanciar de sua proposta inicial. Os pontos mais interessantes dos episódios são os mais rápidos e as personagens, fora o casal protagonista, estão estáticas faz algum tempo. Espero que esse gancho da destruição da TV seja bem trabalhado e não seja uma apenas uma trama de “casei com o mandante do assassinato da minha mãe e só o meu chefe sabe disso”…

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Diogo Souza
Graduado em Letras-Português, Mestre em Literatura e Ensino, Doutorando em Estudos Literários, pesquisador das relações interartes entre a literatura e o cinema, cinéfilo, leitor de poesia, e às vezes cronista.