A boa, velha, previsível e dispensável cartilha dos roteiristas.

Acredito que boa parte dos adoradores de séries, possua um desejo secreto de criar a sua própria. Alguns atuando, outros dirigindo, mas a grande maioria, escrevendo, pois é o caminho mais factível. Não tem nada melhor do que deixar a imaginação fluir, abrir uma página do Word e botar as idéias no “papel”. Se a obsessão aumentar, uma rápida googlada te mostrará muitos sites dando dicas para criar o roteiro perfeito, com estrutura de episódios, montagem de personagens, breaks, cenários e tudo o mais, tornando o seu Rascunho, um projeto pronto para ser aprovado (e pela qualidade da maioria dos pilotos, temos a certeza que não deve ser tão difícil assim, certo?). O problema é comparar o seu primeiro texto, feio e desestruturado com este novo, pomposo e formatado, pois o primeiro tinha vida e o segundo virou somente mais um enlatado (não, as rimas não foram propositais). A verdade é que existem muitos macetes para o seu roteiro ser aprovado e o melhor deles é NUNCA quebrar a sequência Crescimento + Percalço + Vitória. Eu fui ingênuo em acreditar que Mr. Robot faria diferente…

Por que a Dark Army deu pra trás? Por que não quebrar essa mesmice de ter que perder para depois ganhar? O quão foda seria um cliffhanger, no meio da temporada, com o apertar de um botão que iria causar o caos no mundo?!? Sinceramente, eu me sinto traído. Muito mais que a Darlene ou a FSociety.

Bom, desabafos a parte, agora podemos falar de mais um ótimo episódio de Mr. Robot, que começou com a bem sucedida execução do plano de plantar o Raspberry Pi no sistema de ventilação da Steel Mountain, explorando os Exploits (em informática, são pedaços de programas ou de dados que exploram a vulnerabilidade de um sistema), em especial, o solitário Bill. Os incautos podem achar que tudo o que foi especulado nas reviews anteriores sobre o Mr. Robot ser o “Tyler Durden” de Elliot estava completamente furado, eu, no entanto, passei a ter mais certeza do que nunca. Em nenhuma das cenas, em que o Mr. Robot está orientando o Elliot por rádio, mesmo falando alto e se exaltando, não chama a atenção de Mobley ou Romero, que se mantém impassíveis. Aliás, percebam que estes dois também não interagem entre si, o que possibilitaria que um deles volte para o concurso de Alter Egos. Os dois, seria completamente impossível, pois alguém mandou o SMS para a supervisora. Mesmo assim, acho que voltar com a possibilidade de um novo Alter Ego é querer achar “pelo em ovo” demais.

E as interações irrefutáveis do Mr. Robot na lanchonete, roubando a credencial do funcionário da Steel Mountain ou, especialmente, das discussões com a FSociety no final do episódio? Foi bastante claro que as interações se alternaram entre os dois, nunca colocando-os para agir diretamente na cena em conjunto, ou seja, o que está acontecendo é a transferência progressiva das personas dominante e recessiva. Eu guardo essas cenas numa pasta separada, pois tenho certeza que vou revê-las com o Rami Malek atuando no lugar do Christian Slater.

E o reencontro do dois grandes antagonistas da série? Terry Wellick é aterrorizante, passa uma impressão de onipresença e onisciência, tornando o incômodo incontrolável de Elliot extremamente plausível. Incômodo providencial, diga-se de passagem, caso contrário, não teria encontrado o seu “Deus Ex Machinadentro do banheiro. O fato é que Elliot teve que contar mentiras constrangedoras sobre os motivos que o levaram até a Steel Mountain e, de quebra, teve que admitir que Terry sabia mais sobre suas motivações do ele mesmo – vingança (além de descobrir que o seu futuro nêmesis não é nem ~humano~).

Eu eu fosse você, nem me deixaria entrar na sua casa”

E Terry, se já não bastasse aterrorizar Elliot, protagonizou a melhor sequência do episódio, desde o momento em que ele pergunta para a Sharon, muito do novo CTO da Evil Corp como ela não se mata estando casada com ele, até a silenciosa e excitante cena onde ele a segue até o banheiro e simplesmente diz “Thank you for a lovely evening”. Sensacional! E, cada vez fica mais claro, que a creepy wife é quem manda e controla os planos do casal, uma vez que é ela que chega à conclusão que o melhor caminho para quebrar o CTO é destruir o que o faz feliz, ou seja, o casamento.

Alheias a tudo isto, estão as duas mulheres da vida de Elliot, cada uma tendo que conviver com os seus infortúnios. Shayla parece ter se adaptado bem na sua nova vida de garçonete de American Junk Food, mas Fernando Vera deve voltar a assombrá-la mais cedo que imaginávamos (e como eu gosto desse tipo de recorrência), enquanto isso, Angela busca conforto na casa do papai após abandonar de vez Ollie ao confessar que tinha acabado com a sua vida ao utilizar a sua estação de trabalho para inserir o malware na AllSafe (será que não existem câmeras numa empresa de segurança para provar que foi ela?). Contudo, sua tranquilidade também dura pouco, ao descobrir que o seu pai está entupido de dívidas coma Evil Corp (corrijam-me nos comentários, se eu estiver enganado, mais foi essa conclusão que eu cheguei ao ver aquelas notas).

Enfim, apesar de ficar broxado com o desperdício do cliffhanger perdido e, no final das contas, todo o esforço da FSociety ter sido em vão, afinal eles têm somente 1 dia antes dos caminhões saírem com os dados para as 4 sedes e um twist do Dark Army voltando atrás deve ser muito improvável, sigo achando que Mr. Robot é a melhor série em exibição e aguardo ansiosamente o próximo episódio.

Até semana que vem.

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Alexandre Bonfá
Apaixonado por HQ´s há mais de 30 anos, eu me sinto realizado com essa avalanche de séries de Quadrinhos da atualidade. Tá achando pouco? Ano que vem vai ter o dobro!