Ninguém consegue ouvir o cabelo.
Após um piloto ágil e focado no desenvolvimento dos protagonistas, Fifth Chair quebra um pouco as expectativas de quem esperava mais do mesmo. Nesse segundo episódio, o roteiro dá mais atenção ao encaixar das novidades dentro da New York Symphony, e no esclarecimento de como as coisas funcionarão sob a batuta do maestro Rodrigo. As primeiras cenas do episódio sintetizam essa intenção, mostrando como essas mudanças atingirão ao público (não apenas nós, mas a audiência ficcional da orquestra).
A publicidade baseada no “hear the hair” leva a deliciosa estranheza física de Rodrigo a um nível questionável pelo próprio maestro, que não pode concordar com a atribuição de valor a algo tolo e mundano como o próprio cabelo. Ninguém pode ouvir porra nenhuma dita por fios de cabelo, e o passional e intenso Rodrigo acredita que, mesmo que suas madeixas falassem, não teriam nada de importante a dizer. A hashtag #sinphomania (não entendi a grafia, mas ok) é bem mais próxima do que ele crê e deseja – não por causa da hashtag em si, mas por causa do mania, da vivacidade e vibração que ele incorpora e quer que os outros incorporem.
O próprio papagaio Igor (que pra mim é uma arara, mas sou jornalista/reviewer/dono de casa, e não biólogo) não é apenas um mascote tão exótico quanto o dono: ele simboliza a intenção não muito involuntária de Rodrigo em assumir e capitalizar em cima de sua aura de mistério sem nunca partir para o superficial. Igor representa Rodrigo muito mais do que o “hear the hair”: ele é parte fundamental da jungle no título da série, por ser incomum, #sinphomania e, obviamente, vindo de alguma jungle sul ou centroamericana.
Ainda sobre Rodrigo, é curioso perceber sua admiração por Thomas. O maestro emérito não suporta seu substituto, e por isso fica extremamente desconfortável por ser o ídolo de um desafeto. Isso fica claro quando, na cena que o povão quer pegar autógrafo de Rodrigo, este dá atenção muito maior para Thomas, que por sua vez é sumariamente ignorado pelas rodriguettes. Esse conflito entre o recalque e a rasgação de seda é muito bem trabalhado e divertido, e tem tudo para ser um dos pontos altos da série.
Bom, como dito no começo da review, o episódio começou a nos apresentar as pessoas que compõem a orquestra e seus bastidores, e todos os personagens funcionam muito bem para demonstrar que o som e a fúria não ficam apenas no palco. O senhor que abastece os músicos com os mais variados tipos de drogas, o famoso “cara do sindicato” (se é famoso nos bastidores de uma repartição pública brasileira, imaginem em uma orquestra nova-iorquina), os membros antigos que aprenderam a conciliar a vida pessoal com a profissional, enfim… toda uma gama de gente doida que, além de brilhar em seus pequenos papéis, são ótimas catapultas para as atividades do elenco principal. E, não obstante de ser mais um animal nessa jungle, Rodrigo quer porque quer trazer a perdida Hailey para essa folia no matagal (o mar passa saborosamente a língua naaaaareeeeeia… um abraço pra quem cantarolava isso vendo Pânico na TV).
Na rotina de Hailey, os ensaios de horas a fio são constantes e diários, mesmo que seja a repetição de uma mísera parte da obra ensaiada, sob reclamações da amiga e um sonoro “shut the fuck up” de um vizinho. Ela, como toda jovem profissional, sofre com a certeza de que o lugar ao sol está perto, mas ainda falta muito a caminhar. Se não está sendo fácil para nós, parte dessa nossa geração que prima pelo instantâneo e pelo reconhecimento rápido, para uma oboísta a situação eleva a música da Kátia Cega ao cubo.
Rodrigo vê em Hailey bastante talento, mas o que o conquista é a devoção da moça à música. Por isso, em um de seus atos de extravagância, cisma em colocá-la como quinta oboísta na performance da oitava sinfonia de Mahler. Como a entrada de alguém na orquestra não é algo tão simples assim, logo se espalha o rumor que Hailey deu pro Rodrigo teria conseguido seu espaço de uma forma não muito prestigiosa. E, como nunca nada dá certo pra ninguém em lugar nenhum, a moça é malvista por um de seus maiores ídolos, Betty, a primeira oboísta da sinfonia, interpretada por Debra Monk. Uma adição perfeita ao elenco por ser uma atriz de carreira consolidada e aclamada no teatro, ela criou uma ótima mistura de ares blasé e maternais, somada a uma arrogância de quem sabe que é foda. Sua cena masturbando o oboé em crítica à participação da novata Hailey é deliciosamente boa, e mostra como ela traz a frieza e sobriedade necessária para criar um paralelo com Bernadette Peters dentro do elenco. Monk é champagne brut, Peters é licor de cassis, e as duas formam um kir royale que eu tomaria em um só gole.
Se o episódio teve um ponto fraco, talvez seja a relação entre Alex e Hailey. O rapaz é bom, mas um pouco chatinho, e muito foco nessa subtrama pode deixar a história arrastada. Um caminho legal para o romance-to-be dos dois é o mesmo do affair entre Thomas e Cynthia, por exemplo. A relação é tão bem construída em sua sutileza que logo percebemos que não há um jogo de interesses por trás. E o mérito não é apenas do roteiro, pois Malcolm McDowell e Saffron Burrows têm uma improvável química que possibilita isso.
Fifth Chair foi um episódio-maquete. Fomos muito bem apresentados à hierarquia e ao quem é quem na cesta básica. E, agora, a história tem o que precisa para deslanchar de vez.
1×03: Silent Symphony
Com dois episódios destinados a entendermos what’s what, who’s who, why’s why (existe isso?), esse terceiro claramente tinha o desafio de ditar o tom e o caminho que a trama seguiria. Além da música clássica, precisávamos saber como seria a adequação dos personagens no roteiro, a direção da história e, acima de tudo, o que Mozart in the Jungle representa. E isso foi definido: é uma série sobre extravagância, trabalhismo e a essência do “submundo” – aqui, é o submundo da música clássica, mas a abrangência da mensagem é muito maior.
O curioso ensaio com instrumentos imaginários solicitado por Rodrigo faz parte de sua estratégia para buscar entrega total dos músicos à arte. E, por isso, ele se sente parcialmente culpado pelo colapso de Lazlo. As cenas no hospital me chamaram a atenção por causa desse remorso, pois vimos um Rodrigo prostrado e, portanto, mais humano. Não que o maestro seja dividido entre o espetáculo ambulante e uma pessoa mais “séria”: ele é bizarro por natureza, mas é possível ter mais empatia conhecendo mais uma de suas infinitas nuances.
A figura de Rodrigo é vista com uma fascinação gigantesca pelos carolas sociais estadunidenses. Afinal, um homem latino, intenso, de “opiniões políticas polêmicas” (ou seja, provavelmente de esquerda, algo incomum na ~América~), defensor do uso de alucinógenos e etc. carrega um ar que mescla subversão declarada e o fogo latino-americano que quebra e supera o estereótipo. Se lentamente os Estados Unidos estão se abrindo para imigrantes, um homem que carrega trejeitos de Timothy Leary, subcomandante Marcos, Cantinflas e Montezuma derruba as portas a golpes de foice, martelo, trombones e bongs. E, se consegui trazer tanta gente distinta para definir o personagem, encho o peito e subo no telhado para gritar que Gael García Bernal finalmente está perfeito como Rodrigo. O personagem vive e trabalha em paralelo com todo mundo, sempre agindo de forma estranhamente apaixonante e misteriosa, e assim concluo que Bernal talvez viesse fazendo certo desde o começo, mas só agora a série está se adequando ao que o próprio roteiro exigia do ator.
E, visivelmente confortável no papel, Bernal dividiu ótimas cenas com Saffron Burrows – essa sim livre e firme desde o primeiro momento da série. Rodrigo e Cynthia são pessoas aparentemente diferentes (tá, qualquer um é diferente de Rodrigo), mas eles claramente têm uma conexão muito forte. O motivo para isso é que Cynthia é o tipo de pessoa que parece já ter visto de tudo na vida, e não é tão impressionável quanto os colegas de trabalho.
Um dos pontos altos do episódio foi a entrevista concedida por Thomas para um podcast sobre música clássica, apresentado pelo personagem do produtor da série e ator Jason Schwartzman. O regente emérito se produziu todo, com direito até a delineador, e fez um planejamento de qual lugar da sala era o mais propício para enquadrar “seu melhor ângulo”. O choque de saber que a entrevista seria em áudio, e ainda por cima para um podcast, parece uma analogia à própria série, exibida através da novidade streaming ao invés da televisão propriamente dita. É legal considerar se Thomas assistiria uma série via streaming ao invés de ver pela televisão. Tá, ele não tem o perfil de quem assiste série nenhuma, e muito menos algo dessacralizante como Mozart in the Jungle, mas vocês pegaram meu ponto, espero.
A relação entre Alex e Hailey está melhor, talvez porque os dois já estão um pouco mais confortáveis um com o outro. Apesar de o rapaz ainda me deixar aflito por algum motivo obscuro, ele cresce como personagem ao dar boas dicas de ação e autoafirmação para a oboísta. Ajudá-la a ganhar dinheiro e fazer com que ela cobre pelas horas que trabalhou para a New York Symphony são atitudes bem-intencionadas e pé-no-chão, que contribuem para a maturidade profissional de Hailey e para o andamento da série.
Outro ponto legal do episódio aconteceu nas cenas do hospital, quando Lazlo pede para Cynthia assumir o cargo de presidente da comissão da orquestra. Apesar de ela não se ver como alguém firme o bastante para bater de frente com a administração, Lazlo ressalta a importância de alguém para lutar pelos direitos trabalhistas dos músicos. Em uma crítica clara ao sistema de saúde, ele diz que nem a gelatina é coberta pelo plano médico. Ou seja, Mozart in the Jungle não traz apenas a música clássica para a audiência, mas também um debate sobre as condições de trabalho dos músicos como classe. Todo mundo acha louvável o talento dos membros de uma orquestra, mas é raro enxergar além dos instrumentos para lembrar que eles são assalariados que estão numa profissão extremamente instável e sem garantias.
Por isso, concluo: música clássica, Gael García Bernal, Bernadette Peters, Malcolm McDowell, Saffron Burrows, música brasileira, referências à situação política latino-americana e movimento sindical, sexo, alucinógenos… pode parecer megalômano da minha parte, mas eu estou começando a perceber que Mozart in the Jungle é a série que eu tanto sonhei, que tanto pedi a Deus (Meryl Streep). Ela se une a Transparent, a genial série colega na Amazon, para estimular a audiência a debater temas vistos com incerteza pela sociedade. Mozart in the Jungle traz às telas com maestria uma representação do movimento de trabalhadores (algo que, diferente daqui do Brasil, não é parte do cotidiano “padrão” dos estadunidenses). Além de, claro, a música clássica, e como o universo em torno disso não é tão glamouroso assim.
Por incrível que pareça, Mozart in the Jungle é uma série que tem um apelo muito mais popular (não no sentido de popularidade, mas do conceito de povo e vida do trabalhador) do que eu pensaria. E, por isso, tiro o chapéu – e corto o cabelo, já que ninguém pode ouvi-lo.






















