Para as pessoas ansiosas esse filme é um salto ornamental em águas atribuladas.
Em 2015, quando Alegria e Tristeza entraram na Terra da Imaginação da mente de Riley, ela tinha apenas colorido, algodão, batata-frita e garotos emo. Era a Terra da Imaginação de uma menina de 11 anos, ocupada demais em agarrar-se ao que conhecia; razão pela qual, enfim, ela teve tanta dificuldade em aceitar uma mudança. Até aquele ponto, a imaginação estava protegida pela inocência e pela ingenuidade (mesmo que com os dias contados).
Em 2024, quando Alegria, Tristeza, Raiva, Nojinho e Medo entraram na mesma Terra da Imaginação de Riley, ela estava diferente. Pequenos minions cumpriam ordens de desenhar à mão e projetar na mente da menina, os piores cenários criados pela Ansiedade. Com isso, aquele lugar de fantasia e sonho havia sido terceirizado. Aos 13 anos, Riley não consegue mais se livrar dos pensamentos insistentes que organizam tragédias e pesares diários. Aquele corpo que cresceu e se desenvolveu também se recusa a cumprir ordens.
A Ansiedade é uma emoção intrusiva… e os roteiristas de DivertidaMente 2 não poderiam ter sido mais espertos. Para algumas pessoas ela é uma turista apaixonada pela paisagem da mente… e volta de vez em quando para uma nova visita. Para outras pessoas, ela é residente; ela se muda com bastante bagagem e fica. Poucas vezes, contudo, somos capazes de saber quando exatamente ela chega e já senta na janela. A Ansiedade é intrusiva e mal-educada.
Para mim a emoção foi construída quase ao mesmo tempo em que minha Alegria, minha Tristeza, meu Nojinho, meu medo e minha raiva estavam instalando os controles. Aos 5 anos eu já enlouquecia minha mãe com pequenas crises de pânico por medos totalmente irracionais, como o de um vulcão explodir em algum lugar por perto ou de uma tempestade derrubar a nossa casa. E eu parava de comer, tinha medo de dormir… exigia algum remédio para me fazer sentir menos angústia, sem nem saber exatamente que angústia era o que eu sentia.
No mundo de Riley, a Ansiedade encontrou sua porta porque Alegria se recusava a permitir que a menina recordasse os próprios erros. A cada “memória ruim” que Alegria descartava no limbo da mente de Riley, ela fazia com que a menina tivesse mais e mais necessidade de ser perfeita – e ficasse menos preparada para a vida. Diante da primeira quebra de rotina – assim como aconteceu da outra vez – ela não suporta as pressões e cede. A ansiedade se estabelece, antes de qualquer coisa, na cobrança que alguém faz de si mesmo.
É fascinante justamente porque Alegria não deixa de ter razão. Ela se recusa a usar memórias ruins para construir a identidade de Riley porque não é capaz de garantir se alguma dessas memórias ruins não vão acabar se estabelecendo como um traço inerente da personalidade da menina. E sim…. Alegria tem razão; isso pode acontecer. Contudo, uma das pressões já seria aliviada: “não, eu não preciso ser perfeito”. A Ansiedade é voluntariosa… ela não quer perder, não quer mudar, não quer mexer… Ela exige uma estática existencial impossível de alcançar.
Na versão dublada, Tatá Werneck empresta sua voz para a nova personagem. A escolha não poderia ser mais acertada. Tatá já declarou que também sofre de ansiedade, o que acabou se refletindo em uma interpretação dimensionada. A atriz transformou a personagem numa personagem caótica, urgente, vilanesca e ao mesmo tempo frágil. Sua capacidade de falar muito rápido sem perder o timing serviu como uma luva; e ao mesmo tempo em que sua voz espalha uma garotice indisciplinada, ela também traz ternura quando é necessário. Um dos mais consistentes e emocionantes trabalhos de dublagem feitos por quem não tem essa profissão.
O roteiro se constrói usando as mesmas bases, mas já sabemos que a Disney-Pixar funciona desse jeito: mesma trama, novas piadas. A capacidade dos roteiristas de ainda conseguirem alegorizar aspectos da mente é impressionante; e é sempre nesse terreno que reside o espaço para o humor. Essa sequência, contudo, é evidentemente menos preocupada em disparar piadas a cada quadro, mas continua inspirada ao se aprofundar no inconsciente de Riley. É justamente por essa razão que me parece inevitável falar de desejo e amor romântico numa futura terceira parte. Eles foram muito competentes em não deixar espaço para esse questionamento nessa fase opressora das inseguranças da menina. Ao menos por enquanto.
O elenco original continua formando uma unidade deliciosa de acompanhar, mesmo com Tristeza (a personagem mais popular do primeiro filme) perdendo um visível espaço na nova aventura. O roteiro foi esperto ao fazer com que as emoções se relacionassem (Tristeza e Vergonha flertam e Medo tem uma notória admiração pela Ansiedade), mas sem dúvida poderíamos ter visto um pouco mais da Inveja e do Tédio. Algumas vezes as coisas pedem mais espaço (razão pela qual a cena pós-créditos é tão anticlimática) e em outras basta uma única cena para estabelecer os objetivos (ver como o Sarcasmo funciona na cabeça adolescente, por exemplo).
Esses quase dez anos que separam os filmes fizeram valer o tempo de dedicação, porque, mais uma vez, estamos diante de uma dramaturgia em que o antagonismo é todo pautado também pelas emoções. Os “vilões” do filme são as facetas emocionais dos personagens que representam emoções; são os exageros sensoriais; são a negação e a pressa.
Assim como no primeiro filme, quando Alegria percebe que precisava deixar a tristeza agir para aliviar a pressão na mente de Riley; dessa vez ela precisa entender que a menina não pode se sentir perfeita, do contrário ela jamais vai se livrar da opressão pessoal de manter-se nivelada pelas próprias expectativas. E é assim mesmo… amadurecimento é autoconhecimento. Os sentimentos de Riley oferecem a ela os insights necessários para seguir em frente; e por isso a estrutura do segundo filme precisa respeitar a estrutura do primeiro. Toda vez que Riley muda é porque tudo se revirou dentro dela.
DivertidaMente 2 é tão poderoso e especial, porque entre o colorido de suas licenças dramáticas e suas alegorias fantasiosas está uma verdade desconcertante: para algumas pessoas, o final desse filme é um “final alternativo” e Alegria nunca descobriu um jeito de trazer de volta aquela espécie de essência pessoal salvadora. Para algumas pessoas, a Ansiedade continua naquele looping alaranjado de sofrimento auto infringido… e a existência é uma experiência aniquilada, porque toda vez que a Alegria tenta chegar perto, é como se a voz lá nos controles dissesse: “Não seja feliz, porque algo de muito ruim vai acontecer e vai te pegar de surpresa. Não permita que isso aconteça. Espere. Antecipe. Tenha a vivência… antes mesmo que qualquer desses cenários seja passível de ser vivo”.
Para nós, os ansiosos, assistir DivertidaMente 2 é parecido com olhar atentamente para dentro. Chega a ser reconfortante pensar que em meio ao sofrimento de ter medo do que não aconteceu, um bonequinho alaranjado está correndo em círculos na nossa “sala de controle”… Na verdade, todo esse filme é um grande recurso de conforto; porque a ansiedade é um transtorno agudo; ela te fere com armas que não existem e essa dor do invisível é lancinante.
Por sorte, Riley é uma personagem muito bem escrita; e ela pertence ao domínio da vontade de seu criador. Enfim, ela controla a Ansiedade. As artimanhas do roteiro nos premiam com uma justificativa plausível: você não é só o seu medo e sim como você lida com ele. Riley aprendeu a lidar usando o coração. Mas, mesmo elusiva e lúdica, ela não é a única a se esforçar para domar a angústia com afeto.
Eu estou tentando há muitos anos… Obrigado à arte por me mostrar mais uma vez que eu estou no caminho certo.






















