Cinebiografia do cantor é superficial e monótona; mas funciona como um resgate nostálgico de seu talento. 

 

Não adianta tapar o sol com a peneira ou fingir que a chegada de Michael aos cinemas não traz de volta certa tensão sobre seu passado. Desde 2019, quando o explosivo documentário Leaving Neverland foi lançado, a figura do astro foi enfraquecida nos setores especializados da música e ignorada pela cultura pop vigente. Ela só se manteve forte onde sempre esteve seu grande legado: na memória das pessoas. Sempre foi a nostalgia a maior blindagem que Michael Jackson conquistou. 

Seus primeiros escândalos pessoais começaram quando ele apareceu com a pele já bem clara no lançamento de Bad. Fazia sentido, então, situar o filme entre sua infância e o sucesso de Thriller. Sabemos que a legenda no final do longa insinua a possibilidade de sequências; mas após as notícias de que o estúdio cortou do filme todas as sequências que abordavam os escândalos da vida do cantor, ficou claro que há pouco interesse em aprofundar-se nas camadas de Michael. 

Segundo o Hollywood Reporter, o terceiro ato do filme focaria nas acusações de pedofilia, mas a família do menino que poderia ter condenado Michael mas preferiu fazer um acordo, exigiu que os termos desse acordo fossem cumpridos. Um desses termos dizia que o garoto jamais poderia ser retratado em nenhum projeto produzido pela marca diretamente ligada a Jackson. Assim, refilmagens aconteceram em Junho do ano passado para resolver como ficaria o filme. A ideia para uma Parte 2 surgiu de todo o material filmado para o terceiro ato e que acabou não sendo usado.

Essa potencial parte 2 soa ainda mais estranha quando levamos em consideração o Michael Jackson absolutamente santificado que o diretor Antoine Fuqua e o produtor Graham King (mesmo de Bohemian Rhapsody) decidiram levar para as telas. Começando no surgimento dos Jacksons 5 até a decisão de seguir uma carreira absolutamente solo, a figura de Michael aparece sempre em duas únicas posições: vítima e santa. E o investimento do roteiro nessa jornada, aliás, não vai para nenhuma lugar além de uma nota de rodapé. 

Como se encenasse um artigo do Wikipedia, o diretor apenas cita pontos-chave da trajetória de Jackson, sem nenhum esmero em ir além da simples superfície. O sofrimento dura uma cena; o sucesso vem depois de 3 minutos; as elipses são tantas que o resumo dos primeiros 30 minutos caberia sem problema nenhum em um edit do Tik Tok. Não há verdadeiro investimento em nenhum aspecto da vida de Michael; nem mesmo na criação de seu impressionante repertório. Se você quer saber mais sobre a vida pessoal dele, esse filme não é para você; e se quer saber como ele criou e idealizou clássicos como Billie Jean  e Thriller, esse filme também não vai te ajudar. 

Cada um desses momentos aparece como se estivessem sendo citados em uma frase. O processo criativo do astro tem apenas um grande momento no filme; quando, ainda criança, emociona o produtor musical da Motown numa sessão de estúdio. Tudo é vago, rápido, raso, e fica uma ideia estranha de que as coisas se manifestavam para ele; já que o filme não divide conosco como ele passa de um ponto pro outro. 

No âmbito pessoal, o roteiro de John Logan praticamente canoniza Jackson. Todas as características frequentemente mencionadas pelos fãs para defendê-lo como figura infantilizada estão ali: a amizade com animais; a dificuldade de socializar com adultos; a conexão direta e imediata feita com crianças… Há várias cenas do cantor visitando pequenos enfermos e dando autógrafos em lojas de brinquedos. As sequências são desconfortáveis para aqueles que acreditam nas acusações contra ele. 

É como se Jackson não tivesse camadas. Ele é sempre bom; ele é sempre atencioso; ele é sempre correto; ele é sempre gentil; ele é sempre bem-sucedido e quando sofre é sempre por causa do pai. É um retrato totalmente parcial; protecionista e calculado para servir como relações públicas de sua imagem. Certamente, se a segunda parte for feita, ele surgirá mais uma vez como vítima das próprias “boas intenções”; sempre acusado injustamente de qualquer crime que lhe imputam. 

Salva-se dessa grande propaganda a interpretação sincera de Jaafar Jackson; realmente determinado a parecer com Michael de uma maneira que chega a ser assustadora. Ele tem a voz infantil, o olhar, os movimentos, a dança, o rosto… é admirável. Sua voz foi fundida com a de Jackson em alguns momentos em que ele canta ao vivo; mas todo o trabalho de caracterização merece seus louros. Esse já havia sido um traço marcante de Bohemian Rhapsody (do mesmo produtor); e ambos os filmes sofrem no que vai além da mera celebração. 

Cinematograficamente falando, Michael não é um bom filme. Mas, ele tem o que é mais importante para os fãs: ele tem a música de Michael Jackson. Essa, inegavelmente superior em todos os níveis. Seu talento é a única coisa de sua trajetória que ninguém nunca pode refutar. Ele era grandioso; inigualável; genial; de um jeito que pouquíssimos artistas na história já foram. Ele mudou a roda; dividiu as águas; fez o mundo da música absorver suas influências até hoje. 

No entanto, seria uma negligência completa ignorar que sua imagem foi profundamente abalada por uma sucessão de acusações graves que ecoam fundamentadas em qualquer pessoa de bom senso. Michael Jackson nunca foi condenado? Não. O único caso que poderia condená-lo foi resolvido num acordo. Ele pagou para que a família parasse. As famílias podem querer dinheiro? Sim. O abuso pode ter existido mesmo assim? Também. As duas coisas não são excludentes. O documentário Leaving Neverland é constantemente acusado de “sensacionalismo barato”, mas na maioria das vezes por aqueles que não o viram. Ele é peça obrigatória na análise dessa questão; e sua força é sentida até hoje. Michael Jackson agora depende única e exclusivamente da defesa baseada em nostalgia. 

É difícil ignorar tudo que ele fez. E é difícil não se emocionar ouvindo suas canções e assistindo videoclipes que contam a história da vida de todas as pessoas que um dia se apaixonaram pelo cantor. Lidar com a separação entre artista e obra é mais uma decisão de cada um. 

Esse filme foi feito para quem não quer esquecer… o que é muito diferente de verdadeiramente desvendar. 

Artigo anterior‘A Coroa Perfeita’: Produção se torna o k-drama mais assistido globalmente no Disney+
Próximo artigo‘Impuros’: Tudo o que você precisa saber sobre a sexta temporada