O Série Maníacos te convida a conhecer Merlí, a série produzida na Catalunha que confronta arquétipos da adolescência usando nada mais nada menos que filosofia.
Em 22 de Setembro de 2016, o governo brasileiro apresentou a medida provisória que ficou conhecida como “Reforma do Ensino Médio”. A medida acabou se tornando polêmica quando as redes sociais começaram a replicar a notícia como se ela fosse um dos primeiros sinais do apocalipse ideológico promovido pela retomada da direita. A razão dessa inflamação era a retirada das artes, filosofia e sociologia do quadro de matérias obrigatórias para os três anos do ensino médio. Os defensores da ideia de que parte do conceito de democracia fora ferido pela forma como Michel Temer tomou poder, entenderam que a a retirada desses conteúdos da área humana eram uma tentativa de continuar alienando a juventude.
No início de dezembro passado, chegou até mim através de uma indicação de uma amiga muito querida, a série Merlí, que tem sua primeira temporada disponível no Netflix e está ligeiramente conectada a toda essa problemática política produzida pela medida provisória. Quando li a sinopse do show fiquei surpreso:
“Merlí é uma série de televisão TV3 sobre um professor de filosofia homônimo que, usando alguns métodos pouco ortodoxos, incentiva seus alunos a pensar livremente – dividindo as opiniões de alunos, professores e famílias”
Comecei imediatamente a assistir ao primeiro episódio. Aquilo parecia uma espécie de resposta lúdica ao que havia acontecido aqui no Brasil. Mesmo que fora do nosso sistema social, uma dramaturgia que se baseia no quanto o exercício do pensar pode mudar perspectivas, era, no mínimo, intrigante. E levantava um questionamento: Se pudéssemos testar o quanto o estudo filosófico afeta o discernimento pessoal, será que ele ainda seria tratado de maneira irrelevante pela maioria dos conteúdos programáticos escolares? Me lembro que quando estava no colégio, artes, filosofia e sociologia eram as aulas mais escolhidas para serem cabuladas e geralmente vinham acompanhadas de uma “verdade secreta”: filosofia não reprova.
Peripatéticos
Merlí foi criada e escrita por Héctor Lozano e sua história começa quando Merlí Bergeron (vivido por um competentíssimo Francesc Orella) é despejado de sua casa ao mesmo tempo em que precisa levar seu filho para morar consigo, após a mãe do menino resolver mudar para a Itália. Os dois vão morar com Carmina, mãe de Merlí, sob a promessa de que o novo emprego do filho melhoraria a situação de ambos. Merlí se torna o professor de filosofia do colégio Àngel Guimerà e sua chegada causa imenso desconforto ao corpo docente, já que seus métodos de ensino são transgressores e muitas vezes, moralmente questionáveis.

A premissa não é original… Geralmente, histórias sobre professores que inspiram alunos começam sempre assim. Dentro da estrutura básica da trama, os principais itens desse tipo de criação estão todos lá: o diretor que pega no pé, o professor-colega que vira inimigo, o professor-colega que é fofinho, o envolvimento com pais de alunos… Assim que conhecemos os pupilos de Merlí, essa sensação de recorrência aumenta. A série primeiro apresenta os arquétipos clássicos do gênero e encaixa cada aluno num rótulo pré-determinado: a aluna rebelde, o aluno mulherengo, o gay enrustido, o CDF… De fato, essa é uma simplificação absolutamente proposital. Arquétipos e clichês são apenas verdades exageradas, sem profundidade. Mas, ainda são verdades. A série começa a mostrar seu potencial quando passa a usar dos conceitos filosóficos ensinados por Merlí para transgredir esses estabelecimentos.
Vou dar alguns exemplos: Bruno, filho de Merlí, aparece como o homossexual que apesar de fazer balé e demonstrar sensibilidade, é enrustido. As razões para que ele o seja são completamente ideológicas. Bruno tem uma vó atriz e um pai professor de filosofia. Liberdade e tolerância foram parte de seu ninho a vida toda. Mas, ainda assim, ele se esconde no manto da heteronormatividade por razões que se refletem na sua vaidade. Bruno é egoísta e cheio de preconceitos (tem um caso grave de gordofobia, inclusive) e a cada semana, a ideia sedutora de apoiar a todo custo o homossexual enrustido da série vai nos deixando. O arquétipo básico está ali, mas a forma como o personagem vai sendo desenvolvido não cumpre expectativas previsíveis.
Esse mesmo tom passa por vários outros… Pol é o mulherengo, sedutor, que parte corações toda semana. Não demora muito para que os roteiros revelem várias de suas outras facetas. Mais importante: a evolução dos personagens através do contato filosófico não substitui um estabelecimento pessoal por outro. Ou seja, não se trata de elucidar mentes para tornar todos bonzinhos. A série não tem maniqueísmo algum e todos são passíveis de atitudes egoístas e benevolentes. O pano de fundo filosófico é, na maioria das vezes, uma metáfora para como os jovens lidam com a própria vida e como eles se relacionam com o mundo. O professor Merlí também não está livre dessa mesma dinâmica. Sua tendência a rejeitar regras, idiossincrasias e diretrizes quase sempre fazem parecer que ele é melhor, mais inteligente, mais esperto e isso também é ruim, também reflete um padrão erudito nocivo. Mas, seu chefe e seu filho lhe trazem a realidade necessária de que ele é um egocêntrico, um homem que defende uma certa anarquia de costumes às custas de uma imensa auto importância, desrespeitando e esmagando até entes queridos.

Filosofia Itinerante
Cada episódio do programa tem o nome de um filósofo e suas ideias guiarão ações e diálogos. No episódio chamado Sócrates, por exemplo, Merlí começa explicando a forma como o filósofo passou a ser perseguido por influenciar jovens a questionarem ideias concebidas e descobrirem raízes de um pensamento social cheio de preconceitos. O episódio, então, coloca Tania (a menina gorda) e Bruno (o menino gay), como antíteses de um mesmo problema: a aceitação. Bruno é enrustido, não quer ser chamado do que ele realmente é. Tania é gorda, mas não quer ninguém se desculpando porque a chamou assim. Ela é gorda e entende que a desculpa é uma condescendência barata que reflete mais um aspecto do egocentrismo do outro. Se a chamou de gorda para feri-la, não se desculpe dizendo que ela não é gorda, desculpe-se por considerar que isso seja um problema. Essas camadas, contudo, não estão explícitas e nem são didáticas (apesar deste ser um ambiente escolar).
Na segunda temporada (ainda não disponível no Netflix), filosofas mulheres são incluídas e o LINDÍSSIMO episódio apoiado nas ideias de construção de gênero de Judith Butler, traz à tona a teoria de que ser homem ou mulher é uma definição tramada por códigos sociais e que tudo que está fora da heteronormatividade é automaticamente excluído. Se o gênero é construído por códigos culturais, é perfeitamente possível que algumas pessoas construam a própria identidade a partir de códigos diferentes dos pré-estabelecidos. Então, o episódio reafirma o dissabor da condescendência ao mostrar Merlí (que se acha muito “cabeça aberta”) exagerando na tentativa de tornar a escola amigável para a professora trans que surge para uma rápida substituição. Ela não quer ser tema de debate, ela só quer trabalhar.

De forma muito inteligente, o episódio foge – como sempre faz – das abordagens óbvias e correlaciona a professora trans – que surge como aquela que buscou na vida a reformulação da própria identidade – com Marc, um jovem que aparece como aquele que sempre quis ser ator sem pensar sobre o que realmente isso significa. Ambos buscaram ser algo que exige uma transformação, e dadas as devidas proporções, há algo de extremamente poético no movimento de transgredir imagens físicas e ideológicas. É sensacional justamente porque eles não escolhem temas de sexualidade para correlacionar com a professora trans. Eles escolhem um outro tipo de latência: a artística.
Penso Logo Existo
E se você pensa que toda essa metaforização e aplicação de conceitos filosóficos faz de Merlí uma série chata, pode esquecer. Os longos episódios são tomados de energia. É incrível como o criador consegue dosar perfeitamente o humor, a leveza, com doses cavalares de drama, tensão e uma estrutura pop que não fica devendo em nada para as produções americanas com as quais estamos acostumados. A trilha sonora é tomada de música clássica e mesmo as canções em catalão tem uma sonoridade minuciosamente escolhida para não ser regional ou datada. O mundo da série Merlí poderia estar encaixado em qualquer parte do mundo e a riqueza absoluta de seu texto tem um cuidado admirável de ser acessível. É, sem dúvida, a produção que mais foi eficaz em traduzir “academicismo” para uma recepção e absorção simplificadas (não em linguagem ou conteúdo, mas em conceito).
O elenco é outro acerto. Francesc Orella, que vive o protagonista, é um gênio. Ele imprime com absoluta precisão as nuances de sabedoria e imaturidade de Merlí, sendo envolvente e repugnante nas medidas exatas. E sexy, devo dizer. Essas ambiguidades passam por todos os outros personagens… Sem dúvida nenhuma, o espectador passa a odiar e amar as mesmas pessoas alternadamente. Para que isso fosse possível, somente uma escolha de elenco muito segura. Cada um dos jovens escolhidos é absolutamente próprio para aquele papel. Não há nenhum desnível e todos eles estão acima da média. É algo realmente impressionante e que nos faz perguntar o tempo todo como é possível que esse cuidado com casting não seja natural a todo tipo de produção que pretende o mínimo de respeito crítico.
Quando Merlí chega até a turma, um dos alunos está de licença por ter agorafobia. O transtorno foi causado pela maneira intolerante com a qual os colegas lidaram com as peculiaridades da personalidade do menino. No decorrer do ano, a turma se questiona muito, se desafia intelectualmente e esse processo esclarece limitações que quando são elucidadas podem ser vencidas. Somente assim a volta desse aluno se torna possível e aí está uma das maiores belezas de Merlí. Mais importante do que a consciência política é a consciência humana. A filosofia incita o raciocínio e pensar sempre foi a melhor maneira de investigar o sentir. Uma vez percebidas as origens do que se sente, a descoberta da tolerância e da empatia podem ser muito mais poderosas. Quando a turma recebe o aluno agorafóbico de volta está dizendo isso: pensamos, investigamos o que sentimos e agora somos capazes também de entender você. É realmente inspirador.

Enfim, a filosofia não era tão irrelevante assim. Sabemos que se trata de ficção, sabemos que a ficção tem o aval da sorte e ali estavam professores e alunos que serviam a um quadro minuciosamente marcado. Contudo, se na “vida real” a filosofia for capaz de atingir os mecanismos intelectuais de um só aluno por turma, ela já vai ter provado seu ponto. Mais do que isso: educação e exclusão não ficam bem juntos em nenhuma configuração e ainda que “filosofia não reprove”, ignorarmos seus benefícios é reprovável. Sem dúvida, Merlí teria discutido com seus alunos o valor ideológico da obrigação de se ter filosofia no conteúdo do ensino médio. A questão é que até para se discutir a importância da filosofia numa sala de aula, a filosofia lá precisaria estar.
Maratonem a primeira temporada de Merlí no Netflix, busquem a segunda temporada na internet (ainda sem legendas em português) e aguardemos o já anunciado último ano, que estreia em setembro. Abaixo, alguns comentários para quem já viu as temporadas.
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A Vaca Metafísica: O episódio 7 da segunda temporada (chamado Judith Butler) está entre uma das melhores coisas que já vi em toda a minha vida. A sequência final da professora trans jogando futebol com os alunos em vestimentas de gênero trocados, foi de arrancar lágrimas. Um nível de inteligência textual e sensibilidade imagética como pouco se vê.
A Vaca Metafísica 2: Há na série uma tórrida história de envolvimento homossexual entre dois personagens. Boa parte da pequena notoriedade da série no Brasil se deu por conta do boca-a-boca em torno desse plot.
A Vaca Metafísica 3: A ousadia do professor na hora de levar os alunos a pensar é tanta que no episódio em torno da filosofia de Hume, as noções da vaidade filantropa e do papel do estado no ato da caridade são questionadas a ponto dos jovens decidirem boicotar uma campanha de arrecadação de alimentos.
A Vaca Metafísica 4: “Se ensinassem desde pequenos a respeitar a diversidade sexual, ninguém riria de ninguém nas salas de aula quando a adolescência chegasse”.
A Vaca Metafísica 5: “Como uma sociedade que se apoia na ideia da busca pela felicidade pode ser tão cheia de doenças da alma? Depressão, ansiedade, stress.. Ao mesmo tempo, todos se preocupam tanto com a aparência. Menos academia e mais psicanálise”.
A Vaca Metafísica 6: O episódio que homenageia “O Clube dos Cinco”, na segunda temporada, é outro que evidencia como o texto dessa série é absolutamente incrível. Apoiado em Descartes, o episódio mostra divagações de cinco alunos sobre o sentido de existência e da recriação do nada.
A Vaca Metafísica 7: E se você conseguir chegar ao Season Finale do segundo ano, prepare-se para uma das coisas mais mórbidas e ao mesmo tempo otimistas que já tive o prazer de ver.
É isso, corram lá. Assistam.














