O faroeste (ou western para alguns) teve seu período de glória nas décadas de 60/70, quando as matinês nos cinemas levavam crianças e adolescentes para assistirem as aventuras de Clint Eastwood, John Wayne e Cia. No Brasil a adaptação se deu para um contexto bem mais cruel e árido: a Caatinga. Saem os cânions yankees e entram as volantes, os cangaceiros se digladiando no interior do Nordeste. Mas assim como a versão americana, esse gênero fílmico se perdeu com a chegada da modernidade e das mazelas sociais metropolitanas, que tinham capacidade de maior empatia com o público que ia aos cinemas. Engraçado que o primeiro filme original brasileiro da Netflix seja justamente uma produção do gênero. O Matador (2017) tenta criar um panorama que também seja de identificação internacional (adotando alguns moldes do western americano), mas que acaba perdendo força na essência nordestina no decorrer dos 98 minutos de duração.
Qualquer pessoa que nasceu ou cresceu no Nordeste já teve o mínimo de contato com as histórias que se passavam no alto sertão, geralmente envolvendo os temidos cangaceiros. O mais conhecido deles, Lampião, foi alçado ao posto de lenda em alguns círculos sociais da época e pelos cordéis atualmente. Então, para alguém que conhece o mínimo dos pormenores de uma narrativa do gênero, o filme é uma salada de referências que atira para todos os lados e não consegue acertar nenhum alvo em sua totalidade (sim, o trocadilho foi intencional). A trama se passa em Pernambuco, entre os anos de 1910 e 1940, onde um bebê abandonado é encontrado por um temível cangaceiro, Sete Orelhas (Deto Montenegro). Anos mais tarde, já adulto (interpretado por Diogo Morgado), ele assume o nome de Cabeleira e o posto de seu pai adotivo nas fileiras do Monsieur Blanchard (Etienne Chicot), um francês que domina o comércio de pedras da região e que o emprega como matador.
Coronelismo, umbanda, misoginia, ganância e vários outros tons se misturam na trama escrita e dirigida por Marcelo Galvão. Mas assim como o ditado “de boas intenções o inferno está cheio”, na tentativa de abarcar vários referenciais do período e região para o público internacional, Galvão acaba criando um filme que carece totalmente de unidade. Como esquetes funcionariam perfeitamente, mas como um conjunto da obra as partes necessitam de uma ligação bem mais elaborada. Personagens mal aproveitados e diálogos risíveis, narrativas não são bem desenvolvidas e o pior de tudo, muito das características do bioma que o filme retrata são desrespeitadas. O que fica ainda mais evidente com as escolhas tomadas na produção. Tempestades de areia que são inexistentes na caatinga se fazem presentes. Alguns dos efeitos visuais são risíveis, mesmo para uma produção modesta (como é o caso aqui). Somente a fotografia e a trilha se salvam entre os itens técnicos aqui. As belas paisagens áridas iluminadas e as locações em Pesqueira (interior de Pernambuco) são transformadas pelo inteligente jogo de luz e sombra de Fabricio Tadeu e a trilha consegue realizar o que o filme não consegue narrativamente, misturar diversas culturas e influências de modo balanceado, ponto para Ed Côrtes.

No campo da atuação as coisas voltam a ser complicadas. Muitos atores só aparecem por poucos minutos, tão apagados que não são nem notados (caso de Mel Lisboa), enquanto outro que tem o destaque do filme não conseguem corresponder à altura (caso do protagonista Morgado, que mais parece um homem das cavernas caricato do que alguém que foi criado em dificuldades). Alguns nomes surpreendem entregando atuações bem acima do que vemos em trabalhos anteriores, cito aqui Thaila Ayala que consegue segurar bem o drama nos momentos necessários. Maria de Medeiros é subaproveitada (só rende no ótimo número musical) e Marat Descartes ora convence, ora perde força pelo excesso de caricatura.
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A Netflix vem cada vez mais criando um conteúdo direcionado ao espectador brasileiro, abarcando diversas épocas e gêneros, e também aproveitando para apresentar o nosso audiovisual ao resto do mundo no processo. O Matador, no entanto, não consegue transmitir nem um nem o outro. O filme não consegue fazer jus ao período do cangaço (ou no caso, o pós-cangaço) e também não consegue fazer um faroeste convincente. Fica na sombra de outras obras de maior relevância e infelizmente não é lá um bom passo para o primeiro filme original do catálogo brasileiro da gigante do streaming. De boas intenções a caatinga está cheia.
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