A segunda temporada The Marvelous Mrs. Maisel, queridinha do Emmy 2018, consegue ser ainda melhor do que o já excelente ano de estreia, consolidando a ótima direção de arte e primor visual com o sempre necessário e pertinente discurso feminista.
Primeiramente irei contar minha breve história com essa magnífica série que é The Marvelous Mrs. Maisel. Sempre ouvi elogios da série na internet, especialmente no Derivado Cast e no SM Play. Porém, foi necessário o hype do Emmy e uma promoção imperdível do meu provedor de internet banda larga para assinar o Amazon Prime Vídeo para finalmente começar a acompanhar essa pérola televisiva em meados de setembro desse ano.
E acreditem: os elogios não foram exagerados. A série é fantástica, com uma reconstituição de época impecável (à altura de Mad Men, minha referência para meados do século XX nos EUA), diálogos frenéticos e inspirados, planos-sequência sensacionais e personagens e tramas cativantes.
Não conheço a fundo o outro grande sucesso de Amy Sherman-Palladino, Gilmore Girls, pois confesso que na época preferia Everwood, Felicity, Smallville e The O.C. nos áureos tempos em que assistia séries dubladas no SBT. Mas é impossível não reconhecer seu talento para a escrita e, principalmente, ao retratar mulheres sensacionais na TV, tendo agora contato direto com uma obra sua. Porém, falta tempo e sobra preguiça para me aventurar em uma maratona de Gilmore Girls a essa altura da vida.

No primeiro ano de Mrs. Maisel temos o fato catalisador da série, quando Miriam “Midge” Maisel (Rachel Brosnahan de House Of Cards) descobre a traição do marido e tem sua vida virada de cabeça para baixo ao mesmo tempo que busca emprego fora e o concilia com a descoberta de sua paixão pelo stand up comedy. Aos trancos e barrancos ela consegue equilibrar a vida com os filhos e pais, figurando como uma ótima protagonista, que sustenta a história e conta com excelentes coadjuvantes também.
A segunda temporada começa com Midge e Susie Myerson (a inspirada Alex Borstein, merecedora do Emmy de coadjuvante!), ainda galgando seu espaço na cena noturna de Nova Iorque, com muito esforço e pouco resultado. A cidade em si é um personagem à parte, sempre charmosa e servindo de cenário para essa incrível trama.
Os primeiros episódios se passam em Paris, com os pais de Midge protagonizando uma crise no casamento e com a Cidade Luz rivalizando sua beleza com a Big Apple. Cabe destaque a Abe (Tony Shalhoub, de Monk) e Rose Weissman, os pais de Míriam que servem como contraponto cômico e conservador ao atual estado de sua filha, de mãe separada.
Eles também são os responsáveis pela latente alienação de classe que Midge vive imersa, sendo moradores de Upper West Side, área nobre e cara de se viver em Manhattan. Isso fica evidente em como Midge e Abe tem asco do apartamento de Rose em Paris ou do contraste de que Susie vive em uma pocilga do tamanho do quarto de solteira de Midge no apartamento dos pais. Reside aí uma boa crítica/análise social do meio de privilégios que nossa protagonista está inserida, mas que nem assim a isenta de vivenciar o machismo/sexismo vigente na sociedade dos anos 50. Mais um exemplo de alienação de classe média é a colônia de férias de verão/culto/seita que a família Weissman frequenta e que serve de ótimo background para vários episódios.

Outra grata supresa nessa segunda temporada foi a inserção de um novo interesse romântico para Midge, além do ex-marido Joel Maisel: ninguém menos do que Zachary Levi, nosso eterno Chuck Bartowski de Chuck e futuro Shazam!, como Benjamin. Sempre carismático, o personagem vai ganhando aos poucos tempo de tela e o coração de Miriam. Entretanto, não tenho certeza se o personagem tem futuro na série após o final da temporada. Espero que retorne ao menos para a conclusão de sua trama.
Um ótimo coadjuvante é Lenny Bruce, companheiro de prisão de Midge na primeira temporada. Comediante já estabelecido, eles possuem uma amizade única de encontros aleatórios em bares noturnos de Nova Iorque. Cheguei a cogitar que apelassem para um romance entre os dois neste segundo ano, o que poderia soar fácil, preguiçoso e previsível no roteiro, mas não aconteceu. Porém, se acontecesse, também não me incomodaria. Os dois tem química e funcionam bem quando juntos em tela.
O monólogo que Lenny tem no último episódio (All Alone) é pungente, depressivo e emocionante, levando Miriam a tomar, talvez pela primeira vez em sua vida adulta pós-casamento e filhos, uma decisão imediata e pensando em si só, sem levar em consideração todos esses outros fatores. Isso é algo que ainda hoje é negado às mulheres que, para os opressores, tem como suas primeiras obrigações a casa e os filhos. O desabafo de Lenny encaixa perfeitamente na lógica do palhaço que faz todos rirem mas que não tem ninguém que o faça rir.
Cada episódio ao longo da temporada é cheio de pequenos twists: quando você acha que Midge está indo bem no palco, ela fracassa. E quando está aparentemente indo mal, ela se dá bem. Esses altos e baixos do início de carreira como stand up comic me fez sofrer, no bom sentido, já que fico sempre torcendo pelo sucesso de nossa querida protagonista.
Um ponto alto da série é ver os judeus, como uma vasta comunidade que são, fazendo piadas consigo mesmos, com seus costumes e cultura. Isso fica evidenciado na colônia de férias de verão e nos grandes feriados da religião mostrados nos episódios.
Há de se fazer também uma menção honrosa ao equilíbrio de tempo de tela dado aos personagens coadjuvantes: Joel, seus pais (sogros de Midge), os amigos do casal, as telefonistas, colegas de trabalho, etc. Todos, em algum momento, possuem uma história interessante de ser contada e apreciada. Sinceramente não me recordo de acompanhar nenhuma subtrama que me soasse enfadonha.
The Marvelous Mrs. Maisel apresentou uma excelente segunda temporada, onde é clara e notória a evolução de Miriam e outros personagens juntamente com ela. De mãe separada e perdida ela se desenvolveu em uma mulher independente e empoderada, que questiona o establishment que privilegia homens, especialmente na cena do stand up comedy nova-iorquino.
> AS 10 MELHORES SÉRIES DE 2018!
Se The Marvelous Mrs. Maisel tiver um final planejado e organizado, uma das apoteoses seria ela abandonar o nome de casada, ainda que artístico. E que venha a terceira temporada dessa pérola televisiva, que já aparece lá no IMDB. A-MEN!
















