Pantera Negra não é apenas o primeiro filme de um super-herói negro desde que os Estúdios Marvel começaram sua lenta e poderosa escalada rumo a realeza de produções adaptadas de histórias em quadrinhos. Começando em Homem de Ferro, em 2008, já se passaram 10 anos e 16 filmes com estes personagens coloridos, despretensiosos e raramente complicados. Introduzido inicialmente em Capitão América: Guerra Civil e começando pouco tempo após o final deste, Pantera Negra retorna para Wakanda para apresentar ao público a fantástica e futurística nação construída em segredo por uma África bem diferente da que estamos acostumados a acompanhar no cinema. E em um mar de primeiros, Pantera Negra também é aquele que rompe a tão criticada fórmula da Casa das Ideias.
Graças ao vibranium, material que está presente no Universo Cinematográfico da Marvel desde que Peggy Carter atirou no escudo, ainda sem tinta, do Steve Rogers, Wakanda conseguiu prosperar tecnologicamente como nenhuma outra sociedade no planeta. Também graças aos perigos oferecidos pelo restante do mundo e com uma montagem que tocou em assuntos como guerras tribais, exploração e escravidão, tanto o mineral, quanto a nação, permaneceram escondidas do restante do mundo. Vendida apenas como um país de terceiro mundo, o que está por baixo do escudo protetor é bem mais rico e impressionante, assim como o personagem que dá o nome ao longa.
Chadwick Boseman é quem segura o papel de T’Challa, o Pantera Negra. Diferente de sua introdução em Guerra Civil, onde o personagem era um desconhecido e desajustado personagem, Pantera Negra apresenta um poderoso elenco coadjuvante para inserir T’Challa dentro de um mundo próprio. Aqui, o papel do forasteiro é de Martin Freeman, como agente Everett Ross, enquanto todo o restante do time de apoio funciona como uma grande família. Da irmã, Shuri, interpretada por Letitia Wright, a dora milaje, Okoye, trazida a vida pela fantástica Danai Gurira, o filme conseguiu apresentar uma história envolvente, bem particular e rica, coisa que nenhuma outra produção do MCU já havia feito antes, com tanta maturidade. E essas mulheres são responsáveis por segurar, com muita pompa, o ritmo e também as expectativas para um elenco de apoio. Como não se apaixonar por Shuri? Como não sentir a devoção de Okoye?

O tom também é bem mais rico e menos emparelhado por piadas despropositais quanto o restante do MCU. Da mesma maneira que Soldado Invernal, existem linhas cômicas inseridas em uma cena e outra, mas diferente do longa do Capitão, a relação familiar e a sensação de pertencimento de T’Challa, especialmente enquanto ele divide cenas com sua irmã, Shuri, é que oferecem uma leveza que foge bastante do tom predefinido pela Marvel em seus filmes. A química entre ambos é um sopro de ar fresco e a primeira relação entre irmão e irmã com tanta carga dentro deste universo – infelizmente Mercúrio e Feiticeira não conseguiram tempo para chegar perto.
Também é válido dizer que por não se “incluir” dentro do mundo dos Vingadores e não ter nenhuma participação extra, Pantera Negra consegue não apenas ser seu próprio longa, mas também se sobressair ao conseguir manter-se isoladamente, mesmo que pertencendo a um outro mundo, cheio de super-heróis poderosos, joias do infinito e afins. E ao não introduzir nenhuma gema do infinito, a Marvel também mostrou que este é um filme relevante para o universo compartilhado por vários outros motivos, que não o da obrigatoriedade do pertencimento ao panteão de heróis como Homem de Ferro, Capitão América e Thor. Isoladamente o poder de Pantera Negra está em seu visual rico, em seus personagens agradáveis e também em sua complexidade – E não porque o Tony Stark apareceu para se embasbacar com a tecnologia de Wakanda ou algo do tipo.

O filme também é uma verdadeira celebração a cultura africana. Da fotografia, sempre centralizada em destacar a paisagem natural, mesmo ao redor de tanta tecnologia, as roupas usadas pelos cidadãos de Wakanda. Pantera Negra não é apenas o filme mais diferente e que melhor quebra a fórmula do primeiro longa de um super-herói, mas também figura como, visualmente, o produto melhor construído pelo MCU. Cores, tradição, sons, tudo trabalha para mostrar que realmente estamos em um paraíso não tocado pelo excesso de couro e a mesma matriz acinzentada e sem vida da Marvel.
Outro ponto que é interessante tocar é a trilha sonora do filme, a primeira a carregar tanta personalidade desde Vingadores, com seu tema que permanece, até hoje, como o único diferencial sonoro da Casa das Ideias. Ludwig Göransson conseguiu encontrar o balanço perfeito entre o tribal e o tecnológico, assim como Kendrick Lamar e sua seleção de músicas originais também foi responsável pelo clima heroico e socialmente relevante destes personagens.
A história do filme é bem focada em Wakanda, outra personagem principal e a mais importante para o filme. Sua riqueza, sua personalidade e complexidade fazem dela um ambiente bem mais relevante do que Asgard, por exemplo. E exatamente por ter sido tão importante, a sensação de que não vi o suficiente daquela sociedade perdurou até o final do filme. É algo que me fez questionar, por exemplo, a decisão de incluir uma cena em um cassino na Coreia do Sul ao invés de ali mesmo, no “quintal” do reino. Claro, a sequência foi digna de um filme do 007, com perseguições em carros, lutas bem coreografadas e um apoio tecnológico surreal, mas Wakanda também poderia ter oferecido algo similar.

Emocionalmente, Pantera Negra também é o filme mais complexo da Marvel. A trama do parente que se volta contra a família não é nova, Thor construiu Loki ao redor desta motivação. A grande (e gritante) diferença é que o trabalho de Ryan Coogler (Creed: Nascido para Lutar) está palpado em desenvolver a complexidade através da humanidade e não da falta de conexão com ela. Killmonger é bem dimensionado e consegue fazer uma conexão com quem está assistindo de uma maneira que nenhum outro conseguiria. Ele teve seu futuro retirado por uma decisão, de um monarca e seu apoiador, e pagou caro ao ter sido completamente abandonado pela nação que gerou T’Challa como príncipe e rei. Em alguns momentos é normal se identificar com o vilão ou pelo menos compreender sua motivação. Quem movimenta o filme sentimentalmente é o antagonista, já que, por sua imagem mais implacável, T’Challa recebe complementos sentimentais através de outras personagens, como sua mãe ou sua antiga parceira, Nakia.
E para que um filme como Pantera Negra conseguisse impor uma trama relevante para seu personagem principal, o sempre confiante T’Challa, interpretado com uma aura de confiança inabalável, foi necessário apresentar um vilão que o fizesse questionar a imagem mais forte para este herói, a figura heroica do pai benevolente e do rei misericordioso. Quem é o Pantera Negra quando destituído de sua herança? E Michael B. Jordan, redimido por seu trabalho em Quarteto Fantástico, mostra para o telespectador e também para o personagem central o quanto a tradição é importante. Sem ela para se apoiar o rei caí, literalmente. Minha única crítica negativa, porém, também está atrelada ao vilão, já que a luta final não conseguiu chegar perto do ápice emocional que o embate pelo trono, no começo e quase no final, criaram. Talvez o CGI tenha pecado um pouco ou o fato de termos uma luta contra as dora milaje e rinocerontes do lado de fora acontecendo tenham me distraído.
Pantera Negra é o primeiro dentro de vários “primeiros” para a Marvel e sua força está no respeito pela tradição africana, pelo manto do herói e também pela coragem de apresentar ao mundo um show de representatividade e cultura. Seu poder também deriva de sua imagem única, sem obrigatoriedade de participação de outros personagens, sem conexões forçadas que não fazem muito sentido – como uma passagem pela casa do Doutor Estranho, por exemplo. Não. Pantera Negra consegue se segurar sozinho por realmente provar que não precisa de mais ninguém para construir uma história rica, com personagens complexos e o vilão mais bem construído pela Casa das Ideias desde que ela se adaptou sua primeira história em quadrinhos. Existem vários méritos em Pantera Negra, o maior deles é provar que a representatividade e a cultura negra são tão relevantes quanto uma luva dourada cheia de joias. Da mesma maneira que Mulher Maravilha mostrou para várias meninas que elas podem ser uma heroína dona de seu próprio longa, Pantera Negra está mostrando para garotos e garotas negras de todo o mundo que eles também existem e tem vez.
Easter eggs e outras informações
– O filme tem um total de duas cenas pós créditos. Uma faz referência a conexão entre Wakanda e o restante do mundo, enquanto potência e não apenas mais um país de terceiro mundo, e a segunda nos conecta diretamente ao final de Capitão América: Guerra Civil, mostrando o que aconteceu com Bucky desde que ele foi colocado para “dormir”, após o confronto com o Homem de Ferro.
– Pantera Negra teve sua primeira aparição em Quarteto Frantástico #52, em 1966. Ele foi o primeiro super-herói negro, da África, a ter grande destaque nas histórias em quadrinhos antes do surgimento de personagens como Falcão, Luke Cage e John Stweart.
– A máscara do Killmonger, Erik Stevens, mantém grande conexão com sua contraparte nos quadrinhos. O adereço tribal conecta o personagem a suas raízes.
– Outro personagem com conexão aos quadrinhos é M’Baku, que na nona arte atendia pelo nome Homem Macaco, devido a adoração de seu povo pelo gorila branco. Obviamente o nome foi riscado, já que implica outras questões, mas a origem do ambiente e da adoração pelo gorila foram mantidos na construção do cenário e indumentária.
– Conseguiram encontrar o Stan Lee no cassino em Busan?
– Shuri, a irmã do Pantera Negra, já usou o manto do Pantera nos quadrinhos. Ela também comenta a respeito de “outro garoto branco para consertarmos”, que é uma conexão ao Bucky Barnes, o Soldado Invernal.
– O exército de mulheres que protege o rei de Wakanda, as Dora Milaje, foram retiradas também das páginas das histórias em quadrinhos. Criadas em 1998, elas já tiveram um grande destaque nas páginas.
– O braço tecnológico do Klaue, conexão com Era de Ultron, também é bem similar a sua contraparte, com a diferença de ser um pouco mais moderno. Contudo, quando ele se desmonta e vira um canhão, é praticamente como se estivéssemos olhando para uma HQ.
– Também saído das páginas é o momento em que o Pantera Negra enfrenta um rinoceronte, conforme já exibido em Jungle Action, a revista que o personagem estrelou na Marvel.
– A cena em que T’Challa é arremessado da cachoeira também repete uma cena idêntica das HQs.
– A ordem de atacar Nova York, Londres e Hong Kong pode ser uma conexão aos Sancto Sanctorums localizados ao redor do mundo, como vimos em Doutor Estranho.
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– No final do filme T’Challa diz para Shuri que ele construirá uma ponte entre Wakanda e os Estados Unidos, inclusive com ela chefiando o departamento de intercambio em ciência. Bom, um personagem que está há um tempo estudando em Wakanda é Bruno, de Ms. Marvel.
















