A jornada de um homem.
Há uma constante em grandes impérios de adquirir itens de valor inestimável ou de raridade tamanha, como uma comprovação de até onde foi possível expandir e o poder que tal império conseguiu atingir. O império construído por Genghis Khan não fugiria dessa máxima, acumulando “presentes”, culturas e pessoas das mais variadas partes, algo parecido com o que Alexandre, o Grande, construiu milhares de anos antes (e que por ironia se estendeu até a Mongólia). Não era de se admirar então que Cem Olhos, um dos melhores personagens da primeira temporada de Marco Polo, fosse uma dessas “aquisições”. “Marco Polo: One Hundred Eyes”, spin-off da série original, serve para apresentar o passado do monge e sua jornada de prisioneiro à ministro da corte do Khan.
O ano é 1262. As expansões do império mongol atingem o sul da China, chegando às montanhas Wudang. Em um dos templos existentes nas montanhas, Li Jinbao se prepara para chegada dos invasores. Jinbao consegue facilmente derrotar um destacamento sozinho, atraindo assim a atenção do responsável pelo ataque. Um guerreiro capaz de derrotar 25 homens sozinho deve, por certo, conhecer algum segredo capaz de tais habilidades.
A chegada na corte de Genghis Khan é também o início da jornada de libertação e autodescoberta de Li Jinbao. Numa analogia rápida Jinbao seria como um bambu, resistente, capaz de envergar, mas quebrável somente com grande esforço. Num duelo de forças com o Khan, ele vai aos poucos caindo nas graças do governante ao mesmo tempo em que mantem a todo momento os ensinamentos arraigados em anos de servidão no templo. A cegueira, marca tão presente na série, se deve justamente como punição aos atos causados pela tentativa de fuga. Mas nas dualidades do pensamento asiático, a prisão acaba sendo também a libertação de Jinbao e a criação de Cem Olhos. A cegueira serviu como a quebra dos grilhões do orgulho (como fica belissimamente exemplificado na sequência do treinamento por meses) e a noção de que a realização plena vem por caminhos não tão óbvios assim.
E nessa realização ele acaba por conseguir a admiração do até então algoz. Comprovamos que o padrão de raiva, aceitação, admiração de Genghis Khan aconteceu antes mesmo de Marco Polo se tornar prisioneiro. Mantenha seus amigos próximos e seus inimigos mais perto ainda. Aqui no caso está máxima não serve, já que a admiração mutua, mesmo depois de tanta rusga, é mais forte. As raízes tiveram dificuldades de se estabelecerem, mas no final acabaram propiciando um alicerce forte e producente.
“Marco Polo: One Hundred Eyes” é um belo adendo a mitologia da série principal. Com uma história cativante, visual igualmente espetacular ao produto de origem é aquilo que os fãs precisam para acalmarem os ânimos até o lançamento da segunda temporada. Netflix acertando mais uma vez.
PS 1: Ainda não há uma data prevista para o lançamento da segunda temporada. Sai no verão americano, nosso inverno;
PS 2: Tivemos um vislumbre da personagem de Michelle Yeoh na série. Alguém ligada ao passado de Cem Olhos, possivelmente uma das monjas do mesmo templo. Como vai acontecer esse retorno? Ainda é um mistério…
PS 3: Falando no templo, Wudang é uma cadeia de montanhas em Hubei, na China. È o berço de várias correntes de pensamento entre elas o Taoísmo e o Taichi. Também é o berço do Wushu, o conjunto de artes marciais chinesas. O conjunto de templos é considerado patrimônio cultural da humanidade pela Unesco;
PS 4: A trilha sonora é meio irônica: nos momentos em território chinês (os templos) tem uma pegada Tibetana/ Mongol, já no final ganha contornos chineses (na corte);
PS 5: Cem Olhos foi o responsável pelo nome chinês do primogênito do Khan, Jingim;
PS 6: Não é de hoje que ele curte dar uma rasteira no pessoal.
















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