“Car guys are a bunch of creeps.” – Freddy

“They’re all a bunch of creeps.” – Peggy

 Spoilers Abaixo:

Em “The Summer Man” (episódio 8, 4ª temporada),  Peggy demite Joey por este ser ofensivo e desagradável com Joan e, para surpresa da primeira, sua atitude é recebida com frieza pela amiga, que acredita que a demissão só mostra como ambas são fracas. Na época, muito se discutiu sobre o posicionamento de Joan, se ela estava correta ou apenas na defensiva por não ter resolvido o problema por ela mesma, e se Peggy no final das contas não estava apenas exercendo um poder “masculino” em benefício próprio. Seja como for, era uma situação que só existia como problema por se tratar de duas mulheres: se fosse um homem no lugar de Peggy, não haveria o que discutir, pois seria um comportamento “natural”.

E agora temos “The Other Woman”, episódio que tem causado certa comoção pelo fato de Joan ter aceitado transar com um executivo da Jaguar para garantir a conta para a SCDP, em troca de uma sociedade na empresa. Muitos têm abraçado o episódio sem questionamentos: trata-se de um dos grandes momentos da série, um de seus melhores e mais memoráveis episódios (além do drama de Joan, Peggy pede demissão); outros, no entanto, veem com desconfiança. O crítico de TV Alan Sepinwall escreveu um texto elogioso após ver o episódio, ressaltando que não saberia ainda o que pensar sobre o comportamento de Joan, mas alguns dias depois veio a concordar com James Poniewozik, que usou argumentos sólidos para condenar o que houve: segundo ele, Joan faz o que faz para atender uma necessidade dos roteiristas e não por uma coerência interna à personagem, que inicialmente reage como se espera dela ao ouvir a insinuação de Pete, mas muda drasticamente ao aceitar a proposta em tão curto espaço de tempo.

Isto tem gerado bastante discussão nos fóruns e caixas de comentários pela internet, de uma forma tão acalorada que me fez lembrar a mesma questão em “The Summer Man”. Se um dos sócios da SCDP tivesse que fazer sexo com uma executiva, isso seria tratado com naturalidade. A questão de gênero é tão forte, que nem importaria se fosse com outro homem e basta lembrarmos que o mesmo Don que tenta proteger Joan, demitiu Salvatore por ele ter recusado sexo com Lee Garner, da Lucky Strike. Sendo assim, é mesmo difícil aceitar o que Joan faz? Não deixa de ser curioso que na mesma noite da exibição de “The Other Woman”, uma personagem em Game of Thrones diz “A melhor arma de uma mulher está entre as pernas. Aprenda a usá-la”. Claro, são diferentes contextos sociais, mas se isso fosse dito por uma mulher nos anos 60, talvez fosse considerado uma filosofia de vida; dito por um homem, este seria um porco machista. São questões a se pensar. A série estimula reflexões sobre gênero, papéis, identidade e exercício de poder sem soar didático, panfletário ou mesmo moralista e este episódio me parece outro grande acerto, emocionalmente forte e sem sacrificar a coerência de seus personagens.

Pra começar, toda a situação acontece graças a uma inteligente estratégia de Pete que, em reuniões diferentes, consegue tornar uma proposta impensável em algo possível. Campbell (que já fez a própria mulher flertar com um ex-namorado para conseguir que uma história sua fosse publicada numa revista) deturpa o que foi dito por Joan, causando reações diferentes nos três homens que mantêm uma relação com ela: Lane, que trabalha diretamente com ela e demonstrou recentemente um afeto maior, sugere a sociedade; Roger, que tem um filho e uma longa história com ela, resume-se a concluir que os negócios é um ramo sujo; Don, que tem uma relação de admiração e respeito mútuos (deixado claro pela sequência com os dois no episódio anterior), como o único a se opor. Mas as coisas não são simples assim e há sempre o interesse próprio em jogo. Lane se preocupa realmente com Joan, mas seu conselho o favorece ao não usar bônus ou aumento de crédito da empresa, enquanto Don também se opõe porque ganhar da concorrência desta forma diminuiria seu trabalho. Quanto a Roger, muitos criticaram sua reação, mas o que esperar de alguém que sempre está disposto a usar dinheiro para conseguir o que quer (e Joan já deixou clara sua posição), que ao ver o filho de um potencial cliente flertando com sua ex-esposa apenas a aconselhou manter a mentira de que ainda estavam casados, e quando vê seu filho pela primeira vez o segura como um objeto qualquer e olha com curiosidade enquanto fuma um charuto?

Por fim, temos a própria decisão de Joan. Muito se fala sobre ela não aceitar a proposta porque saberia que, aos olhos dos sócios, sempre seria inferior por conseguir a sociedade desta forma. Mas se não aceitasse, teria que conviver com chefes que estavam dispostos a prostituí-la – e não apenas chefes, mas pessoas com quem tem laços fortes. Não acho, então, que foi incoerente (a cena com a mãe sobre problemas domésticos, no entanto, poderiam ter dispensado).

Claro, isso não significa que não seja doloroso para Joan, ainda mais no mesmo episódio em que Peggy também toma decisões difíceis, mas que parecem ter efeito oposto. Joan não sabe que Peggy está saindo da agência em definitivo, o que não torna menos triste o significado daquele olhar: a mulher que se submete a uma situação humilhante para crescer profissionalmente vendo a mulher que sai daquele ambiente livremente, sem olhar pra trás e com um futuro promissor.

Mas toda a situação de Joan é conduzida lindamente, ainda que a série se utilize de recursos poucos sutis, como a repetição da visita de Don (linda por dar um novo significado à cena de modo geral, mas especialmente pelo gesto afetuoso ao passar a mão no rosto de Don) e a montagem paralela que une a apresentação na Jaguar com a “transação” de Joan, explicitando ainda mais o tema “mulheres como objetos”, já reforçada, inclusive, pela subtrama de Megan. Mas há outros tantos momentos especiais, como o que Joan entra na sala de Roger com os demais sócios, arrasador pela troca de olhares entre ela e Don ou Lane, e o humor peculiar mesmo numa situação terrível como esta, seja na conversa com Pete (Cleópatra, “ele é um homem fogoso”) ou até no próprio clímax (sultão árabe e Helena de Tróia?).

Com algo tão forte quanto o que acontece com Joan, “The Other Woman” ainda nos brinda com a (de certa forma aguardada) saída de Peggy da SCDP. Sem complicações, e em linha reta, vemos a personagem salvando campanha para um cliente, a falta de reconhecimento de Don que cruelmente lhe arremessa dinheiro, a conversa essencial com Freddy, a negociação com Ted e, finalmente, a despedida com Don, tão memorável e emocionante como em “Shut the Door. Have a Seat” ou “The Suitcase”. Em um episódio marcado pela vilania e perda de valores, o sorriso de Peggy antes de entrar no elevador (sempre ele…) surge como alento e esperança de dias melhores. E que esta não seja a despedida de Elisabeth Moss da série.

Outras considerações:

– Joan vai ao encontro do homem da Jaguar vestindo o casaco que Roger lhe dá de presente em “Waldorf Stories” (episódio 6, 4ª temporada), no flashback que mostra a relação de ambos em 1954; na ocasião, Joan diz que sempre que vestir, lembrará daquele momento dos dois. Que amarga despedida, Roger…

– “A conversa não acaba só porque você saiu da sala”. Pete é desprezível, mas ainda dominará a empresa;

– Que cena bizarramente linda a da amiga de Megan “entretendo” o pessoal da criação, enquanto Ginsberg reflete sobre a liberdade da Sra. Draper. É o tipo de coisa que ilustra bem melhor o tema proposto pelo episódio;

– “Vamos fingir que não sou responsável por tudo de bom que já aconteceu com você”. É bastante cruel, mas não dizemos as piores coisas do mundo quando a pessoa que amamos nos magoa? Fechando com o beijo na mão e as lágrimas de ambos e temos aqui a Emmy tape de Hamm e Moss;

– Falando em Emmy, acho que agora a vitória de Christina Hendricks parece inevitável, não?

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