“There is no fresh start. Lives carry on.” – Henry Francis

Spoilers abaixo!

O mais perturbador sobre “Tomorrowland” é como ele consegue ser fiel a toda temporada e mesmo assim ignorar uma porção considerável da mesma. Até certo nível, ele elabora a pergunta chave da série (“Será Don Draper capaz de ser feliz?”) e responde da maneira mais definitiva possível a que abriu a premiere, “Quem é Don Draper?”. E ainda que isso seja satisfatório de uma maneira ímpar que é reservada somente a séries brilhantes, deixa a desejar puxando o freio em todos os tensos acontecimentos dos episódios anteriores. Matthew Weiner disse em diversas entrevistas no decorrer da semana que esse season finale não ia ser bem o que nós esperávamos, e como ele estava certo. Simples, feliz pela intimidade porém amargo no geral, tendo em suas sequências finais calmaria. Tudo funciona para a série como mostrado anteriormente (ver as cenas que encerram “Meditations in an Emergency” e “Shut the Door. Have a Seat”), só me pergunto se foi a melhor saída. Quem lê as minhas reviews sabe que eu sou um partidário da alegria no mundo das séries, só que aqui eu não senti um comprometimento total com a causa.

Porém, ainda assim,”Tomorrowland” ainda consegue conquistar. Como? Sendo pura e simplesmente, em todos os sentidos da palavra, belo. Depois de um longo tempo tentando, Don consegue ser feliz, consegue ofuscar o fato de a sua agência estar à beira da falência para aproveitar um final de semana com os seus filhos na Califórnia ao lado de Megan, que na cena chave da temporada, se torna sua noiva. É uma tentativa de repor a única fundação sólida de sua vida (a Sterling Cooper Draper Pryce) por outra na qual ele tem completo controle, o casamento. Colocando assim pode parecer calculista, mas o processo? Os vários episódios brilhantes que levaram a isso? Ele fez por merecer e nós vimos, se livrou do fantasma de Dick Whitman e do fantasma de Don Draper, se tornando um homem só. Obviamente com medo do futuro que vai abalar sua alegria, claramente com várias feridas gigantescas, finalmente… Em paz. Contrariando todas as expectativas (pela quadragésima vez), Mad Men entrega a sua melhor temporada, fechando todas as histórias com uma chave de ouro, ainda que pequena.

Quer dizer, “fechando”.  Ainda temos várias pontas soltas para serem amarradas, como, por exemplo, a gravidez de Joan. Quando ela foi para a clínica em “Hands and Knees” houve muito debate entre os fãs sobre se ela havia ou não seguido em frente com o aborto e como na nossa rotação semanal o encarregado de fazer a review desse grande episódio foi o Hélio, não pude dar o meu palpite sobre o caso, que surpreendentemente (já que sou péssimo em prever o que vai acontecer em Mad Men, mesmo adorando tentar) era o certo. Ao meu ver, ela percebeu, sentada naquela depressiva sala, observando uma mãe arrasada esperar a filha, que estava ficando velha demais para aquilo, que após atingir uma maré de boa sorte profissional e estar sozinha em casa por um bom tempo devido à Guerra do Vietnã e o súbito dever patriótico que bateu no coração do marido, estava finalmente pronta para dar o próximo passo na sua vida, um que há não muito tempo atrás parecia distante e que agora que aconteceu só traz felicidade para ela.

Quanto ao pai (ainda que só biologicamente), fico feliz de ver que ele conseguiu evitar o pior depois do sinal vermelho que girou em cima de sua cabeça no episódio “Chinese Wall”. Na cena em que ele e os outros sócios recebem a notícia de que Don e Megan vão se casar, sua decisão por uma vida infeliz, mas ainda assim uma vida, fica clara… Ele não achou coragem para seguir em frente com o que rondava a sua cabeça e assim continua, fazendo as suas piadinhas, julgando os outros, sendo uma mera estátua que o tempo esqueceu na agência que leva o seu nome na frente. Como ele vai lidar com esse status quo é assunto para outras temporadas, porém, não deixa de ser um triste e apropriado final.

Já o de Peggy, é revitalizante. Conseguiu a primeira conta da agência em mais de dois meses e continua a estabelecer uma posição de cada vez mais destaque nela, também amadurecendo no lado criativo. A sua conversa com Art Garten (interpretado pelo ótimo Jon Manfrellotti, de Men of a Certain Age) pode não ter sido tão glamorosa e cheia de jogos mentais como as de Don, mas mostrou que ela aprendeu a comandar uma sala, sabendo ler as necessidades do cliente com perspicácia e criando dois slogans que serviram para convencer ele de que a Sterling Cooper Draper Pryce é o lugar ideal para sua empresa. Um desenvolvimento muito bem colocado que só prova o que havia sido indicado por vários outros momentos dela na temporada, incluindo a sua conversa com Joan e o “That’s bullshit!”.

O que, aliás, define a situação de seu amigo perfeitamente. Depois de uma temporada inteira preso em uma onda de tristeza e recuperação, a vida de Don recebe um grande choque com a potencial falência da agência, e como ele reage? Pedindo a sua secretária em casamento? Não é assim que Dick Whitman agiria. E definitivamente não é assim que Don Draper agiria. Essa foi a reação não só minha como de muitos, e talvez essa tenha sido a intenção. Alguns fãs de Mad Men vêem as raras falhas da série como novas facetas dos personagens (vide “The Good News”) para justificar tais tropeços, mas aqui, o novo Don/Dick que surge direto do fundo de um mini poço no fundo do poço principal tem origem nas raízes mais profundas da temporada. Ele vem da porta aberta em “The Suitcase”, da cena final de “Public Relations”, da conversa que tem com Betty no final de “The Summer Man” e da clara alegria ao colocar as crianças nos braços em diversas ocasiões… O que vimos foi um homem desesperado por um recomeço, mas com muita bagagem para tê-lo. Sendo esse o momento no qual ele finalmente conseguiu o que queria, pela primeira vez podendo manter tudo que carregava.

Outras observações:

– Adoraria o retorno do Bert, mesmo que breve. Sterling Campbell Draper Pryce não soa tão bem.

– Então a salvação da empresa vai vir de pequenas contas ao invés de uma gigantesca? Tira um pouco da empolgação que seria ver Don dando um dos seus típicos discursos para convencer um executivo poderoso, porém adiciona uma camada de realismo bem vinda e típica da série.

– Faye acabou sendo o oposto do que Don precisava para começar a sua nova vida, o que é uma pena levando em conta o quanto eu gostei da atuação da Cara Buono no decorrer desse ano, em particular naquela cena do término pelo telefone. Não sei se ela vai retornar na quinta temporada, só sei que adoraria ver um pouco mais da personagem e o que ela tem a oferecer para a história sendo uma das únicas pessoas vivas que sabem do segredo de Don.

– Toda a trama de Betty no episódio passou um sentimento de repetição que não se encaixou com o tema, ainda que trazendo uma mudança considerável para o núcleo de personagens do qual ela faz parte.  Mesmo assim, a sua cena final com Don é marcante e destaca todos os traços importantes dela. Sua infantilidade, fragilidade, ciúmes do ex-marido… Todas essas coisas estão ali em quantidades alarmantes enquanto um diálogo tão simples acontece.

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Ainda que cheio de boas intenções, foi um finale falho em relação ao que a série estava disposta a fazer com elas. Não só na questão da felicidade que teve um nível de comprometimento baixíssimo como nos outros temas das histórias de Roger, Joan, Betty e Peggy, a série se despede com uma leve pancada ao invés do estrondo que necessitava depois de uma temporada tão introspectiva. Ainda melhor que quase tudo em exibição, “Tomorrowland” decepciona, mas não deixa de ter sua poesia. E são por dualidades deliciosas como essa (e várias, várias, várias outras coisas) que eu sentirei muita falta de Mad Men nos próximos meses.

Obrigado por nos acompanhar na primeira parte da difícil jornada que é fazer reviews de uma série pouco famosa no Brasil.

Até 1966.

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