Como dar sequência a um dos melhores episódios da série? Seguindo em frente. Sempre.

Spoilers e cigarros abaixo!

“I´ll tell you… I was blind and now I see.” – Miss Blankenship

Com seus personagens trabalhando na publicidade dos anos 60, Mad Men está sempre nos questionando sobre a aparência e a superficialidade das coisas, e como articular isto com o desejo do outro (no caso, consumidor) em uma sociedade em constante transformação cultural. E, assim como nossa percepção de um produto tenta encaixá-lo em nossas necessidades, também percebemos desta forma as pessoas em nossa volta. “Queremos que as pessoas sejam quem queremos que elas sejam”, diz Don Draper. Podemos dizer que enxergamos, mas, como com Miss Blankenship, há sempre uma lente, um filtro, que faz a mediação entre aquilo que vemos e como chega até nós.

E o que temos em “The Summer Man” são várias ações guiadas pela percepção filtrada dos personagens. Joey é desobediente e ofensivo, pois vê sua própria mãe dominadora em Joan, além de achar que Harry está dando em cima dele; Bethany vê Don de outra forma após conhecer sua ex-mulher (e só podemos especular o que ela viu em Betty: alguém admirável ou alguém que se parece com ela?) a ponto de fazer sexo oral no táxi; Faye muda seu relacionamento com Don, agora que tem novas necessidades, ao terminar com o namorado; e Betty se comporta mal porque vê seu ex-marido como um “bon vivant” e tem uma atitude melhor quando Francine lhe dá um novo filtro (“Ele não tem nada a perder; você tem tudo”).

Esta percepção parcial dos personagens vem num momento de virada para o protagonista que, mais do que nunca, precisa enxergar melhor à sua volta. A imagem que ilustra este texto mostra um Don Draper que só nos acostumamos a ver nesta temporada. Não é a primeira vez que a câmera é tão frontal na sua decadência, mas talvez seja a última. Os laços firmados com Peggy no episódio anterior lhe deram força para se reerguer e “The Summer Man” é um novo e promissor começo para Don: a luz agora entra em seu apartamento, ele vê no relógio que ainda é cedo para beber e pede café à sua secretária, ele se controla no encontro com Faye, talvez na tentativa que construir um relacionamento mais sólido.

Mas não será fácil. A imagem acima certamente não ilustra o que o episódio significa para Don, mas fica como um alerta após vermos tantos personagens enxergarem parcialmente, apenas o que lhes convêm. Porque fica claro, também, que só será um novo começo caso Don consiga fazer escolhas diferentes: ele não resiste a uma dose de uísque após jogar fora as caixas que estavam na garagem de Henry, e seu encontro com Faye se dá logo após dizer a Bethany que não tem saído com nenhuma mulher. Se, ao final do episódio, Don já consegue um pouco mais de fôlego para atravessar a piscina sem tossir, o homem ao lado mostra que há muito mais e é preciso continuar em frente. De qualquer forma, é um episódio otimista, que termina com a alegria genuína de Don ao ter Gene em seus braços

Estilisticamente, não se pode deixar de comentar a narração em off do protagonista. É o tipo de recurso muitas vezes utilizado para mostrar emoções e sentimentos difíceis de serem expressos de outra forma (algo que a série sempre conseguiu fazer, com muita sutileza), e que ainda corre o risco de ser redundante, de narrar o que já estava óbvio. Mas considerando o atual momento do personagem, e rodeado por pessoas com visão “turva”, o uso me pareceu bastante eficaz, com alguns belos momentos. As cenas em que vemos Don esticado em sua cama, por exemplo, poderiam passar a ideia de solidão do personagem, mas ganham outro sentido, de liberdade, quando nos fala da boa sensação que sente, “esticando-se como um paraquedista”. É um uso contido e poético do “diário” de Don que renderia uma autobiografia bem mais interessante que a de Roger – mas certamente não tão engraçada.

Outras observações:

– Acho que renderia uma boa discussão a cena de Joan e Peggy no elevador. Quem está certa? Por um lado, a demissão de Joey parece ter sido a melhor coisa que Peggy poderia fazer. Por outro, Joan não está errada na imagem que farão delas duas. O fato é que Peggy fez o que fez mais para exercer um poder que nunca teve (e talvez conseguir admiração de Joan?) e menos pelo fato de ter se sentido enojada com o desenho. Peggy representa a onda feminista que estava por vir, onde o exercício do poder se assemelha ao do sexo masculino, enquanto Joan sente cada vez mais a pressão de que o seu exercício de poder seja ultrapassado – reparem como ela estimula Don a demitir Joey sem fazer ligação direta com seu problema, ou como ela sugere que poderia ter resolvido tudo em um jantar com um homem poderoso;

– Será interessante, a propósito, acompanhar o que os autores reservam para Joan. Além de claramente se sentir humilhada por Peggy (que ainda usa a sala dela como atalho para chegar à sua), nem o desenho a afetou tanto quanto a insinuação de Joey de que ela andaria pelo escritório pedindo por um estupro. E justamente quem a estuprou é a única pessoa com quem pode conversar, e que está indo para o Vietnam. O que faz sua língua ficar ainda mais afiada: lembrando os rapazes sobre a guerra que os aguarda, e mostrando a Lane porque uma máquina de sanduíche não é uma boa ideia;

– Falando em exercício de poder, Henry Francis sabe muito bem exercer o seu. O que poderia ser mais eficaz para um homem demarcar o seu território (ao menos nos anos 60) do que cortar a grama de casa na frente daquele que antes tinha esta função?

– Os sentimentos de Betty são sempre um mistério. Ela ainda sente algo por Don ou é só o típico comportamento infantil de quem não consegue ter tudo (por mais que ela se apegue às palavras de Francine)? Muito boa a edição da cena em que ela discute com Henry no carro (filmados de forma em que só vemos os bancos da frente), fazendo a transição para o táxi de Don e Bethany (mostrando apenas o banco de trás). É como se os dois casais dividissem o mesmo carro;

– Como anda a terapia de Sally? O olhar que ela dirige ao pai na cena final não é nada empolgante…

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