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De tempos em tempos, uma grande série te pega de surpresa com um dos seus melhores episódios acontecendo antes de toda a tensão da reta final da temporada. Lost fez isso com “The Constant”, Breaking Bad com “One Minute” e agora é a vez de Mad Men, com o belíssimo “The Suitcase”.
Spoilers e cigarros abaixo!
“That’s not true.” – Peggy Olson
Não é por acaso que só na quarta temporada Matthew Weiner pôde fazer o episódio que dá uma nova guinada no relacionamento entre Don e Peggy e ao mesmo tempo, o coloca sobre uma nova luz. Eram precisos vários pontos para tornar o desenlace do episódio, uma referência direta à “Smoke Gets in Your Eyes”, tão poderoso quanto foi. Era preciso a gravidez para Peggy assumir uma nova postura diante da sua vida pessoal e profissional, o fim do casamento dos Draper e a morte da verdadeira Draper para que Don ficasse exposto e saísse de controle no escritório, magoando os sentimentos de Peggy e levando ao resto dessa magnífica hora de televisão. Claro, tudo no mundo das séries é uma sequência de eventos, mas a forma como eles foram passados para a tela, montados no decorrer de vários anos, com um cuidado milimétrico e artístico… É colírio para os meus olhos.
“The Suitcase” também é, não surpreendentemente, uma das maiores jogadas da série em termos de expectativas. O roteiro e as situações (jantar, bebidas, típica situação de donzela em perigo) nos manipulam tão sutilmente que só percebemos ao final do episódio, como se os créditos fossem um balde de água fria nas expectativas clichês que a televisão vem moldando em nossas mentes há anos. A intenção no momento não era a de um romance e sim de mostrar Don se abrindo para ela de uma maneira na qual ele nunca tinha se aberto para alguém, nem mesmo Betty ou Anna. Peggy pode ainda não saber que o seu chefe nasceu com o nome Dick Whitman e que carrega o suicídio do irmão nas costas, mas consegue ver através da neblina que ele criou sob si mesmo a partir de pura vergonha. Don acolheu Peggy de uma maneira única em um ambiente onde ele é dominante, deixando ela tomar espaço e se tornar a pessoa mais importante de sua vida depois dos filhos. E mesmo assim, em um episódio que já diz tanto, temos uma reafirmação de quebrar o coração com aquele pequeno toque que eu citei no primeiro parágrafo e ilustra o post. Ele diz tudo com tão pouco que não ficaria surpreso se as performances incríveis da Elisabeth Moss e do Jon Hamm fossem esnobadas pela sutileza, ainda que sublime.
Vale ressaltar que esse foi um dos melhores de toda a série também pelo retorno – e quem sabe despedida – de um dos personagens mais memoráveis da mesma, Duck Phillips, desempregado após o escândalo no Clio em “Waldorf Stories” e ainda mais soterrado no vício. Bom ver que Weiner não decidiu deixar o que aconteceu entre ele e Peggy após a terceira temporada subentendido e foi a fundo com as consequências do caso, das relações profissionais entre os dois e ainda mais importante, das bebidas. Quando ele abaixa as calças para “deixar um presente” pro Don, qualquer humor que isso poderia ter em outra ocasião se esvaiu e foi preenchido por pena. Ali está ele, um brilhante publicitário que destruiu a sua vida, lutando com outro que acabou de começar o mesmo processo autodestrutivo e tenta desesperadamente fugir da mesma perdição com a ajuda de sua ex-secretária.
Outras observações:
– Eu quero as memórias de Roger Sterling pra ontem. Quais outras revelações além da falta de testículos do Bert Cooper esse livro deve conter?
– Interessante o uso do “fantasma” da Anna. Não é um ponto casual no estilo da série, mas acho que no final e em contexto, acabou funcionando e adicionou um novo nível de gravidade nessa fase da vida do Don.
– Mad Men sempre apreciou eventos em seus episódios e essa é uma tendência que anda mais recorrente nessa temporada com, por exemplo, o Clio e a luta Ali vs. Liston. Não que eu esteja reclamando, já que os dois serviram como perfeitos fios condutores, levando a ótimas cenas como a do Roger reclamando pro Don sobre as suas companhias para a noite.














