Quando eu conheci o Dr. House, minha admiração pelo personagem foi instantânea. Não teve como resistir à personalidade intransigente, sagaz, inteligente, ríspida e misantropa do doutor. No entanto, após seis temporadas, aquele House que eu conheci não passa de uma lembrança. E aqui surge a pergunta, mais que sincera, que os fãs costumam fazer: “as mudanças que o personagem sofreu foram realmente boas?” Gostaria de convidá-los a, por meio deste texto, analisar o caminho percorrido até aqui pelo personagem e, quem sabe ao fim, descobrirmos a resposta para tal pergunta.

Leves Spoilers Abaixo:

Não quero enganá-los ou fazê-los perder seu tempo lendo este texto (por mais que eu acredite que não será tempo perdido lê-lo), portanto quero deixar claro logo aqui: o que farei será analisar como a mudança de filosofia de vida do personagem House acabou por nos levar ao estado atual em que nos encontramos na última temporada da série, e que terá seguimento hoje, segunda-feira, 20/09 nos EUA.

Minha admiração por House deu-se, além dos motivos já expressos, porque eu compartilhava da mesma filosofia de vida do personagem. Eu costumava brincar com meus colegas e amigos que o criador da série tinha estudado minha vida e a transformado em um programa de TV. Não, eu não sou médico, nem pretendo (ou pretendia) seguir tal carreira. O ponto de ligação entre o personagem e eu era unicamente a personalidade. E como eu adorei ver minha personalidade na pele de um médico, uma profissão que em geral está vinculada a idéia de altruísmo e bondade.

Gosto de pensar (e dizer) que House quebrou alguns paradigmas, sendo o principal deles algo que o próprio médico expressou da seguinte maneira certa vez:Me importar para que? Pergunte ao paciente se ele prefere um médico que se importa enquanto ele morre ou um médico que o ignora enquanto ele é curado? A visão de mundo que o doutor criticou nesta frase é mais profunda do que percebemos. House não criticou apenas o altruísmo em si; ele demoliu nesta frase o conceito atual de Moral que nossa sociedade adotou.

“E no que consiste este conceito?”, você pode indagar. A moral, que foi adotada em nossa sociedade, afirma que fazer o bem consiste em se sacrificar pelo próximo, por amar o próximo incondicionalmente. Seja pelas vias religiosas, que apregoa que a moralidade é um código de comportamento imposto para agradar a um Deus que não conseguimos compreender; seja pela via dos altruístas, que afirmam ser servir ao bem-estar do próximo – mas não para servir ao seu próprio prazer e a sua própria vida. House, aquele personagem da primeira temporada ao menos, vivia para si mesmo. Ele vivia para satisfazer suas próprias necessidades, sua própria curiosidade, seu intelecto. E ao fazer isso, ele salvava vidas. “Como pode um homem ao agir de forma egoísta produzir um resultado considerado bom?”, poderá se perguntar. Eu lhes respondo questionando: “Quem disse que ser egoísta é ser mal?” Nós fomos levados a aprender que o nosso próprio prazer se encontra na imoralidade, que os nossos próprios interesses residem no mal, e que todo código moral tem que ser voltado para servir sempre aos outros e a felicidade dos outros. Mas quem ousou fazer o seguinte questionamento: “Bom? Para quem?”.

Aquele Dr. House, contudo, não era feliz. Como expressou seu melhor amigo Wilson: “Você não se gosta, mas se admira. É tudo o que você tem então se agarra a isso. Tem tanto medo de que, se mudar, perderá aquilo que o torna especial. Sua infelicidade não te faz melhor que ninguém, House. Só te faz miserável.” Perfeito Wilson! Eu ainda complemento dizendo que o problema do doutor não era ser egoísta, mas achar que ser feliz é ter ausência de dor (física e psicológica). House tentava se esquivar da dor no intuito de atingir a felicidade e este foi seu erro. Não estou afirmando que é preciso sentir dor para ser feliz, longe disso! A questão aqui se trata de que para ser feliz é preciso querer ser feliz, e não tentar ser menos miserável. Conseguem compreender a diferença?

Para sermos felizes temos que aceitar o fato de que nós não somos oniscientes, mas temos que saber que agir como idiotas não vai tornamos oniscientes; aceitemos o fato de que nossas mentes são falíveis, mas admitamos que livrar-se da mente não vai tornarmos infalíveis; aceitemos o fato de que um erro que nós cometemos por iniciativa própria é mais acautelado do que dez verdades recebidas por crença, porque a nossa iniciativa nos dá os meios de corrigi-lo, enquanto a mera concordância aniquila a nossa capacidade de diferenciar a verdade do erro.

Aqueles que criticam o fato de House ter “amolecido”, ou mudado com o avançar da série, não percebem que buscar a felicidade, e é isso que o doutor vem tentando fazer desde a última temporada, é o verdadeiro objetivo de todos nós como seres humanos. O sofrimento não é valoroso ou bom. A batalha do homem contra o sofrimento o é. Ser miserável ou infeliz não é o preço a se pagar por ser inteligente ou diferente, mas apenas a demonstração de que algo está muito errado com o indivíduo. No caso específico, House precisa parar de achar que sua felicidade depende de tratar os outros bem ou aceitar os outros como ele são, porque isso consiste em transformar uma consequência numa causa. Eu posso ser feliz ajudando os outros, mas não é porque eu ajudo que eu serei feliz. Inverter essa relação de causalidade é um erro brutal.

House tentará nesta temporada atingir a felicidade por meio de um relacionamento sério com seu objeto de desejo, Cuddy. A doutora por sua vez tentará lidar com a personalidade do doutor, alcançando um ponto de equilíbrio entre seus sentimentos e seu nível de tolerância. Esse, para mim, será o erro dela. Devemos amar os outros pelas suas virtudes, e não por causa de seus defeitos. Essa história de que o verdadeiro amor está acima, perdoa e permanece sobre os erros é errada. Segundo a filósofa Ayn Rand, “o amor é a manifestação dos valores que se têm, a maior recompensa a que se pode fazer jus através das qualidades morais que se atingiram no caráter e na própria pessoa, o preço emocional pago por um homem pelo prazer que lhe proporcionam as virtudes de outro”. Enquanto Cuddy não conseguir compreender isso, o novo casal estará fadado ao fracasso. Provavelmente, House precisará dizer a ela aquele mesmo discurso que fez a Cameron lá na longínqua primeira temporada. Discurso que pode ser resumido a sua primeira frase: “Você vive a ilusão de que pode consertar tudo que não é perfeito”. Não precisa fazer isso; basta amar o outro pela suas virtudes.

Tendo por inspiração o que House afirmou certa vez, está na hora dele, esse “animal egoísta”, começar a usar o seu cérebro para “aspirar algo que não seja puro mal”; aspirar ser feliz, para variar. E, como a maioria deve estar torcendo, feliz ao lado de Cuddy. Será que eles conseguirão? Só saberemos nesta nova temporada.

O que posso afirmar desde já é: mudanças por si só não são boas ou más; os resultados que elas produzem sim. No caso do Dr. House, estou confiante que ele encontrará a felicidade e a paz que tanto deseja. Só falta apenas ele acreditar nisso também.

Meu Twitter: Adriel_SS

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