
Dramaturgia em seu melhor.
Spoilers Abaixo:
“Hello. My name is Joey Rathburn” (Joey Rathburn).
Luck é uma série em que qualquer fã pode se orgulhar em estufar o peito e dizer: “É sobre pessoas”. O que a torna tão bem-sucedida neste aspecto, enquanto um número absurdo de outras tentaram e conseguiram apenas tentativas de auto-paródia involuntário, é a excelente qualidade de cada um de seus personagens, independente de ser um papel maior ou menor ou dos atores serem renomados ou não.
Por mais que Ace ou Walter, representante dos dois atores mais renomados, sejam personagens excelentes, eles não conseguem até o momento o mérito de ser o que Luck tem de melhor. A identificação imediata do espectador vem com Quatro Amigos (em especial Marcus e Jerry) ou Gus, justamente por serem as figuras ao mesmo tempo de maior carisma e pela facilidade do ser-humano se conectar justamente com histórias de, respectivamente, superação e companheirismo.
A forma como a série se usa do fenômeno de identificação é, por sinal, aquela que ela possui de melhor, não apenas por ele ser usado da melhor forma possível, mas por sua extensão. Percebam como cada personagem surge fragilizado em determinado momento, justamente pelo roteiro saber que Ace Bernstein pode ser um ser vingativo e de sangue-frio? Com certeza, mas ao mesmo tempo é um homem solitário, que perdeu uma parcela considerável de sua vida e tenta recuperá-la, demonstrado pelos seus relacionamentos, seja na amizade com Gus ou paixão por Claire, e alguns pequenos gestos.
Em “Episode Six”, a exploração desse fenômeno vem com o sujeito, que até o momento, poderia ser tido como a mais digna de repulsa no universo em questão: Joey. Pequenos gestos a parte, como a forma apaixonada que olhou para o cavalo de Walter no piloto ou as conversas por telefone no episódio anterior, ele possuía ao mesmo tempo uma impessoalidade natural de sua profissão, mas ao mesmo tempo não era digno da atração magnética por um algoz, como a existente em Escalante.
A solução: Suicídio. Se Joey representava um personagem vazio, isto era o roteiro indicando a própria forma como levava a sua vida, centrada praticamente em seu trabalho e com os poucos relacionamentos humanos que tentou cultivar sendo fracassados. Um peso no espírito que ele não conseguia mais suportar, fazendo com que desistisse de viver. Mesmo sabendo que o personagem provavelmente sairia vivo da situação que foi colocado, é inegável que neste momento a atenção do espectador estivesse concentrado no personagem e simpatizasse com ele.
Eis que surge um terremoto no meio do caminho. Representando o universo agindo e dando o seu sinal, não apenas para Joey, como para cada personagem da série, gerando inclusive uma boa piada envolvendo Looney e Marcus ao contrapor o romantismo do primeiro e o cinismo do segundo. É uma forma de mostrar a importância do universo e os sinais que pode dar, podendo assumir um caráter divino dependendo das convicções pessoais do espectador. No caso do personagem, este sinal vem como uma forma de mostrar que ele não deve cometer o suicídio e ainda possui chances de dar a volta por cima, precisando apenas mudar para isto.
Esse tremor também possui a tarefa de romper com toda a estrutura do episódio. Antes dele, o episódio parecia que iria assumir uma estrutura regular, mas logo em seguida os saltos temporais começam a ser mais frequentes, fazendo com que no final se totalizassem dois dias. A poesia não para por aí, conseguindo contornos ainda maiores: No primeiro dia, os personagens estão mais propensos a se focarem naquilo que eles querem ser, mas no segundo dia parecem ter recuado diante de tudo isto e assumido os seus lugares comuns. Ace volta a bolar a sua vingança, esquecendo-se em parte que ainda pode reconstruir sua vida, até mesmo Walter assume o papel unicamente de treinador em relação a Rose. Mesmo de forma menos óbvia, o universo claramente deixou marcas em cada um deles. O terremoto pode ter sido mais discreto do que uma chuva de sapos, mas tão eficiente quanto dentro do universo diegético da série.
Ainda assim, esses recuos se mostram insuficientes. A reconciliação entre Walter e Rose não tarda a ocorrer, Ace continua a possuir uma união cada vez maior com Claire e ensaiou se abrir com Gus. Esta cena pode ser a que melhor descreve o arco de Bernstein no episódio: Ao o vermos fragilizado e procurando companhia, mas que procura a primeira oportunidade para recuar em relação a isso. É um dilema de um homem que quer mudar para se tornar alguém melhor, possuindo no caminho algum receio se isto deve ou não ocorrer. Esta busca pessoal por felicidade consegue ser um arco muito mais interessante que a própria vingança contra Mike.
Como disse anteriormente, Luck é uma série que busca ao máximo fazer com que o espectador se identifique com os personagens. Esta simpatia independe de o espectador gosta ou não de suas personalidades. É basicamente conseguir mostrá-los frágeis, fazendo com que a identificação venha por uma simpatia em relação à situação que as pessoas da série enfrentam. É ao saber usar esta característica psicológica inerente ao ser-humano que a série se destaca em detrimento de muitas outras. Apesar de toda a nossa ilusão de racionalidade e superioridade, somos no fundo tão previsíveis como qualquer outro primata.
Outras considerações:
-Roteiro original escrito por Robin Schuchan.
-A direção da cena em que Joey tenta se suicidar e falha é soberba. A câmera lenta consegue fugir do seu lugar comum, ser utilizado em cenas de ação para dar emoção ao que está acontecendo, e gera um senso de agonia em quem está assistindo, bom trabalho de direção de Henry Brochtein.
-A título de curiosidade: Henry Bronchtein normalmente possui o papel de designer de produção, até mesmo em Luck essa é sua função primordial, já dirigiu episódios de NYPD Blues e… The Sopranos. Compreendido o porquê de ele assumir bem uma função que não tem expertise.
-Ainda sobre o fenômeno de identificação: Os realities show americanos, principalmente, gastam um tempo muito grande do programa ao mostrar as histórias de superação dos concorrentes. Uma tentativa óbvia de ser amparar nesse fenômeno. Por mais que isto faça com que alguns espectadores se irritem, é inegável que atinja muito bem o espectador médio americano, dado o sucesso desse formato.
-Continuando o raciocínio anterior: Dizem que os realities ingleses são bem mais sóbrios, não é mesmo? Eu em parte concordo, mas mesmo assim a dramaturgia da identificação está presente. Vocês acham que os responsáveis por Britain’s Got Talent não sabiam do potencial de Suzan Boyle ao terem feito brincadeiras com ela antes de sua volta por cima na primeira vez que cantou?
-Exemplo sobre como alguns roteiristas não entendem o básico do fenômeno de identificação: Eu acho o Sargento Batista um cara muito bacana, com certeza chamaria ele para tomar uma caso o visse na rua, mas os arcos que o colocam a pelo menos umas três temporadas são no mínimo medíocres. Assim fica difícil simpatizar com ele dentro da série.
-Você nunca viu Magnolia? É a tarefa de casa para ontem!
-Pensamento que acabou de surgir: existem algumas semelhanças entre David Milch e Paul Thomas Anderson, preciso pensar melhor sobre o assunto.



















