
Quando a forma e o conteúdo se unem.
Spoilers Abaixo:
“Whoever made him didn’t make him whole” (Marcus)
Usando as metáforas em relação ao dia, tão típicas da série, Luck resolve utilizar todo o desenvolvimento feito no primeiro terço da temporada para culminar em um episódio sobre o alvorecer. “Episode Four” é sobre o nascimento de uma lenda: o cavalo Gettin’ Up e sua jóquei Rose.
Não é à toa que o grande momento de emoção da série ocorra justamente na corrida onde este evento principal ocorre: O veterano Phillip Noyce e a mão quase invisível de Michael Mann sabiam que este seria o momento onde, com perdão do trocadilho, todas as fichas da série estavam colocados. Caso ela não fosse elaborada de forma a tornar verossímil ao espectador sentir tudo o que está sendo passado, caso contrário se tornaria muito mais difícil comprar a premissa deste episódio-chave.
A sequência em questão consegue explorar o melhor de todo o aspecto visual da série, usando de diversos ângulos entre os cavalos e a reação da plateia para que possa ser compreendido melhor o todo da corrida. A diferença reside no simples fato: Se antes as corridas foram rodadas em quadros grandes, para que o jóquei principal fosse representado como uma pequena fatia do todo, este aspecto muda durante o episódio por considerar a ascensão de Gettin’ Up um momento tão crucial a ponto de torná-lo junto com Rose os protagonistas da corrida.
A trilha sonora, composta pelo experiente Jeff Beal, de Rome e Carnivàle, consegue o equilíbrio necessário para funcionar organicamente, optando por utilizar sons tipicamente de tambores enquanto existe uma briga pelo pódio, substituindo-a imediatamente por um violino contemplativo ao ser estabelecido qual é o cavalo campeão. Contemplação que traduz bem o que o sentimento que a cena decide passar, com uma leveza suficiente para que esse sentimento não seja sentido coo uma força abrupta da série para conseguir um foco emocional.
A música de nada adiantaria se não fosse combinada com a belíssima montagem proposta por… Intercalando o foco em Rose com imagens de Leon correndo para perder peso e Jenkins cabisbaixo, mostrando de forma nada discreta que, apesar de estar em um momento de felicidade, o espectador não deve se deixar levar pelo encanto do momento, já que árduos desafios ainda permeiam a árdua vida de um jóquei. Conseguindo fazer uma transição eficiente entre a reação dos presentes e as ações simultâneas dos não presentes, estabelecendo uma eficiente junção entre dois planos aparentemente desconexos.
Todos esses méritos técnicos mostram o cuidado para que a cena fosse efetuada, mas o que realmente importa ao espectador é o produto final que recebe: As emoções que a sequência consegue gerar. O senso de união de tudo o que é apresentado, tão notável nos trabalhos de David Milch, se manifesta ao conseguir mostrar como cada um dos personagens, tanto presentes como ausentes, conseguem fazer uma parte do todo que representa não apenas a série Luck, mas o universo das corridas de cavalo.
A válvula de escape óbvia a princípio é Walter. Após três episódios onde ele remetia a um estereotipado velho saudosista, o qual se destacava pelos brilhantes monólogos e a interpretação inspirada de Nick Nolte, o contraste com o homem presente na ocasião é o que gera a identificação mais óbvia. É como se esta vitória representasse uma chance de renascimento para o personagem, uma volta à juventude simbolizada pelo aparecimento deste durante uma parcela considerável do período diurno, representando as chances que o novo dia possibilita, algo raro por este ser um personagem notoriamente conhecido por surgir durante a melancolia noturna. Entretanto, essa nova esperança não consegue ser mais do que uma alegria esporádica mudar a essência de sua vida, indicado por pouco depois o vermos solitário e em um dos conhecidos monólogos diante de Gettin’ Up. É como se existissem dois Walters: O do dia, onde tenta sentir resquícios da juventude ao tentar emplacar sua discípula, e o noturno onde percebe o caráter crítico de seu ciclo de vida.
Um personagem tão sobrecarregado requer um ator à sua altura, tornando o gigante Nick Nolte como um intérprete ideal. Os conflitos de alegria e tristeza conseguem ser traduzidos pela combinação de expressão facial, corpórea e timbre vocal acertados do veterano dependendo do momento em que o personagem esteja. O grande momento do episódio se dá justamente na transição entre os dois momentos de Walter, ao mostrá-lo descendo uma escada, saindo simbolicamente da luz do estádio e entrando na escuridão do subsolo, onde a expressão de Nolte consegue oscilar em termos de segundos com delicadeza entre cada um dos extremos.
O outro ponto de identificação imediato é com os Quatro Amigos, representativos do coração da série. A direção opta por focá-los em grandes enquadramentos, de forma que os três presentes possam ser mostrados sempre juntos em cena, mostrando a clara importância da união deste grupo. Sozinhos, eles são apenas partes incompletas de um todo, precisando do apoio uns dos outros para terem sucesso neste mundo onde a inteligência dos jogadores importa mais do que a superestimada sorte. Mesmo assim, neste momento crucial eles se encontram incompletos, faltando uma peça chave para a equipe.
É com estes contornos que ganha força a trama de resgate a Jerry. Não é apenas de três pessoas procurando um amigo, mas de um organismo individual buscando encontrar uma parte perdida de si mesmo. Por estes motivos, a ingenuidade de Renzo ao querer dividir o montante do dinheiro total novamente para cobrir as perdas do amigo soa com uma doce ingenuidade, mas que deve ser evitada por afetar toda a comunidade. É um conceito básico de teoria dos jogos: A medida que os membros percebam que podem tomar riscos individuais e dividirem perdas, haverá um padrão de incentivo a atitudes irresponsáveis, algo que deve ser coibido por Marcus para que vícios privados não gerem prejuízos públicos no bem-estar do grupo.
O acontecimento central ocorre em um estádio vazio. Um evento que a um século atrás poderia se assemelhar ao surgimento de um grande jogador de futebol é relegado aos ostracismo devido ao próprio desaquecimento do ciclo de negócios do turfe americano. Para simbolizar isto, nem mesmo um dos homens outrora mais apaixonados pelo esporte, Ace Bernstein, testemunhou o ocorrido, por sua obsessão pela vingança o tornar alienado a tudo o que acontece. Para ele, este virou apenas um meio para efetuar sua tão almejada vingança, por mais carinho que ele ainda sinta ao relembrar dos tempos áureos do esporte que amou.
Por outro lado, finalmente o plano de Bernstein está ganhando forma, a ponto de ser mostrado o tão esperado encontro entre Chester e seu desafeto Mike (Michael Gambon). Em poucos minutos juntos, conseguiu ser mostrado o modo como se dará o duelo entre ambos, de forma sempre discreta e dotada de hipocrisia. De um lado o falso companheirismo típico de Mike, que cai como uma luva à forma mais intensa que Gambon costuma atuar, com a aparente calma e rancor guardados de Ace, na atuação minimalista de Dustin Hoffman. Percebam o desvio de olhar de Ace em certo momento da conversa, quase involuntário para tentar não se entregar quanto ao rancor que sentia do colega.
No final, a já mencionada aurora de novas oportunidades ocorre apenas para ser dissipada poucos segundos depois pela cruel realidade: Apesar das esperanças, o turfe é um ambiente cada vez menos recompensador e mais desgastado, cabendo a cada uma de suas principais peças saber como o utilizar a seu favor. Com certeza não será fácil, mas dependerá de cada um utilizar as chances que terão ao seu favor.
Outras considerações:
-O roteiro inicialmente foi escrito por Jay Hovden, escrito de Daily Race Form, um tabloide exclusivo para corridas de cavalos.
-Na minha review fiz aparentar que a cena do clímax foi apenas uma das melhores cenas da série. Estava sendo eufêmico, esta é uma das melhores cenas que eu já vi na televisão. Simple assim.
-Comentei anteriormente sobre o uso do verde para simbolizar a esperança do mundo das corridas, pois é notável que Rose esteja usando justamente esta cor em sua primeira corrida, mostrando maturidade da série em resgatar alguns simbolismos ao seu favor.
-Rose e Leon como um casal foi uma subtrama que beira a obviedade ao querer misturar a concorrência com atração sexual, mas dependerá de como for utilizada. Não existe nenhum clichê que se bem explorado não seja bom e os nomes envolvidos aqui mostraram que têm competência para escrever algo bom.
-Joan Allen vai ser o par romântico de Dustin Hoffman? Tudo é bom no mundo!
-Michael Gambon entrou em Harry Potter em O Prisioneiro de Azkaban. O filme mais ambicioso da série e que conseguiu dar os primeiros ares daquilo que a narrativa iria se torna subsequentemente. É engraçado, portanto, que ele surja em Luck justamente nesse episódio, o qual aparenta ser um definidor de rumos para a série.
-O Giancarlo Esposito bem que poderia entrar na série para fazer trio com os olhos penetrantes de Hoffman e Nolte.
-Uma curiosidade interessante: Sempre considerei turfe elitista e sem graça, não tendo a mínima vontade de conhecê-lo minimamente. Outro dia me peguei assistindo um programa sobre o esporte. Mostrando que, mesmo se tudo o mais falhar daqui para frente, Luck em quatro episódios conseguiu uma de suas funções básicas: Despertar interesse no espectador sobre o ambiente em questão.



















