“As histórias são como as pessoas. Amá-las não significa que sejam perfeitas. Você apenas tenta valorizá-las, ignorando as suas falhas.”
Lovecraft Country, série da HBO, baseada na obra homônima de Matt Ruff, tem como showrunner Misha Green e inclui no seu grupo de produtores nomes como Jordan Peele e J.J. Abrams. A série estreante nos apresenta a história de Atticus (Jonathan Majors), jovem negro, de 22 anos, veterano da Guerra da Coreia e fã das obras do escritor H. P. Lovecraft, em busca de Montrose (Michael Kenneth Williams), seu pai desaparecido. Atticus e Montrose não conservavam uma boa relação e o jovem até jurou que não mais retornaria a casa paterna, porém, diante do desaparecimento misterioso do pai, ele, não só voltou a sua cidade natal, como elaborou um mirabolante plano de resgate que incluía seu tio George (Courtney B. Vance) e sua amiga de infância Letitia (Jurnee Smollett) cruzando o país por um território inóspito, cheio de perigos sobrenaturais, que nem de longe se comparam com os horrores de uma viagem pela América sulista racista dos anos cinquenta regida pelas Leis de Jim Crow.

Em seus primeiros minutos Lovecraft Country mostra didaticamente qual vai ser o tom abordado na sua trama ao longo dos seus dez episódios ao nos apresentar uma cena onírica mesclando ficção cientifica e crítica social na sua metáfora de herói personificado na imagem de Jackie Robinson, primeiro jogador negro da Major League Baseball na era moderna, em seu uniforme do Brooklyn Dodgers empunhando um taco de beisebol como única arma contra insondáveis e perigosos monstros. A série deixa claro que vai abordar a questão do racismo de forma escancarada e incomoda, mas ao mesmo tempo impõe a narrativa do revide como forma de desconstrução do racismo endêmico tão propalado nos Estados Unidos dos anos cinquenta e, infelizmente, ainda na sociedade atual. Isso está tão claro dentro dessa narrativa que logo em seguida somos jogados de cara na realidade de Atticus, que viaja em uma estrada regida pelas leis de Jim Crow e em um ônibus compartimentado e segregado.
Com a chegada de Atticus na casa paterna, somos apresentados ao seu tio George, a Hippolyta (interpretada pela maravilhosa atriz Aunjanue Ellis) e a Diana (Jada Harris), esposa e filha de George, respectivamente. A família é muito unida, alegre e acolhedora, mostrando um lado leve e realista, onde não há um traço sequer de revolta entre eles, apesar de tantas atrocidades e injustiças sociais no seu entorno. O que se segue é a formação do trio que vai empreender a viagem de resgate de Montrose, um dos principais motes de Lovecraft. É nesse ponto que passamos a conhecer a irreverente Letitia, companheira de viagem de Atticus e George e, provavelmente, principal articuladora das fugas mirabolantes desses viajantes. Letitia faz tudo!!! Ela canta, ela corre, ela é astuta, é debochada e, evidentemente, muito à frente do seu tempo. O início da viagem é pacífico e mostra uma boa sintonia entre esses três personagens, mas em pouco tempo a jornada se torna assustadora e toma contornos de um frenético thriller de ação e terror no melhor estilo. As sequências são de revirar o estômago, nos causando medo e revolta ao mesmo tempo. Quer seja quando os viajantes são confrontados por racistas em uma lanchonete ou quando são perseguidos por um xerife também racista na cidade do pôr do sol, sentimos medo pelo destino deles. Mais adiante quando eles são emboscados na floresta por uma guarnição policial que desconhece o termo respeito, inevitavelmente nos colocarmos no lugar dos personagens. Essas são cenas que nos fazem ter sentimentos contraditórios sobre os abusos cometidos por autoridades policiais, que, em tese, deveriam servir e proteger, não ameaçar, humilhar e constranger o cidadão se valendo de uma lei equivocada. Não entrarei em detalhes sobre esses acontecimentos para não estragar a experiência de quem ainda não assistiu esse piloto, mas antes de prosseguir com essa análise, precisamos entender um pouco mais sobre os Black Codes, a 13ª Emenda e sobre as leis de Jim Crow, para contextualizar as situações apresentadas em cena e para valorar os sentimentos de Atticus e dos seus amigos diante de tanta injustiça e desrespeito.

Nos primeiros dois anos após a Guerra Civil, as legislaturas sulistas dominadas por brancos aprovaram os Black Codes (códigos pretos), modelados a partir dos códigos escravistas que pretendiam restringir e controlar os negros livres. Esses códigos tinham restrições que incluíam proibições de votar, frequentar escolas, portar armas, reunir-se em grupos para adoração, aprender a ler e escrever, ter direitos políticos iguais aos brancos e comprar casas em determinados bairros. Os Black Codes eram a exaltação e a validação do sistema de supremacia branca que continuava a dominar o sul dos Estados Unidos, impondo a separação entre negros e brancos em restaurantes, parques, bebedouros, escolas, ônibus e diversos outros locais públicos, impulsionando a ascensão da Ku Klux Klan e toda a sua barbárie junto a essa comunidade. Existia também a Lei da Vadiagem, exclusivamente aplicada aos negros, onde pessoas pretas libertas eram presas por infrações menores e sentenciadas a trabalhos involuntários, que em outras palavras era uma espécie de concessão de condenados para terceiros, para o estado e para particulares para trabalhos forçados, uma forma de escravidão, só que com outro nome. Em linhas gerais as esdruxulas leis de Jim Crow, promulgadas no final do século 19, propunham, através de suas legislaturas estaduais dominadas pelos Democratas, após o período da Reconstrução, uma forma legal de colocar cada indivíduo negro em estado de servidão e de segregação em relação à população branca dos Estados Unidos da América. Já a Décima Terceira Emenda à Constituição dos Estados Unidos, a primeira das emendas do período da Reconstrução, diz que não deve haver, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado. Para os ativistas, isso não passa de uma forma de validação do processo de encarceramento em massa das pessoas pretas para manutenção do trabalho servil, mesmo após a abolição. Por isso, a cena em que Atticus, de dentro do ônibus, mostra o dedo do meio para a estrada ao sair do território sulista americano é muito emblemática. A cena condensa toda a raiva que o personagem sente pela Jim Crow América, lei que, entre outras coisas já explicitadas nesse texto, validava em alguns estados sulistas um “dever legal” das pessoas brancas assediarem, constrangerem e até enforcarem pessoas negras que fossem encontrados na estrada após o pôr do sol. Não é por acaso que essa première se chama Sundown. Somente após a Segunda Guerra Mundial as questões relacionadas aos direitos civis das populações afro-americanas começaram a tomar voz e em 1968 foi promulgada uma das últimas Leis dos Direitos Civis, que proibia definitivamente a discriminação racial em temas relacionados ao aluguel e venda de casas. É surreal demais imaginar que em algum momento da história existia um código de conduta e leis específicos para pessoas negras poderem trafegar entre os cidadãos comuns.

Li Lovecraft Country, de Matt Ruff, recentemente, o livro é bastante envolvente do início ao fim, apresenta uma escrita afiada ao longo das suas oito histórias, que se entrelaçam em algum momento entre os horrores sobrenaturais descritos e a miserabilidade de um mundo socialmente construído em cima de paradigmas racistas e de segregação. Para entender a escrita de Matt Ruff, é preciso compreender um pouco mais sobre o próprio H. P. Lovecraft (1890 – 1937), considerado um dos mais aclamados escritores de terror, que revolucionou o gênero, atribuindo-lhe elementos fantásticos típicos dos gêneros de fantasia e ficção científica, cuja a obra e o estilo serviram de inspiração para Lovecraft Country. H. P. Lovecraft, considerado o pai do “Horror Cósmico”, agrupou seu ciclo de histórias nos Mitos de Cthulhu e no grimório fictício conhecido como Necronomicon. Apesar do brilhantismo extravagante dentro do gênero de terror, Lovecraft teve um número modesto de leitores, sendo mais reconhecido postumamente. A obra completa de Lovecraft é claramente racista e profundamente xenófoba. Embora apresente o auge da destreza dentro desse gênero e a plenitude do terror clássico, ao ler a obra de Lovecraft, é preciso fazer um exercício hercúleo para separar a importância literária e o pensamento absurdo do autor, pois o conteúdo em si é potencialmente ofensivo e muitas vezes perturbador. É nesse território de fantasmas, monstros, seitas, viagens interplanetárias, ocultismo e fantasia que Matt Ruff buscou motivação para fazer a sua história, dando um visual realista e inquiridor ao racismo dos anos cinquenta e, de quebra, tecendo uma dura crítica ao universo que o inspirou, sem contudo cancelar ou invalidar o legado de H. P. Lovecraft. Claramente Lovecraft Country, apesar de inspirada nas obras de H. P., tem sua própria gênese e a sua própria mitologia, por isso, dialoga analogamente com o material de origem, mas contrasta e se distancia ao dar protagonismo a personagens negros vivendo as problemáticas sociais oriundas da época e do contexto em que estão inseridos, através da perspectiva de um espaço de predominância não negra, que é a ficção científica.
Lovecraft Country parece falar de um tema simples, mas a sua abordagem detalhista e emocional sobre um rapaz negro, no auge da segregação racial nos Estados Unidos, pretendendo atravessar o país enfrentando o preconceito, as sociedades secretas supremacistas e até os monstros sobrenaturais para resgatar o seu pai é muito exploratória, intensa e bem construída. Essa é uma história que parte de um contexto real e expõe muito claramente o racismo estrutural nos Estados Unidos. Com metáforas, analogias, licenças poéticas e um retrato fiel da realidade americana dos anos cinquenta, Lovecraft Country nos conduz delirantemente, entre fantasia, horror e um pouco de ficção científica, aos conflitos internos de Atticus, do seu tio George e da sua amiga Letitia, mostrando que piores que monstros, fantasmas e entidades maléficas, são a opressão, o terror e o medo causados pelo racismo.
Em resumo, Lovecraft Country apresentou nesse piloto uma trilha sonora impecável, com clássicos que fazem jus à época; a ambientação, além de muito realista, remonta as paisagens e cenas sociais do jeito americano dos anos cinquenta. Um outro ponto interessante é o quão facilmente nos apegamos ao trio de protagonistas: Jurnee Smollett, com a sua atuação vibrante, se destaca e agrega um valor indescritível em todas as suas cenas; Courtney B. Vance, confere um tom maduro, calmo e realista na sua versão do Tio George e o Atticus de Jonathan Majors, ainda é um mistério, já que sempre parece estar no limite e se contendo para não apresentar uma reação desproporcional, no entanto, o personagem é tão envolvente quanto os demais. Embora esse episódio inaugural apresente muita informação e um excesso de diálogos em alguns momentos, não há uma perda de ritmo ou uma quebra na narrativa, e mesmo as desconstruções temporais ou inserções de metáforas são intencionais e interessantes de se acompanhar, por isso não nos damos conta de que estamos vendo um episódio com uma longa duração. O que se espera é que não pesem a mão nos episódios seguintes, que mantenham o suspense e o ritmo acelerado e que nos entreguem episódios tão bons quanto esse piloto.
Vale muito a pena dar uma chance a Lovecraft Country, quer seja pela diversão, pelo suspense, pela singela homenagem aos gêneros populares de entretenimento – pulp fiction, quadrinhos, terror trash e filmes pipoca -, ou pela crítica social em uma narrativa fantástica cheia de metáforas sociais sobre o racismo nos Estados Unidos nos anos cinquenta.
Curiosidades:
Lovecraft Country é uma frase usada para descrever a versão fictícia da Nova Inglaterra criada pelo autor H. P. Lovecraft em seus contos. Embora Devon seja uma analogia da real Devens County, Ardham e Devon em Lovecraft Country foram inventados pelo autor Matt Ruff para o seu mundo fictício.
Para quem não reconheceu a atriz que faz a Princesa de Marte por causa da tinta vermelha, é a Jamie Chung, a Blink da série The Gifted.
A revista de George e Hippolyta, The Safe Negro Travel Guide, é uma espécie de referência ao Green Book, que era um guia para viajantes negros com recomendações de locais onde eles seriam bem recebidos e não sofreriam ameaças, tipo postos de gasolina, restaurantes e hotéis seguros e hospitaleiros. Esse guia foi responsável por salvar a vida de milhares de viajantes negros ao lhes indicar os locais seguros. É muito bizarra a constatação de que em um momento da história americana os negros precisavam de um guia de viagem para não serem mortos.
O livro que Atticus lê no ônibus chama-se Uma Princesa de Marte, um importante romance de ficção cientifica escrito por Edgar Rice Burroughs, em 1912. O livro conta a história de um ex-soldado Confederado que acaba sendo transportado para Marte. O Exército Confederado da América esteve a serviço dos Estados Confederados da América, aliança formada em 1861, que unia sete estados do sul dos Estados Unidos (Carolina do Sul, Alabama, Mississippi, Geórgia, Flórida, Texas e Louisiana), todos eles agrários e escravistas. Por isso Atticus foi criticado por ler um livro com um protagonista Confederado, que exaltava e defendia a escravidão. Vale lembrar que a Ku Klux Klan adotou a bandeira confederada e para muitos ela simboliza a divisão do país e o ódio racial.
Atticus procura informações sobre seu pai em um bar chamado Denmark Vesey’s. Vesey era um homem negro livre executado em 1822 por planejar uma rebelião de escravos. O que nos lembra da história real de Solomon Northup (retratado no filme em 12 Anos de Escravidão), um homem negro livre, capturado e forçado ao serviço escravo. Prática muito comum em determinado período da história americana.
Antes do seu encontro com o xerife racista, Atticus conta a Letitia sobre os shoggoth, monstros criados por Lovecraft em sua obra. Apesar de não encontrarem nenhum shoggoth durante a viagem (suponho que encontraram os ghasts) eles acabam encontrando dois tipos distintos de monstros: os policiais racistas e os monstros sobrenaturais que habitam a floresta.
Ruby, irmã de Letitia, muito bem interpretada pela atriz Wunmi Mosaku, canta I Want A Tall Skinny Papa, que originalmente era uma canção de Sister Rosetta Tharpe, cantora e compositora gospel que misturava o sagrado com o blues e o country. Embora tenha sido considerada a madrinha do Rock and Roll, Rosetta nunca teve seu nome devidamente reconhecido pelos seus feitos dentro desse gênero musical.
Perfeita a aula de história que Atticus dá ao explicar o motivo pelo qual a Casa Branca é dessa cor.














