Sou quem sou, pelo que nós somos. É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. – Provérbio Africano.

Esse é o meu texto final nesta cobertura da temporada de Lovecraft Country – por enquanto -, quero começá-lo pedindo licença e quebrando a quarta parede, se é que isso é possível em um texto crítico, mas também se não for possível quebrar a tal quarta parede enquanto escrevo essa resenha, aproveito o espaço introdutório para apenas dialogar com todxs vocês em primeira pessoa sobre a minha experiência catártica com essa série.  Recentemente fiz um texto sobre a série I May Destroy You, postado aqui mesmo no SM, onde eu falava de coração para coração com cada pessoa que o lia, naquela ocasião eu tinha a certeza de que determinadas experiências traumáticas transcendem os aspectos étnicos, filosóficos, sociais, religiosos e de gênero, porque são experiências que podem acontecer com qualquer pessoa. Mas ao mergulhar profundamente na trama de Lovecraft Country, primeiro através do livro de Matt Ruff, posteriormente na sua espetacular transposição televisiva pelas mãos de Misha Green, pude perceber mais claramente que existem traumas que são geracionais, por isso, há uma parcela da sociedade que viverá uma vida inteira (desculpe a redundância) e nunca perceberá que eles, os traumas geracionais, existem. Mas esse alheamento conveniente não exime essa parcela da sociedade de se responsabilizar pela tentativa de tornar o mundo um lugar melhor e mais equânime para honrar a luta daqueles que já partiram, para enaltecer a luta daqueles que aqui estão e para preparar os caminhos das futuras gerações, afinal, é preciso uma aldeia inteira (passado, presente e futuro) para educar uma criança.

Por falar em futuro, um dia, lá no futuro, eu tenho certeza que iremos nos dar conta que, tal qual Watchmen, a série Lovecraft Country, com toda a sua imperfeita perfeição, foi um divisor de águas no tocante a recolocação histórica sobre o ódio racial americano, que destruiu coisas belas, e na propagação de uma reflexão mais profunda sobre o racismo e o preconceito que, infelizmente, ainda infectam as diversas nações pelo mundo a fora. Apesar das lágrimas derramadas ao longo da jornada, apesar da enorme dificuldade de conter o nó na garganta enquanto refletia antes de escrever cada um desses textos, eu, uma mulher preta, que sabe o que é o racismo, me sinto feliz por ter feito parte da geração que viveu para ver essa série existir. Por isso, sou grata aos meus ancestrais que abriram caminhos com seus próprios corpos para que eu tivesse a oportunidade de hoje escrever essas linhas sobre essa incrível série.

Começamos o episódio com Tic e companhia fazendo o ritual para salvar Dee. Como era de se esperar, algo estranho acontece, Tic e Leti desmaiam e vão parar em outra dimensão, o Plano Ancestral, um lugar seguro criado por Hannah (Joaquina Kalukango) através de seu desejo de proteger a sua linhagem e por causa do seu ódio por Titus Braithwhite (Michael Rose). Tic se depara com a própria Hannah, que lhe diz que a resposta está no seu sangue. Ela lhe conta a história de como protegeu o seu filho para que os brancos da Ordem não tirassem proveito dele e como ela decodificou a magia contida no Livro dos Nomes. Enquanto isso, Leti, em outra parte Plano Ancestral, se encontra com Hattie (Regina Taylor) que lhe diz que o sangue da criança que ela carrega na barriga a levou até aquele local e que ela precisa ser forte para fazer o que precisa ser feito para garantir a futuro. Em seguida, Tic se encontra com Dora (Erica Tazel), a sua mãe, nesse momento o rapaz se permite ser vulnerável e lhe confessa que não gostaria de morrer. Dora lhe conforta e lhe diz que ele tem o coração valente de Montrose e a integridade de George. Leti e Tic se encontram e, juntamente com Dora, Hattie e Hannah, começam o feitiço que posteriormente salvaria Dee. Esse certamente foi um dos momentos mais impactantes na trajetória de Tic nessa série, foi emocionante vê-lo envolvido pelas matriarcas de sua linhagem – Hannah, Hattie, sua mãe, e Leti, a mãe de seu filho nas nascido, mostrando claramente que cada uma dessas mulheres, a sua aldeia,  carrega a promessa de um futuro melhor, de sobrevivência de um legado, apesar da sua morte inevitável.

Após o salvamento de garota, uma nova frente se une no intuito de criar um feitiço de selamento para impedir Christina de conseguir a imortalidade e de praticar magia. Respondendo uma das minhas perguntas formuladas no texto anterior, tomamos conhecimento que o Shoggoth preto está convenientemente aprisionado na câmara escura do porão da casa de Leti, o que faz muito sentido, já que a casa conserva a magia Winthrop, mas isso não explica como todo o caos do confronto com a polícia foi apagado e a casa de Leti e a vizinhança já estão em ordem. Após usarem o elevador dimensional, Leti e Tic, convocam o desprezível Titus, que entre outras coisas, serviu de fofoqueiro para contar a Christina que Tic e seus amigos possuíam o livro magico. Gostei muito do ritual do sacrifício justo, onde um pedaço de Titus foi extraído, usando a comunhão dos ancestrais para materializá-lo, mas ainda faltando um pedaço de Christina para que o feitiço se concretizasse, tinha certeza que Leti apelaria pela ajuda de Ruby mais tarde.

Enquanto toda essa situação se desenrola, Dee e Hippolyta conversam sobre o fato de a menina ter sido abandonada pela mãe. A explicação de Hippolyta é até pertinente, levando em consideração que no final, de todas as coisas, ela escolheu ser a mãe de Dee, mas devemos lembrar que Diana é muito jovem, por isso, a sensação de abandono e a perseguição sobrenatural que ela experimentou deixaram marcas profundas em seu emocional. Em um outro momento, Hippolyta presenteia Dee com um exemplar da revista Orinthya Blue feita por ela, algo que ela aprendeu no futuro, durante a sua viagem dimensional, com a sua amiga Afua. O curioso dessa citação é que Afua Richardson é a ilustradora dos quadrinhos usados por Dee em Lovecraft. Hippolyta, penalizada pela reclamação da filha sobre o braço necrosado, a leva para a sala e lhe mostra algo que não chegamos a ver, mas concluo que era a tecnologia necessária para ela confeccionar o seu braço mecânico. Logo, tenho certeza que o braço robótico que entregou a edição do livro de Lovrecraft Country para Tic foi de uma versão futura de Dee. Ou seja, tudo é cíclico, desde a revista que Hippolyta trouxe do futuro para ensinar a Dee como desenhar com seu novo braço, até a própria menina sendo a pessoa que vai ajudar o primo a compreender o futuro com mais clareza através de um livro escrito por seu filho por nascer. Sabia previamente que Hippolyta teria um certo destaque na trama, mas não imaginei que seria algo tão forte, impactante e profundo quanto o apresentado em Lovecraft. Aunjanue Ellis é maravilhosa e merece ser exaltada e enaltecida pela sua entrega ao construir Hippolyta, a Descobridora, uma mulher inesquecível e única. Da mesma forma que prevejo um futuro promissor para a jovem atriz Jada Harris.

Tic, Montrose e Leti se reúnem para tentar criar alguma estratégia para conseguir um pedaço de alguma parte do corpo de Christina, no entanto, todos eles reconhecem que não possuem a devida proximidade necessária para alcançar essa finalidade. Letitia sugere o nome de Ruby como solução, Montrose recusa, mas Hippolyta se junta ao grupo e fica claro que Ruby é a melhor opção. Enquanto eles deliberam, Christina surge e revela que sabe que o grupo está em posse do Livro dos Nomes, a feiticeira propõe um acordo, Tic recusa e ela momentaneamente retira o feitiço de invulnerabilidade de leti, como forma de retaliação. Mais adiante temos uma cena que eu estava esperando muito, que é o ressurgimento de Ji-Ah e o pedido de desculpas de Atticus. O problema dessa cena é que verdadeiramente e egoisticamente Tic se encontra com a moça principalmente para recrutá-la para a sua missão, assim, o pedido de desculpa fica meio que nublado e eu continuo com a sensação de que Ji-Ah, que teve um lindo episódio de origem, foi muito subutilizada na trama. Mesmo se formos olhar pelo lado mais metafisico da cosia, de que Tic precisava conhecer Ji-Ah para que em algum momento a moça decidisse se ela queria ser um monstro ou uma heroína; para que a enfermeira quebrasse o ciclo de estigmatização e violência perpetuado pelo seu pai, que violentou repetidas vezes o seu corpo infantil, e por sua mãe, que a usou como um objeto monstruoso de vingança, ainda assim ela surge como um elemento Deus Ex Machina na trama e isso é muito incomodo, no meu ponto de vista. O único lado positivo é que ela decidiu recuperar o poder ao perceber que podia fazer uma escolha. Por falar em escolhas, acredito que a conversa de Ruby e Leti no cemitério foi a mais emocionante e verdadeira que ambas já tiveram. Ruby não estava errada ao dizer a Leti que ela confundia o conceito de família e só a procurava quando precisava de alguma coisa, mas Leti também não estava errada ao confidenciar o plano para a irmã evocando o conceito de família. Se formos olhar atentamente, vamos perceber que tanto Leti quanto Tic usaram a mesma estratégia egoísta de procurar pessoas que poderiam ser úteis para a efetivação do plano usando o argumento da família. Contudo, não devemos esquecer que todos os personagens dessa história foram construídos em torno da dualidade, assim, não há luz sem as sombras e, invariavelmente, em algum momento todos eles já tomaram decisões questionáveis ou fundamentadas em puro egoísmo.

Mas tarde Christina conta para Ruby o seu plano para executar o feitiço, na ocasião ela revela como fez para se transformar em William. Finalmente temos o primeiro beijo entre essas duas mulheres, que em um outro contexto poderia ter sido um belo romance, mas estamos falando de Christina Braithwhite, a personagem mais individualista dessa série. Por um momento eu até pensei que ela daria vazão ao sentimento nascente e a única variável não calculada da sua equação, Ruby. Mas novamente estamos falando de Christina Braithwhite, a individualista. Ruby é uma das minhas personagens preferidas em Lovecraft. Talvez Ruby me empolgue tanto por causa das suas múltiplas camadas, por causa da sua raiva e da sua dor. Wunmi Mosaku retratou belissimamente em cena, de uma forma nunca vista antes, as angustias da mulher preta retinta, se descobrindo bissexual, plus size e fetichizada pelo olhar do homem branco, que muitas vezes hipersexualiza as mulheres pretas. Dificilmente veremos em uma série uma personagem feminina e preta com todos esses adjetivos quebrando tantos paradigmas socialmente construídos. Sentirei saudades de Ruby, mas compreendo que ela selou o seu destino ao se associar a Christina.

A descoberta de Leti sobre a fé oculta dentro dela era a resposta que precisávamos para que a nossa heroína fechasse o ciclo aberto após o seu episódio de ressuscitação e de contato com o mundo sobrenatural. Isso a deixou leve para seguir viagem com Atticus, Montrose, Ji-Ah, Hippolyta, Dee e Ruby. E que cena bonita dentro do carro com toda a estranha “família” cantando Life Could Be Dream (Sh-Boom), do The Coasters. Que raiva eu senti depois quando percebi que durante a animada viagem em família tinha uma impostora se passando por Ruby. Ali era o início de um sonho e eu até já sabia que algo daria errado. Ao chegar em Ardham, a turma se dividiu para executar as partes do plano elaborado. Na Mansão Braithwhite, Atticus, recepcionado pelo grupo Amish de Ardham, foi preso ao relógio solar para aguardar a hora da bruxa para a efetivação do ritual. Montrose fez uma proteção com sal na ponte; Dee ficou no carro, só para ser atacada por um monstro na floresta e ser salva inexplicavelmente pelo Shoggoth preto, que também inexplicavelmente não foi salvar Tic na hora do sacrifício. Enquanto Hippolyta e Ji-Ah desenhavam os símbolos de proteção, eis que acontece o inesperado e devastador plot twist, descobrimos estupefatos que Christina matou Ruby e assumiu a sua identidade para se infiltrar e sabotar os planos de Atticus e companhia. Ou seja, Ruby na verdade era Christina usando a poção de metamorfose; confesso que não esperava por essa reviravolta e também não contava com a morte de Ruby nesse final, achei tudo muito jogado em cena, acho que Ruby merecia mais e melhor, inclusive uma reconciliação verdadeira com a sua irmã. A cena da luta entre Leti e a fake Ruby foi bem empolgante, mas o desfecho com a nova morte de Leti me deixou bem tensa. Nessa sequência o meu coração quase parou, por sorte que a louca da Christina manteve a promessa que fez a Ruby de não matar Leti, por isso, ela restaurou a Marca de Caim da moça, o que possibilitou o seu retorno. Ver Leti ressuscitando me deu uma alegria indescritível e eu soltei a respiração que eu nem sabia que tinha prendido. Leti é a patroa! Dona e proprietária de Lovecraft! Ela é a detentora da Palavra e continuadora do legado. Que personagem, senhoras e senhores! Como não nos apaixonarmos profundamente por uma personagem dessas? Leti é uma força da natureza e, como dizem, ela faz tudo! Jurnee Smollett tem brilho próprio, ela é vibrante e envolvente. Ela é a própria ancestralidade em movimento, mostrando que o fim também é o começo.

Enquanto os moradores locais subjugaram Montose, Ji-Ah e Hippolyta, vimos Christina se banhando no sangue de Tic durante o ritual. A partir desse ponto passamos a ver a força das mulheres de Lovecraft, sobretudo de Leti, que foi imprescindível em diversos momentos durante a temporada. Ela, com a ajuda de Ji-Ah, acreditou na força da hereditariedade para combater Christina, reduzindo a feiticeira a sua condição humana e perecível novamente. Mas, infelizmente, toda essa mobilização não foi suficiente para salvar a vida de Atticus. A nossa jornada com Atticus durante a temporada foi confusa, já que o personagem oscilava o tempo todo entre o que se espera de um herói idealizado e o que não aceitamos mais em matéria de atitudes em um homem, a intolerância e a agressão. Mas compreendemos de que material Tic é feito, entendemos a influência deletéria do meio violento ao qual ele foi submetido durante a sua infância, assim, perdoamos as suas falhas e agradecemos por ele ter ajudado a desencadear o processo de cura do seu pai. Já esperávamos a morte de Tic no final, portanto, isso não nos surpreendeu tanto, mas vê-lo sendo crucificado, evocando imagem de um Jesus preto, de um cordeiro que derrama o seu sangue para livrar a humanidade dos seus pecados foi muito forte. A sua despedida em forma de uma belíssima edição de imagens com algumas cenas bem marcantes foi muito impactante. No final, ele deixa uma carta para o seu pai que, entre tantas coisas, ele faz alusão ao livro O Conde de Monte Cristo e diz a Montrose que ele terá uma segunda chance, através do seu filho,  de ser o pai que sempre quis ser. Ou seja, o perdão e a conciliação, mesmo que tardiamente.  Jonathan Majors, um ator surpreendente, que interpretou um personagem que precisou de uma aldeia inteira (os demais personagens) para educar a sua criança, quebrada pelos abusos e pela violência.

A tristeza de Montrose pela perda do filho foi algo que cortou o meu coração, principalmente depois que vi no episódio passado tudo que ele teve que renunciar para ser o pai de Tic. Começamos a nossa jornada com Lovecraft detestando Montrose e, em alguns momentos, chegamos a desejar que ele tivesse morrido no lugar do Tio George, mas a vida é engraçada as vezes e faz essa volta de 360 graus e nos coloca de volta ao ponto de origem. Com o tempo, passamos a entender a gênese dos traumas de Montrose, com isso, apesar de não concordamos com as suas posturas, o aceitamos e o acolhemos com todas as suas feridas e complexidades. Se lá atrás odiávamos Montrose, agora, sabendo tudo que sabemos, só temos a vontade de colocá-lo em um potinho. Exaltemos o estupendo trabalho do ator Michael Kenneth Williams, por nos entregar um personagem pouco carismático, quebrado, moralmente cinza, complexo, porém, apaixonante. Desejo um Emmy para ele!

Não se enganem, Christina era racista sim. Só porque acompanhamos mais de perto a sua história e compreendemos que a sua principal motivação era a busca pelo poder absoluto através da imortalidade e não os horrores impostos aos negros sob a Lei de Jim Crow, isso não a torna menos racista. Ele pode não fazer parte do grupo de Titus, que criou uma Ordem exatamente usando os corpos negros de acordo com a sua conveniência; ela pode não fazer parte das pessoas que mataram Emmett Till covardemente ou das pessoas que atearam fogo em Tulsa durante o massacre, no entanto, ela faz parte do pior tipo de grupo de pessoas, o grupo que se utiliza dos negros para os seus propósitos escusos como se essas pessoas fossem meras peças do seu grande tabuleiro de xadrez, usando o falso argumento sorrateiro de que até tem amigos negros ou que se relaciona com pessoas negras. Não existe esse negócio de mais racista ou menos racista, essa escala é um falso axioma construído por pessoas que querem naturalizar ou negar o próprio racismo.  Posso não concordar com a sua bizarra morte, sobretudo porque ficou a cargo da menina Dee a executar com a sua mão robótica, mas entendo que não existia caminho redentor para ela, a leitura do livro feita por Dee deixou clara a necessidade de destruir a hierarquia dos feiticeiros através do derramamento de sangue.

Faço uma pausa aqui para exaltar o trabalho de MISHA GREEN, a principal mente por trás desse show. É preciso nomeá-la com letras garrafais. É preciso falar o seu nome em voz alta para materializar a sua presença entre nós, na nossa época.  Será que ela tem noção que criou algo inovador? Será que ela sabe que criou uma das séries mais importantes dessa época e de muitas épocas a frente? Será que ela se deu conta que promoveu uma reparação histórica de fatos esquecidos ou apagados intencionalmente? O nome dela é Misha Green e merece todo o crédito e todo o respeito por ter concebido um produto televisivo tão inovador. O final da série foi diferente do final do livro e foi escrito pela própria Misha, em parceria com a roteirista Ihuoma Ofordire.

Precisamos ser realistas, Full Circle nem de longe foi um episódio perfeito, muito pelo contrário, ele foi corrido, apressado, com excesso de explicação para preencher (sem conseguir) as lacunas deixas no decorrer da temporada e esteve abaixo de alguns outros capítulos, no entanto, Lovecraft Country nunca teve a pretensão de ser perfeita, ela não foi feita para agradar ou tornar as coisas mais palatáveis. A série foi feita para, parafraseando as palavras de Alexandre Dumas: fazer o indivíduo esperar e ter esperança. Essa série foi feita para falar sobre destino, sacrifício, ancestralidade, reparação e legado e isso ela fez de forma espetacular ao longo da sua jornada. Precisamos aprender a conviver com a certeza de que nem sempre teremos respostas para todas as coisas, que nem sempre tudo será tão perfeito ou explosivo como esperávamos, mas isso não invalida os méritos da experiência adquirida durante a jornada.

Em uma decisão ousada e controversa, o show nos diz que a magia é nossa. Sim, ela é nossa.  Mas compreendo que ela não é nossa tão somente como um elemento alegórica e utópico. A magia, nesse último episódio de Lovecraft Country, toma uma conotação metafórica, porém real, quando o poder é devolvido para quem de fato o merecia, por conta dos traumas oriundos do preconceito, do racismo, da homofobia, da lesbofobia, do sexismo, do machismo e das barbáries históricas. Assim, o poder retorna para as mãos do povo preto, que foi usurpado, sequestrado e escravizado, mas ele, o poder, em uma dimensão ainda maior, é devolvido para os gays, as lésbicas, os não brancos, as mulheres, enfim, todas as minorias que foram perseguidas, castradas quimicamente, queimadas nas fogueiras da inquisição, aviltadas e saqueadas enquanto eram apedrejadas e linchadas ao longo da história sangrenta do mundo. Não há mensagem mais forte para finalizar essa série do que uma mensagem de esperança e de fechamento de um ciclo, o que outrora era reservado para poucos escolhidos e privilegiados, agora está bem ali ao alcance das nossas mãos. Com esse final, Lovecraft também diz: cortamos o ciclo de privilégios e o poder daqueles que nos oprimiam; sufocamos e matamos alegoricamente a empáfia daqueles que achavam que eram detentores do conhecimento e dos meios para nos subjugar, agora é a nossa vez! A energia dos nossos ancestrais nunca desaparece.

Chegamos ao final de Lovecraft Country – até que se prove o contrário -, mas apenas começamos esse novo capítulo das nossas vidas, agora que sabemos da atemporalidade de todas as nossas ações, temos a obrigação de fazermos no presente tudo diferente do que fizemos no passado. Gratidão imensa pela companhia de vocês durante a cobertura de Lovecraft, pelos comentários respeitosos e construtivos e por todo o carinho que recebi nas minhas redes sociais.

REVISÃO GERAL
Nota:
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lovecraft-country-1x10-full-circle-season-finaleChegamos ao final de Lovecraft Country - até que se prove o contrário -, mas apenas começamos esse novo capítulo das nossas vidas, agora que sabemos da atemporalidade de todas as nossas ações, temos a obrigação de fazermos no presente tudo diferente do que fizemos no passado.