
Programa dos sonhos!
Spoilers Abaixo:
É tido como senso-comum que, em determinado momento da vida do homem, ele tem a infelicidade de descobrir que deve escolher entre a carreira ou a vanguarda. Evidentemente, existe uma dose de exageros, principalmente por grandes realizadores conseguirem os dois ao mesmo tempo, mas é um dilema persistente não apenas nas artes, mas em todo ser-humano na escolha de determinada carreira. O formidável arco composto por “Late Show” traduzem justamente esse sentimento, trilhando um caminho inusitado ao abordá-lo sem a menor pitada de auto-ajuda.
Os acontecimentos aqui retratados são uma continuação pura de “Late Show Pt. 1”, trazendo um Louie de volta a Nova Iorque e, ao menos em tese, procurando se estabelecer como o substituto do lendário David Letterman. Mas como é esperado do próprio personagem, esse caminho é hesitante, incerto, motivado mais por sua insegurança consigo mesmo e a necessidade de aprovação alheia.
A primeira cena é fundamental para que o episódio possa funcionar adequadamente, trazendo uma conversa sincera entre o protagonista e sua ex-esposa Janet (Susan Kelechi Watson). O mérito da cena consiste com apenas um diálogo traduzir toda a relação dos dois e mostrar como Janet conseguiu amadurecer e se desvincular profissionalmente do dinheiro do marido, enquanto este passou anos estagnado como um mero ator de stand-up, funcionando quase que uma eterna criança na relação conjugal. Além disto, a cena consegue dar um estímulo que faltava para a empreitada no emprego utilizando um elemento básico da série: Se Louie não irá fazer isto por ele mesmo, pelas filhas com certeza irá abdicar de todos os seus ideais de carreira.
“Late Show Pt. 2” consegue trazer uma premissa e a explorar ao máximo, adotando uma estrutura que oscila entre os testes para o estúdio e o dilema sobre se está tomando a opção correta. Longe de funcionar como dois aspectos separados, as duas tramas se unem organicamente em uma relação unívoca, onde para compreender o aspecto pessoal que está sendo retratado, é necessário perceber a mediocridade profissional que o comediante está se submetendo. A cena do boxe, neste sentido, consegue ser uma bela metáfora sobre como Louie se encontra no presente momento, tendo que abandonar todo o lugar comum sobre o qual está condicionado e procurar realizar algo completamente novo e, por isto, desafiador, doloroso e frustrante.
As constantes intervenções que pede de outras pessoas são um claro sinal de estar procurando um motivo real para a desistência. É por isto que o discurso de Leno consegue, mesmo sendo uma clara manobra para evitar um concorrente, ter uma grande sinceridade sobre o que é a vida de um apresentador de talk show, em nenhum momento surgindo como uma mera manipulação sem fundamento. Mas é uma perda de qualidade que boa parte dos profissionais estão dispostos a se submeter caso tenham o convite, pois de nada adianta ser reconhecido e possuir um futuro incerto, no qual possivelmente sequer poderão desfrutar do básico. É por isto que o establishment é tão sedutor, por dar uma estabilidade jamais sonhada até a aposentadoria, mesmo que em troca de sua alma.
A grande sacada do episódio, no entanto, é a de conseguir aproveitar esta situação com uma participação especial inusitada, entregando um David Lynch (realizador de Twin Peaks e um dos melhores cineastas da atualidade) inspirado. O seu personagem possui um toque metalinguístico muito forte, por estar presente em uma situação que beira o surrealismo para o protagonista. Alguém que está acostumado com o stand-up, onde o reconhecimento se dá através de um humor observacional e sagaz, claramente encontra resistência em um mundo de tempo escasso, piadas de gosto duvidoso e aplausos vazios. Não é à toa que, em um episódio particularmente mais triste que o normal, as doses de humor funcionem justamente nos momentos em que Lynch e C.K. se encontram juntos em cena, traduzidos tanto pela situação quanto pela personalidade apropriadamente antipática de Jack Dall. Destacando-se neste aspecto a brilhante cena em que o agente ensina a Louie como começar um show, no qual o timing cômico é obtido justamente por ser uma situação inimaginável pelo pouco que foi conhecido do sujeito, a ponto de mostrar que até uma figura sem a mínima preparação para a comédia poderia exercer a função e ser bem-sucedido.
Adotando uma estrutura que investe fortemente no drama, até mesmo para os padrões de Louie, “Late Show Pt. 2” prossegue com um arco que vem se mostrando excelente, dando um rumo para o fechamento de temporada jamais obtido pela série nos anos anteriores. Quem se beneficia com isso é só o espectador.














