Família… como não amar?
É curioso como novamente estamos no penúltimo episódio da temporada e, no mesmo momento do ano anterior, contamos com a participação da ilustre e classudíssima Dana Murray, também conhecida por Paddy como “mamãe”. Eu sempre torci para que ela desse novamente o ar de sua graça e fiquei bastante feliz com isso. Sua interação com os personagens da série continua satisfazendo todas as minhas expectativas. Mas, ao contrário do que aconteceu na primeira temporada, Looking for Sanctuary está bem longe da fluidez e da organicidade do episódio de estreia da personagem.
Todos os arcos do episódio trazem algo bacana e interessante para nosso entretenimento e/ou reflexão, mas também estão sempre permeados por uma clara noção de que aqueles personagens só estão dizendo ou fazendo certas coisas porque os roteiristas assim desejaram. Este é o principal motivo por que já consigo dizer sem medo que a qualidade da segunda temporada caiu consideravelmente em relação à primeira, quando absolutamente tudo exalava realismo e naturalidade.
Peguemos como primeiro exemplo a briga entre Dom e Doris. Dom foi tão babaca, mas tão babaca, dizendo “por que você me deu um dinheiro que não é seu?” e tentando colocar a culpa de sua falta de responsabilidade na amiga que fiquei sem reação ao ver a cena. Os mais lenientes com o roteiro de Looking provavelmente diriam que esse rompante foi apenas o estopim do seu sentimento de abandono em relação a Doris, explorado no episódio anterior. Mas não há conexão alguma entre uma coisa e outra, e o que se vê é uma clara manipulação do roteiro para criar conflito. A justificativa de Dom ao se desculpar é tão fraca (“Eu fico meio doido quando alguém tenta me ajudar”) que fica impossível culpar Doris por sair de casa. Até porque, no fim das contas, ela em razão: existe uma codependência tão negativamente fora do comum envolvendo a amizade dos dois que esse afastamento precisava mesmo acontecer. Infelizmente, aconteceu de maneira um tanto artificial, mas espero que como consequência desse arco possamos colher bons frutos dos dois personagens no último episódio.
Já Agustín e Eddie acabaram nos dando o arco mais consistente do episódio, ainda que a frescura do ex-artista de não querer pintar o muro do abrigo tenha sido uma bobagem sem tamanho. O reencontro com Frankie foi divertido por motivos óbvios: Agustín passou por uma rehab dramatúrgica tão assustadora que até a própria série resolveu fazer piada disso e mostrar o quanto alguém que só o conhecia da temporada passada ficaria pasmo ao ver a pessoa que ele se tornou. A única coisa que me desagrada, de leve, em relação a isso, é o fato de que Frankie foi pintado pelo roteiro de maneira tão antipática, com um ar tão semivilanesco, que não consegui evitar a sensação de injustiça em torno dessa decisão. Honestamente, Frankie foi um santo por aguentar Agustín por tanto tempo, e não deveria ser retratado como nada diferente disso.
A beleza desse arco fica por conta da revolta completamente injustificada de Eddie para cima de Agustín. Quero dizer, quando a gente se torna #TeamAgustín numa briga é porque a coisa realmente está feia para o outro lado, certo? A série reformou tão bem o cubano que ele finalmente se tornou alguém digno da nossa empatia e da nossa compreensão, o que há um ano poderia ser visto como um milagre inalcançável.
Eddie foi a pessoa que exigiu uma relação não oficial, e portanto ele realmente não tinha direito nenhum de exigir ser chamado de namorado naquele caso. Ao mesmo tempo, também é possível projetar nossa empatia em direção ao urso. Talvez esse tenha sido o grande momento de epifania de Eddie. Talvez ele finalmente tenha percebido que, sim, já está pronto para se comprometer. Provavelmente foi necessário ver um ex-namorado hot do seu atual affair para que ele se enchesse de ciúmes e sentimento de posse e percebesse isso. E nada poderia ser mais Eddie do que pedir Agustín em namoro inventando “Javier Cristober” como nomes do meio. É o tipo da tontice que me proporciona diversão legítima. Vida longa ao novo casal, que foi e nos fez muito felizes nesta temporada! Se Agustín era o ponto fraco da primeira temporada de Looking, este ano a situação se inverteu.
Por fim, temos Paddy e sua família que em cinco minutos nos faz compreender todas as paranoias e inseguranças do protagonista. Tínhamos a mãe elite branca tradicionalista, o pai babacão homofóbico e, agora, conhecemos a irmã falsa moralista, uma séria candidata à personagem mais caricata que já passou por Looking. Tudo bem que colar no vestibular não é apenas algo extremamente improvável de ser bem-sucedido como também é difícil comparar com destruir um lar, mas se é com isso que a série decidiu desconstruir o moralismo de Megan, que assim seja.
Em primeiro lugar, não é coincidência demais essa ideia de que Jon saiu correndo para a casa da irmã de Paddy para chorar as mágoas depois do pé na bunda? Quero dizer, ok, a série já havia estabelecido a amizade entre Jon e o marido de Megan, mas aproximar tanto assim o ex de Kevin (que, vale lembrar, é um forasteiro na cidade e namorava Jon a distância) da família do protagonista me parece uma forçada de barra tão extrema que me fez me sentir vendo qualquer outra série, menos Looking. “Oh, estou vendo o pobre do Jon lá em casa devastado, chorando, porque foi chutado e nem sabe por quê.” Looking, na boa, menos, bem menos, quase nada. Até porque, vamos combinar uma coisa? Se nem agora Jon sabe a razão de ter sido chutado, depois de tudo o que viu naquela festa de Halloween, eu finalmente compreendi por que Kevin se cansou dele: excesso de burrice. Só pode! Mas vale dizer que nem isso torna o britânico menos covarde.
A parte interessantíssima dessa história toda foi ver que, por trás de todos os diálogos estabelecidos entre os membros da família Murray, há um claro jogo de interesses e apoios que nos faz perceber que também existe um quê de política e diplomacia nas relações familiares. Era extremamente conveniente para Dana aprovar o namoro de Paddy e Kevin diante da bomba que ela estava prestes a jogar em seus filhos. Da mesma forma, Paddy tinha a obrigação de apoiar a mãe em sua empreitada para abandonar o marido e começar um novo relacionamento, já que perderia qualquer moral caso agisse diferente.
É curioso ver Megan tentando se debater inutilmente para defender a sacralidade da instituição do casamento, mas meu coração foi tocado pela pergunta “Mãe, foi ótimo você ter cuidado do doutor quando ele enviuvou, mas quem vai cuidar do papai?” Eu sou totalmente a favor da bandeira de novos amores na terceira idade, mas perceber que seus pais não estarão lá para cuidar um do outro justamente no fim de suas vidas é, sim, uma ideia assustadora.
Também chamou minha atenção a perspectiva de Megan revelada durante as cenas no zoológico: Paddy acaba conseguindo se safar de muita coisa por ser gay, como se os pais (ou ao menos a mãe) estivessem agora tentando compensar por terem reagido tão mal à constatação da homossexualidade do filho no passado. Ok, um pouco surreal demais essa história toda, mas Looking consegue me cativar sempre que faz uso desse preconceito às avessas. É claro que isso é absurdo, mas, ao mesmo tempo, também sabemos que existe muito hétero sem noção que realmente acredita na tal da heterofobia.
O episódio finaliza com a decisão de Paddy de aceitar morar com Kevin, e passar o Natal com ele (até porque Megan baniu este último do Natal em família, deixando a decisão bem mais fácil). E, apesar de tudo estar parecendo lindo e maravilhoso e de o episódio ter aparentemente solidificado de vez a relação do protagonista com seu chefe, eu continuo realmente cético. Algo me diz que as chances de o último episódio não ter um final tão feliz assim são bastante consideráveis.
Assim, Looking for Sanctuary, com todos os seus defeitos, ainda é finalizado com um saldo positivo por nos lembrar de que Looking faz pelos gays algo que série nenhuma jamais fará: criar um universo em que a homossexualidade é o status dominante. Da mesma maneira como é crível ver todos supondo automaticamente que Malik é gay por estar olhando para o grupo até que ele se provasse hétero ao mostrar que o interesse era em Doris, esse universo distorcido de Looking faz parecer que discriminar héteros no trabalho ou transformar um filho no favorito da família por ele ser gay sejam de fato situações possíveis.
É um universo que tem até mesmo corretoras de imóveis (fãs de Mad Men e Desperate Housewives provavelmente reconheceram a ótima Christine Estabrook, e os de American Horror Story já devem achar que ela é uma corretora de verdade depois de vê-la reprisando o papel aqui) de mente aberta suficiente para ver um casal gay falando sobre trepar contra os vidros da janela. Ou um gay tão sem noção ao ponto de dizer ao pobre oprimido e desconfortável vendedor de colchões que seu namorado “likes it nice and hard”. Não é exatamente esse o mundo que eu quero quando exijo mudança e tratamento igualitário, e nem estou dizendo que Looking está viajando na maionese (visto que estamos falando de San Francisco) quando retrata cenas como essas. Mas, ainda assim, é gostoso fugir um pouco da nossa realidade para esse mundo paralelo em que os gays têm direito à desforra. É isso, na verdade, o que mais torna Looking uma série única, e o que mais a transforma numa obra que deixará um belíssimo legado e fará uma enorme falta caso seja de fato cancelada, como provavelmente será.















