A diferença entre paixão e amor.
“You gave me the fuck of my life.” Essa foi a frase que Kevin proferiu a Paddy no café da manhã que tomavam a dois, logo na sequência da noite que os vimos passando juntos no episódio passado. Que me desculpem os shippers de Kevin e Paddy, mas absolutamente nada ao longo de todos os 28 minutos do excelente Looking Down the Road (o melhor episódio da temporada até aqui, ao meu ver) foi mais revelador do que ela.
O título, aliás, foi uma excelente representação do ponto em que se encontram todos os protagonistas da série. Nosso Paddy, por exemplo, de repente se tocou em relação ao que realmente significa, a longo prazo, estar na posição de amante. Apesar do nome, o que uma pessoa sente por um(a) amante nunca será amor. Será um bom sexo? Sem dúvida. Serão conversas interessantes e momentos de fofura? Muito provavelmente. Mas será a incapacidade de aceitar qualquer possibilidade de perder a pessoa amada e fazer todos os sacrifícios possíveis para que isso não aconteça? Não. Não se faz isso por um amante. Só pelo oficial.
A paixão é traiçoeira dessa forma. Não que ela seja ruim, muito pelo contrário. Ela acende em nós uma chama intensa, e torna-se praticamente um combustível temporário da nossa vida. Sim, temporário. E esse é o problema. Paixões são momentâneas, são finitas, mas parecem infinitas em intensidade enquanto duram. E acabam sendo facilmente confundidas com amor, que é um sentimento mais calmo, mais seguro, menos intenso e muito, mas muito mais duradouro. Quase todos os amores começaram como paixões, é verdade. Mas também é verdade que a maior parte das paixões não faz essa transição.
E se havia alguma dúvida de que Kevin está longe de fazê-la, ela foi completamente sanada nesse episódio. Primeiro porque o chefe sempre parece dar ênfase no fogo, na intensidade, quando o assunto é Patrick. Quando Kevin diz “o que eu tenho com você, não tenho com Jon”, ele está longe de dizer que Paddy é melhor que Jon. O que ele está fazendo, inadvertidamente, é exaltar uma diferença: com Jon, estamos falando de uma relação estável, rotineira, cuja dinâmica já foi amadurecida pelo tempo. Paddy é a novidade, é aquela primeira fase de qualquer relação, uma fase da qual sentimos saudades na primeira crise ou momento de insatisfação com uma relação mais estável. É a paixão.
E, entre a paixão e um (possível) amor, é com o segundo que ficamos. É Jon que Kevin tem medo de magoar, de devastar. Se, para evitar isso, for necessário magoar e devastar os sentimentos de Paddy, que assim seja. Vai doer, claro. Kevin não é uma pessoa malvada. É apenas alguém que se deixou levar por uma paixão antes de perceber onde estavam seus sentimentos e suas prioridades. E, apenas por isso, Paddy fez muito bem ao rejeitar suas investidas. Esse é o teste final, na verdade: a não ser que a rejeição faça com que Kevin saia correndo e termine com o namorado para não perder o amante (possibilidade que considero bastante improvável), a decisão do britânico ficará clara. Prevejo, ainda, que Kevin possa voltar a correr atrás de Paddy depois de um bom tempo, depois que o namoro com Jon terminar por “causas naturais” (convenhamos, esse namoro já está fadado ao fracasso) e ele precisar de alguém para preencher o vazio. Aguardemos os próximos capítulos.
O curioso é que, no meio de tudo isso, Richie segue funcionando quase como uma bússola moral de Looking. É maravilhoso vê-lo novamente por cima da situação, conhecendo outra pessoa (MUITO mais interessante e carismática do que Paddy, diga-se de passagem – e acho que Eddie concorda!) e ainda assim sentindo-se na obrigação de dar, com toda a cautela e carinho possíveis, o melhor conselho: quando o assunto é o envolvimento com alguém “casado”, nunca é saudável se jogar demais. Não adianta, histórias como essa não acabam bem e pronto.
Também numa metáfora curiosa, Richie é a pessoa que chama a atenção de Paddy quando o protagonista sugere abandonar seu cabeleireiro para cortar sempre com ele (ah, o que a culpa não faz!). Lealdade e ética são duas características que Richie leva bastante a sério. Mas Richie ainda é gente, e a olhadela que ele deu para Paddy quando este último saiu da rodinha da balada para ver Kevin foi mais eficiente do que mil palavras. Agora que a reaproximação entre os dois aconteceu, resta ver o que o tempo nos reserva.
Quem também está contemplando seu horizonte amoroso é Dom, e novamente entramos na discussão sobre amores e paixões aqui. Lynn já amou. Já passou por todo um ciclo, e já perdeu seu namorado para a Aids (ou assim a série deixa implícito, pelo menos). A bagagem que o personagem carrega é imensurável, e é natural que ele se sinta como se já tivesse “cumprido sua cota” em termos de amor. Lynn não acha que seja capaz de amar novamente, então ele não se permite, ele tem medo de se envolver. Só vive paixões. Dom, por sua vez, depois de passar oito anos tentando superar sua frustração no amor com uma vida de pegação, agora precisa de mais do que isso.
Particularmente, estou com Dom nessa discussão. É possível que Lynn esteja certo e que não consiga mais viver nenhum amor, claro. Mas, no atual momento, não há como dizer que isso é verdade. Lynn simplesmente não se abre, não se permite, que é o primeiríssimo passo para quem quer viver uma relação significativa. Meu coração ficou um pouco apertado pelo casal, pois gosto muito de Lynn e não acredito que ele seja realmente incapaz de amar como pensa que é. Espero que a história dos dois não tenha terminado aqui e que Scott Bakula continue dando as caras ao longo da temporada.
A sorte de Dom é que quem tem uma Doris para acalentar o coração não precisa de mais nada. Neste episódio, a única possuidora de uma vagina do nosso elenco recebeu o papel que melhor desempenha na série, e para o qual nasceu: dar suporte ao amigo da melhor forma possível. Achei interessante usar o Kickstarter, que está tão em alta nos últimos tempos, como solução para Dom. Pode parecer um artifício fácil – e é, se não for bem trabalhado -, mas se a série souber abordar bem o processo de criar e gerir um projeto no Kickstarter, esse será um arco digno de elogios. Para quem está distante, parece até uma maneira mágica de ganhar dinheiro, mas não é bem assim, e seria bom a série mostrar isso.
Já Agustín contempla o futuro por um ponto de vista profissional. Nosso amargurado precisa descobrir o que fazer da vida, e nada mais justo e kármico do que colocá-lo para cuidar de um bando de adolescentes malcriados, espaçosos e irritantemente sinceros. Todos gays! Pra mim, Looking tem uma chance de ouro nessa trama, com possíveis abordagens focadas na filantropia para a comunidade LGBT e, claro, uma chance de mostrar um pouco da fase mais difícil para qualquer pessoa, que é infinitamente mais difícil do que a média quando se trata de uma pessoa gay: a adolescência. Acho que ver Agustín ajudando alguns desses meninos (e sofrendo um pouco nas mãos deles) é redenção mais do que suficiente, e vocês?
Enquanto isso não acontece, o jeito é torcer para que o latino não foda tudo na primeira semana (o tom de #Fikadika que Eddie usou para dizer “They are, so maybe don’t?” foi a coisa mais venenosamente deliciosa que Looking já produziu). Cruzemos os dedos, e até lá!














