É hora de começar a admitir as coisas antes que elas esmaguem você.

Não tem problema nenhum em ficar obcecado com um erro às vezes. Acontece e é natural. Eu, por exemplo, já esqueci todo meu bom senso quando, em mais de uma ocasião, enfiei na cabeça que podia lidar com os riscos de me aproximar de uma pessoa tóxica ainda que soubesse que ia me queimar. É simples entender… Eu fui magoado por alguém que eu gostava, mas a rejeição, de certa forma, deixa em pessoas com baixa autoestima, a suspensão da vontade, aquela necessidade de provar o contrário, provar que sim, valemos a pena. Então, vamos fingindo pra nós mesmos que com o tempo podemos superar a mágoa e tentar de novo, apenas para percebermos que assim que nos reaproximamos daquela área limítrofe, voltamos a sentir as mesmas fraquezas.

Vale lembrar que pessoas seguras não são assim, ok? Esse é um aspecto condicionado a quem se ferrou de algum jeito na vida, emocionalmente falando. Como tudo em Shameless é sobre ser ferrado em alguma instância, essa atração por pessoas e hábitos tóxicos é quase parte do DNA de cada um daqueles personagens. Toda a base dessa temporada, construída em cima da percepção e avaliação de comportamentos nocivos, também esbarra nessa ideia de que muitas vezes você está tão inclinado ao erro que se não cometê-lo perde a capacidade de se reconhecer. E o quão terrível não é perceber que acertar é quase o mesmo que fugir da própria persona?

Frank e o Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças 

Todos os outros personagens de Shameless erram sabendo que estão errados e sentem, ainda que pouco, a culpa ou pesar por estarem cometendo um erro. Frank não, esse aí alcançou uma existência em outra esfera. Ele já passou do ponto de reconhecer os enganos… Agora, é como se os enganos fossem quem ele é, simplesmente. Sendo assim, poderiam ser chamados mesmo de enganos? Não teria ele descoberto uma nova ordem social?

Depois de ter uma noite inteira apagada da mente, ele precisou lidar com o fato de que o “leite dos deuses” andou sendo meio bitch e o fez perder bastante grana. Só lhe restou uma saída, que foi procurar o pai maluco do doador de seu fígado, que tem uma relação pra lá de bizarra com o órgão do qual ele se considera aparentado. Notem como os movimentos de Frank são sempre os mesmos…Ele explora até o limite e depois passa pra próxima vítima. Foi dos filhos para Sheila, de Sheila para Sammy e de volta pra Sheila. Agora, os pais do doador são a nova moradia e o novo sustento do pilantra.

Em Rite of Passage já dava pra prever que ele acabaria levando a mulher do sujeito pra cama, embora vá se passar anos sem que eu entenda como Frank pode ser atraente em absolutamente qualquer esfera. Mas, vá lá…  A gente já sabe como funciona e como vai acontecer. Os que estão a volta dele vão sendo iniciados naquela vida de esmagamento de autoconfiança, de projeção deslocada de afeto, e o resultado a longo prazo é a incapacidade de viver sob outro impulso que não seja o de reafirmar o fracasso. Vejam o que aconteceu com Lip, colocando em risco todo o seu progresso apenas para não correr o risco de se sentir “fora do ninho”.

Ian e o Doce Veneno do Escorpião 

No episódio 4, que não pude resenhar antes, infelizmente, víamos Ian agindo de modo compulsivo com aquelas malas do aeroporto. Nesse ponto da narrativa, o drama dele está coadjuvando com os outros que o rodeiam. Não vimos nada ser aprofundado pela perspectiva de Ian porque ele ainda não se deu conta do que está acontecendo. Ele está privilegiando o prazer, a sensação de estar à flor da pele, o sentimento de familiaridade com a ausência absoluta de valores. Mas ele não é o foco nesse momento, o foco mesmo é a percepção de Mickey das coisas, e ela começou a surgir de uma forma incrível.

Sabíamos que as coisas iam ficar insustentáveis quando Mickey soubesse das traições… O cuidado e a competência desses roteiristas para lidar com esse personagem é sempre admirável. O valentão teve a prova de um chifre, mas teve o cuidado de descontar sua ira em um estranho, teve o cuidado de afogar as mágoas antes, teve o cuidado de agir estupidamente antes, para que quando chegasse em casa pudesse tentar focar no que estava por trás dessas traições todas. Quer dizer, se Ian o traía só podia ser por causa da doença e isso ele podia aceitar. Ver Mickey tentando foi até mesmo comovente e eu prevejo grandes coisas pra esse casal no resto de temporada que ainda temos.

Fiona em: Se Beber Não Case 

Não foi nada surpreendente ver Fiona achando que não podia interromper sua onda de euforia lá no episódio 4. Ela não estava sendo nada inteligente ou sensata, mas ela, de alguma forma, sabia que aquilo era exatamente o que ela tinha que fazer. Depois de uma busca discreta por responsabilidade, uma loucura precisaria vir para manter seu senso de própria identidade. Um casamento com um sujeito que começou a namorar há uma semana estava na lista de coisas imbecis que ainda não tinha feito. Então, ela fez.

Esse tipo de idiotice é muito mais comum do que se imagina e não demorou mais que outro episódio para isso ficar claro pra ela. Passado o momento de festejar-se tão ousada, veio a percepção de que ainda não conhecia o cara e nem podia conhecer em tão pouco tempo. O gesto acabou sendo tão vazio que foi perdendo importância e impacto conforme os dias passavam e os problemas surgiam como sempre. Fiona tinha uma irmã sendo agredida na rua, um pai se aproveitando de novas vítimas, uma amiga providenciando uma overdose inoportuna e de súbito, a ideia do casamento acabava soando mesmo como uma alegoria pautada em aventura, sem nenhum funcionamento prático.

A volta de Jimmy no final do episódio vai potencializar isso, sem dúvida. Ainda não sabemos quem é Gus e como ele vai reagir às pressões, mas elas virão. E quando isso acontecer nós vamos estar diante de uma Fiona que vai precisar admitir, de novo, que sabia o que não devia fazer. O problema maior é resistir ao impulso… Os Gallaghers não são bons em resistir. Nem às drogas que eles usam deliberadamente, nem ao senso de certeza de que eles não serão bons para nada, jamais, e que só poderão viver um dia atrás do outro, sem planos, sem objetivos, sem contentamento. Essa perspectiva é terrível, mas é como funciona nessa família: Eles não tentam cortar o hábito de repetir ritos de passagem desagradáveis, eles apenas sentam e esperam a vida aniquilar mais um. Então, convidam pra entrar e tomar um café, porque fracasso reconhece o fracasso, porque eles só ficam confortáveis com a sujeira. 

Another Dose: O plot de V e Kevin ganhou uma camada hilária com ela tendo um orgasmo epitelial na pista de dança e depois autorizando o marido a receber um handjob de uma estranha para balancear as coisas. Mas, a cena em que V não deixa ele subir para olhar as crianças que choram voltou a colocá-la no topo de escrotidões da semana. 

Another Dose 2: Apenas maravilhado com a ótima cena de Mickey dispensando Sammy no bar. Uma das coisas mais inesperadas e espertas que a série já escreveu. Mickey brilhou muito essa semana.

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