Retornando apenas três semanas após seu season finale, Lie to Me nem deu tempo para deixar saudades, mas faz um ótimo premiere. E mais alguém lembrou de Cães de Aluguel?

Spoilers Abaixo:

Em 1992, Tim Roth trabalhava como Mr. Orange no filme de estreia de Quentin Tarantino, Cães de Aluguel, um dos melhores roteiros não-lineares da história do cinema. 18 anos depois, o ator é protagonista de uma série de um canal aberto americano. Pros fãs do espetacular filme de Tarantino, ele sempre será o Mr. Orange. E, para abrir uma nova temporada, os roteiristas decidiram prestar uma homenagem não só ao filme como ao ator. E o resultado disso é muito bom.

No caso da semana, Lightman, revoltado por Foster ter congelado seus bens, vai ao banco e descobre que há um assalto sendo planejado ali dentro, utilizando de suas habilidades de reconhecimento de expressões faciais. Para impedir o roubo, se infiltra no grupo de bandidos, dizendo possuir a planta do banco e a combinação do cofre. Com o apoio da polícia, ele consegue simular o assalto facilmente, e assim prender a gangue. Foster, por sua vez, tenta descobrir o passado dos principais bandidos, Miller e Salinger. Enquanto isso, Loker faz entrevistas para os novos ajudantes de Lightman, e o mesmo consegue o apoio de sua antes desafeta Tenente Wallowski.

Lembro-me que critiquei severamente o season finale da segunda temporada por não trazer nada de especial, parecendo mais com um episódio comum do que propriamente um final. Aqui o que vemos é completamente diferente. Além da ótima homenagem, o caso tem uma premissa interessante, misturando bem o uso da ciência tão abordada pela série com elementos de ação. O próprio desenvolvimento do caso se dá de maneira elegante, sem que o espectador fique esperando pelo fim da trama. Aliás, o que é inteligente aqui é que, diferente de outros episódios da série, não há uma busca pelo culpado de alguma coisa. Pelo contrário, o único mistério aqui é o de quem cometeu o erro que custou a casa de Salinger, e esse é deixado em segundo plano, até porque não tem grande importância para o caso, e sim para a mensagem que o episódio quer passar, que é a de que sujeira jogada para debaixo do tapete tende a voltar ainda pior do que antes com o passar do tempo.

Voltando ao assunto principal do episódio, perceba como, apesar do caso não envolver nenhum mistério, a história consegue prender bem o espectador. Isso ocorre devido à cena em flashforward logo nas primeiras cenas. Recurso exaustivamente utilizado em televisão, esse é um daqueles truques que só dará certo se quem o conceber souber o que está fazendo. E é o que acontece aqui. Talvez a lembrança de Cães de Aluguel contribua para isso, mas a construção da história como um todo é feita de forma que isso ocorra. Aliás, por que a série não consegue acertar com seus finales mas sabe causar um bom impacto com seus premieres? Já é a segunda vez que isso acontece, e não pode ser coincidência. Fato é que o roteiro da série não consegue encontrar uma maneira manter arcos sem que a história fique perdida, o que é preocupante.

Já pelo lado dos personagens a coisa tomou um rumo completamente diferente do que eu esperava, confesso. A não ser pelo sumiço de Reynolds, que eu já temia que fosse acontecer, uma vez que era fato sabido que o ator não participaria mais da série e que o personagem não teve um desfecho apropriado na temporada passada. E pra quem esperava um romance entre Lightman e Foster (eu entre eles) se enganou redondamente. Quando ele esbraveja com ela dizendo que se ela mexesse novamente em suas movimentações financeiras a sociedade estaria acabada, o que ele quer dizer é muito mais do que isso. De maneira implícita, ele diz à amiga que não quer ninguém cuidando de sua vida, e avisa ao espectador pra não esperar que role algo entre eles. Isso significa que nunca irá acontecer? Claro que não, mas fica evidente que o personagem não pretende que ocorra, mesmo que tenha inegáveis sentimentos por ela. Por outro lado, Loker volta a ter algum destaque na história, mas soa mais como um respiro final de um personagem que se perdeu ao longo da segunda temporada. Além de um clima pesadíssimo com o chefe, o próprio Brendan Hines parece ter perdido o tesão de interpretar o personagem. Não acredito que continue por muito mais tempo. Além disso, tivemos a introdução de dois novos personagens. A mais interessante deles é a surda Sarah, interpretada por Shoshannah Stern (Jericho). Tenho muita curiosidade para ver como será o desenvolvimento dela na série, e acho que ela tem muito mais a acrescentar que Loker. Finalmente, Wallowski é a substituta original de Reynolds, e a considero uma personagem muito mais carismática e com potencial que o agente.

Homenageando seu protagonista e um dos grandes filmes da história recente do cinema, Lie to Me apresenta um premiere diferente, com um bom desenvolvimento, e, principalmente, buscando conseguir um novo folego que a série necessita urgentemente para fugir do cancelamento.

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