Os roteiristas da série ouviram minhas preces e deram mais destaque a um personagem importante pro equilíbrio da história. E com isso Lie to Me nos brinda com um episódio, que se não é sensacional, acerta em cheio na sua proposta.

Spoilers Abaixo:

Há semanas digo que a Torres precisava de um destaque maior na série. É a personagem mais humana e menos técnica do Lightman Group. Não que o pequeno destaque dado à moça tornasse esses últimos episódios ruins, pelo contrário. Mas era uma coisa que eu sentia que faltava. E aqui tivemos um episódio todo dedicado a ela.

Nessa semana, da mesma forma que em Sweet Sixteen, temos um caso “caseiro”. Ava Torres, liga desesperada para a irmã Ria, dizendo que corria perigo no reformatório. Pouco depois de Lightman e sua equipe chegarem ao local, sua amiga Marcy é encontrada morta. Toda a situação gira em torno de uma jóia valiosíssima, e como sempre a equipe entra na investigação para descobrir o responsável por tudo isso.

Mais uma vez a série investe na relação entre Cal e Emily. Reparem como nos últimos episódios houve um forte desenvolvimento nas habilidades de Lightman como pai. A primeira cena com os dois parece completamente deslocada do resto do episódio, quando na verdade o que vemos ali é uma preparação para uma pequena lição que o doutor aprende com o próprio caso, um recurso muito utilizado em séries do tipo. Além disso, Torres é retratada aqui como um espelho de seu chefe. Talentosa e explosiva como ele, ela comete o erro de envolver demais os sentimentos em suas análises, coisa que Lightman quase nunca faz. E no decorrer do episódio vemos Cal a ensinando a não fazer o que ele próprio faz o tempo todo: desconfiar. Muito embora as duas sejam irmãs, a relação entre elas é muito próxima a de uma mãe com uma filha, e Ria não confia em Ava durante um instante sequer, mesmo quando o próprio Cal já começa a acreditar nela. Ele teve o papel que ela costumava ter, e ela mostrou um comportamento parecido com o dele. E aos poucos os dois vão se igualando, até as duas cenas finais, precedidas por um ótimo diálogo entre os dois.

É realmente uma pena que a Monica Raymund não tenha talento o suficiente pra conferir a emoção necessária a sua personagem. Com exceção da última cena com a irmã, a atriz falha em conferir à Torres os sentimentos necessários para contribuir com a dramaticidade da situação. Apesar disso, sua atuação não chegou a ser ruim, não comprometendo portanto o episódio com isso. Mas é importante ressaltar que nas mãos de uma atriz mais competente Delinquent seria brilhante.

Com relação ao desenvolvimento do caso, novamente podemos perceber um grande cuidado, muito embora não fosse o essencial nesse episódio. A situação, embora completamente diferente do que já foi visto anteriormente, algo que já se tornou característico da série, não prende tanto a atenção quanto as anteriores, mas não chega a ser ruim. Além disso, na maioria das vezes, quando a proposta do episódio é desenvolver melhor seus personagens e focar-se mais na relação entre eles o caso da semana acaba ficando um pouco de lado. Isso não acontece aqui. A solução da investigação era bastante óbvia, uma vez que esse tipo de situação já foi vivida em inúmeras séries, mas não interfere na qualidade do roteiro, uma vez que não era o enfoque do episódio.

Além da relação entre Lightman e Torres, a relação dele com Foster também ganhou mais um capítulo dessa vez. Em um certo momento, fica evidente que há algum sentimento entre os dois, pelo menos da parte de Cal. Pra quem torce pra que haja um romance entre os dois foi uma boa notícia. Mas no final do episódio tomamos um belo banho de água fria ao vermos Foster recebendo a visita do psicólogo do reformatório, acompanhado de um buquê de flores. Não sei se estão querendo criar algum tipo de obstáculo para Cal e Foster, mas já não é a primeira vez que isso acontece. É necessário decidir logo qual será o destino e parar com essa enrolação, antes que isso vire algo parecido com o que vemos com Cuddy e House.

Já disse que o roteiro do episódio teve muita qualidade, mas é importante dizer também que a direção de Michael Zimberg foi excepcional. Principalmente na cena em que Warden é desmascarada. Como já estamos acostumados a vermos aquela sala de interrogatório iluminada de forma que não possamos ver quem está do lado de fora, nunca passa por nossa cabeça que os garotos pudessem estar do lado de fora. Esse recurso confere grande emoção a cena. Muito inteligente da parte do diretor.

Embora a qualidade dos episódios não esteja sendo afetada, começo a me inquietar com a falta de preocupação dos roteiristas com o desenvolvimento de alguma história que ligue os episódios. É possível criar uma ligação sem que a série perca a sua individualidade, e isso não me parece ser do interesse deles, o que pode causar problemas, uma vez que Lie to Me não possui grande audiência e vive lutando pra ser renovada. Talvez uma maior coesão entre os episódios pudesse atrair mais o público. A entrada da Clara pode mudar um pouco isso, e espero que na terceira temporada haja um maior investimento nisso.

Investindo um pouco mais no desenvolvimento de seus próprios personagens, Lie to Me deixa um pouco de lado sua fórmula, mas sem deixar que ela fique ausente durante o episódio. E o faz de maneira muito competente. Aprecio muito a regularidade que a série vem tendo depois do longo hiato. Pena que a audiência ainda não veio.

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