1984: sentada no sofá da minha sala, minha mãe esperava a novela da Globo acabar e colocava no SBT. Ela queria assistir “O Esquadrão Classe A”. A série criada por Stephen J. Channel e Frank Lupo (Battlestar Galactica entre outras) trazia o coronel John Smith (George Peppard), capitão Murdoch (Dwight Schultz), o tenente Templeton “Cara-de-Pau” Peck, (Dirk Bennedict, que ficou famoso por fazer o filme trash “O Homem Cobra”) e o sargento B.A Baracus (Mr. T, famoso desportista de luta livre na época). O quarteto havia servido no Vietnã e era perseguido por crimes de guerra. Mesmo com o horário avançado para uma criança – normalmente começava às 22h – eu sentava ao lado dela e ia curtindo, mesmo sem entender o que estava acontecendo na trama. Alguns anos depois a série virou filme com Liam Neeson e Bradley Cooper, entre os protagonistas.
Lembro-me que a dublagem era sensacional. Cada personagem era identificado por suas características. O tenente Peck, por exemplo, era o garanhão do quarteto e por isso recebia na dublagem um tratamento mais charmoso. Memórias que a gente nem tem como esquecer. Até hoje conheço pessoas que quando buscam temporadas de séries antigas “desejam” as vozes características das dublagens feitas pelas empresas nacionais. O trabalho dos profissionais – mesmo com todas as limitações técnicas da época – excedia em qualidade e os fãs de séries e filmes ficavam reféns de seus dubladores favoritos. Quem não se lembra do dublador de Eddie Murphy em “O Tira da Pesada” (que passava na Sessão da Tarde”) ou mesmo “a” voz de Bruce Willys na série “A Gata e o Rato” e posteriormente na franquia “Duro de Matar”? Na cabeça da gente, uma mudança de dubladores tirava as características do personagem. Alguém se lembra a briga que foi quando a FOX trocou os dubladores dos Simpsons? Há alguns anos são um dos mais bem pagos da TV americana.
Muita coisa mudou. Bastante coisa.
Os enlatados – expressão utilizada para se referir às séries vindas dos EUA/Europa/Ásia – diminuiram suas presenças na TV aberta no horário nobre. Alguns canais continuaram apostando nos quiz-shows, formato também importado e de bastante sucesso entre o público. O SBT ainda reservava algum espaço na programação como se viu nos anos seguintes a 1984 e mesclava a programação com novelas mexicanas, muito Menudo e buscando uma nova “Xuxa” para TV. A escolhida foi Mara Maravilha, atual “A Fazenda”. Os seriados japoneses eram os que possuiam mais força.
Com o advento dos canais a cabo, o universo se expandiu. Passamos a ter noção que, mesmo os desenhos, tinham temporadas. Que existiam séries policiais, hospitalares, dramédias, comédias, ficção-científicas… Surgindo um pouco antes do boom da internet, o “vício” ainda não era compartilhado com o furor e paixão dos dias de hoje. Depois que chegamos à banda larga de 1mb, a coisa mudou, pra melhor, diga-se de passagem.
Bem, o resto da história sabemos e vivemos, mas eu gostaria de falar sobre o trabalho não tão reconhecido dos legenders. E não, nunca fui e talvez nunca serei um. Por falta de competência e tempo, na mesma intensidade. Eles estabeleceram alguns paradigmas e transformaram aquele universo que eu disse ter sido expandido. Diria até que fazem parte de uma instituição que funciona no Brasil. Houve uma época inclusive, que travaram uma guerra contra os órgãos que combatiam a pirataria em nosso país. Paradoxalmente, se descobriu durante esta luta, que até alguns canais fechados se utilizavam do trabalho do pessoal. Chegaram a pegar crédito de legenders rolando na TV! Fantástico.
O trabalho de um legender não é fácil e talvez os seus “clientes” não tenham noção das tarefas e se sabem o quanto é “sinistro” o que essa moçada faz, deveriam valorizá-los muito mais. Em um tempo, não muito distante, no fervor de Lost, eu esperava a legenda sair para fazer um ‘merge’ nos úteis arquivos RMVB (popular na época) e jogá-los nos sites de hospedagem como Rapidshare e Megaupload e assim fazer felizes milhares de fãs da série. A sensação de poder disponibilizar o entretenimento para tanta gente, dava uma sensação de alegria, mesmo sem qualquer tipo de contribuição financeira. E na Isfree (site de downloads muito popular entre 2005/2008) isso aconteceu durante muito tempo. Estou me revelando? Sem qualquer arrependimento.
Isso no entanto só era possível graças ao esforço de quem esperava o episódio sair nos EUA, dividia-o entre os colaboradores e três ou quatro horas depois estava na internet para os fãs.
Sincronia, procura de expressões, muito sono e cansaço. Esse pessoal até hoje é responsável pelo sucesso dos seriados no Brasil. Quem não queria esperar um episódio de Dexter passar no canal, tinha o arquivo e a legenda para antecipá-lo muitas vezes em meses. Afinal de contas, o calendário nunca era compatível. Somente após anos com sucessos estrondosos como Breaking Bad, Game of Thrones e The Walking Dead, é que as transmissões passaram a ser simultâneas. Quantas vezes no trabalho comentava com um amigo: “Assitiu o episódio novo de Grey´s Anatomy?” e ele dizia “De qual temporada?”, “Da nova”, “Ah não… a Sony ainda está passando a terceira”. Tenho certeza que vocês tiveram este mesmo tipo de experiência.
Hoje estudando inglês e falando diariamente, sei que o trabalho dos legenders não é só fazer um translate. A fala de um idioma passa pelo pensamento de quem o diz. O pensamento de um falante de uma outra língua passa pela forma como ele se relaciona com o mundo e tem implicação com sua cultura e costumes. Diferentes culturas, falantes do mesmo idioma, encaram eventos de maneiras diferentes e assim vão se expressar com peculiaridade. Uma expressão que faz sentido nos EUA, muitas vezes não é nem um slang (gíria) para o britânico e uma fala comum para o canadense, tem um significado nada compreensível para aquele que fala inglês, mas que não o tem como língua-mãe, como acontece com os asiáticos. Portanto a legenda tem compromisso de fazer sentido para quem a lê, assim como a dublagem para quem a ouve.
Muita gente reclama de algumas versões do que é dito. Eu também era um desses. Não entendia porque o cara que legendou ou dublou (este sem qualquer liberdade criativa, apenas seguindo ordens), trocava um “Jimmy Kimmel Live” por um “Programa do Jô”. A questão é: preciso fazer que a cena faça sentido e que a importância do que está sendo dito não seja maior do que o contexto do script. Em míudos: se colocar o Jô Soares não vai mudar a essência do filme, que seja ele mesmo o contemplado para substituir seu colega norte-americano de talk-show.
Os legenders necessitam de um profundo conhecimento do idioma bretão e admiro quem diz que ele é fácil. Se a língua portuguesa, por exemplo, possui regras que só empregamos na formalidade do seu uso (como em provas, cartas profissionais, currículos e etc), o inglês é objetivo, com econômicas figuras de linguagem, menos romântico e repleto de “edições” na fala, dependendo onde você está falando. O cara do Texas não fala como o nova-iorquino, que não fala como o australiano, que não fala como o cara de Toronto.
Se eu digo que o trabalho da dublagem nos anos 80 foi fundamental para que o entretenimento de TV pudesse ter um alcance importante, os legenders são responsáveis por fazer com que pessoas não apenas continuem acompanhando suas séries favoritas (com a ansiedade arrefecida ou não), mas também pelo interesse de estudo da língua. Quantos conhecemos que foram aprender inglês através dos livros, dos discos (ops, cds), dos filmes e agora o fazem por conta das séries?
Se hoje você sabe o que o quer dizer “Winter is Coming”, seja grato a esta turma também.
















