Entre injustiças, perdas e separações, Fátima foi a única protagonista que conseguiu se reconciliar com o seu passado fora das veredas da vingança. A segunda história da trama de Justiça, desde a sua estreia, foi a que mais me agradou. Através dos acontecimentos que marcaram a dissolução da família de Fátima, vimos como a estabilidade e os laços familiares podem ser desfeitos num piscar de olhos, como vidas podem sucumbir por causa de um átimo.

O desenvolvimento desse “segundo final” foi muito bem bolado. Iniciamos com uma tensão que se elevou ao máximo, desde o momento em que Fátima é abordada novamente por aquele policial. De novo, Jesus vê a mãe ser levada para um destino incerto, só que, dessa vez, era mais indeterminado ainda, uma vez que a abordagem policial era de cunho informal. A extorsão policial volta como tema da história de Fátima, que foi vítima de um conluio de Douglas e seus amigos para ser presa sob a acusação de porte de drogas. Aos fardados, resta a imagem de pessoas aproveitadoras, que tiram tudo o que podem daqueles que estão abaixo da sua ordem de poder. Fátima não tinha quase nada para oferecer a eles: somente tinha a comida que vendia. Até isso, algo banal, uma quentinha, era objeto de desejo dos policiais, que se divertiam ao usar o distintivo como uma forma de soberania.

Desde que Fátima entrou no carro, meu coração ficou saltitando. O prédio vazio, o corpo no chão e a trilha sonora deram um caráter de thriller à cena. Nesse instante, testemunhamos como a crueldade humana é algo sem limites. Pedir para alguém atirar em uma pessoa já morta é, no mínimo, ultrajante, tanto para quem não está com vida quanto para quem está com a arma na mão. Todavia, a imposição do medo era o recurso mais próximo daquele policial para fazer Fátima curva-se a ele. A recusa da personagem a praticar este ato demonstrou a sua coragem e fidelidade aos seus princípios. Ser fantoche de policiais era algo que não iria mais passar por seu caminho. Após o desfecho desse momento, partimos para uma segunda parte do episódio, que traz um pouco de leveza, alegria e até comicidade para essa história, elementos ausentes na trama final de Elisa e Vicente.

A cumplicidade entre Fátima e Douglas, a personagem passiva da injustiça e o sujeito agente da injustiça, a meu ver, tornou-se algo crível, muito mais do que a relação forçada de Elisa e Vicente, que demorou para convencer e, quando convenceu, não foi de forma satisfatória. Fátima saiu dos sete anos de reclusão disposta a reunir a sua família, envolvida por um sentimento materno e por uma dor de perda que foram incompatíveis ao sentimento de vingança. Ela se preocupou com o vizinho, tanto é que lamentou a separação dele com a noiva para reatar o seu relacionamento com a piriguete. Uma das cenas mais lindas do episódio foi quando Fátima presenteou Douglas com o cachorro, que foi o mote de toda aquela confusão do passado. Ela sabia o quanto o policial gostava de cães e o presente veio para selar esse elo de amizade.

A conclusão da história de Douglas, por mais estranha que tenha me parecido, e me causado alguma surpresa, fez com que eu desse boas gargalhadas. Enrique Dias representou bem aquele tipo de homem meio ignorante que acha que comida verde é alimento de passarinho. Praticamente, ele largou a noiva porque não gostava das refeições que ela fazia. Gente, já vi isso acontecer! Pode crer! Essa foi, então, a deixa perfeita para o retorno da bitch Kellen. Tal como Perla, “na madrugada, abandonada”, a piriguete sabia que ainda balançava o coração de Douglas e resolveu ir atrás dele novamente. Nessa cena, um outro lado de Douglas é apresentado: o do tipo de homem que precisa de uma mulher para comandá-lo e, de certa forma, dominá-lo. Kellen o tinha em suas mãos. Por ironia do destino, a sua volta coincide com o retorno da presença de um cachorro. Assim que vi que a loira iria voltar, bateu aquele nervoso de que poderia sair algo terrível dessa combinação de vizinhança. Os roteiristas jogaram a tensão e, depois, a desfizeram com a partida do casal. Achei um ótimo caminho, pois, a essas alturas do campeonato, Fátima merecia um descanso. A despedida de Douglas com a vizinha foi bonita e presenciamos o quanto ele aprendeu a gostar dela, já que confiou a sua casa à amiga.

O final de Mayara/Suzy já era esperado e gostei da forma como encerraram o trajeto dessa personagem também. Já tinha ficado claro que a personagem não trabalhava na sauna apenas pela razão da busca de vingança contra Kellen: ela gostava realmente do que fazia. O encontro com Kellen foi ótimo, principalmente quando esta dispara que Mayara estava se tornando uma pessoa igual a ela. A garota teve um rápido momento de pausa e, talvez, reflexão, para buscar sentido na fala de Kellen. O lado bitch da piriguete mor projetou-se em Mayara/Suzy e fazia parte agora da sua personalidade. Ou seja, nem tudo em Kellen era rejeitado pela filha de Fátima.

Por fim, o final da família de Fátima foi feliz, naquela atmosfera de propaganda de margarina. De início, não gostei. Confesso que desejava que houvesse alguma bad. Porém, após pensar um pouco, agradou-me o fato de os roteiristas terem deixado a parte tensa pro início para, em seguida, distribuírem, aos poucos, as felicidades de cada personagem. Em clima de festa, a minha protagonista favorita da série teve o seu desfecho ao lado de um boy bacana e de seus filhos. Durante quase todo o seu percurso, Fátima aparentemente seguiu os ditos de um dos maiores filósofos latinos contemporâneos, o Seu Madruga: “a vingança nunca é plena, mata alma e a envenena”.

Bom, pessoal, e vocês, o que acharam? Curtiram o encaminhamento desse “segundo final”?

Do outro lado da review (Iury Viana):

A história de Fátima foi frustrante ao mesmo tempo que não foi. Ao passo que todos esperavam uma tragédia, a história simplesmente terminou de forma tranquila, com toda família unida e feliz. Não foi um final ruim, mas acredito que se tivesse terminado na semana passada poderia ter sido bem melhor. Tenho que admitir que ri muito com Douglas, e principalmente da parceria com Kellen. Os dois se pegando na frente de Irene foi cômico e trágico ao mesmo tempo, eu não sabia se ria ou ficava inconformado. Mayara gostando de viver na prostituição era algo que poderia ter sido explorado mais, e até Kellen falando que ela seria sua substituta, abriu margem para várias possibilidades. E eu simplesmente adorei a cena final ter sido em uma festa, e a letra da música que tocou no final casou bem com todo o contexto da história.

Take 1: “Querido, eu sou de câncer com ascendente em Beyoncé. Eu nasci pra brilhar”. (SUZY, 2016).

Take 2: Que fofo a Fátima ter tomado as dores da Regina e ter pedido demissão da casa da Elisa.

Take 3: Achei muito engraçada a cena de Kellen e Douglas no hotel. Os atores tiveram uma química incrível!

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Diogo Souza
Graduado em Letras-Português, Mestre em Literatura e Ensino, Doutorando em Estudos Literários, pesquisador das relações interartes entre a literatura e o cinema, cinéfilo, leitor de poesia, e às vezes cronista.