The Mistress Of All Agonies é basicamente um episódio psicológico, em que cada um dos personagens do núcleo principal é colocado em situações de manipulação emocional. Infelizmente nenhum destes personagens tem bagagem emocional para lidar com este tipo de temática. Danny começou a série como um tipo bem limitado de herói. Seu comportamento o forçou a expor diálogos abarrotados de sabedoria e frases prontas, como se este realmente fosse um personagem pronto para o manto do Punho de Ferro. Vê-lo hoje como alguém que nem ao menos tem conhecimento do potencial de sua maior arma é uma analogia bem próxima ao que a série é como um todo.
Existe uma falta de habilidade muito grande dentro de um roteiro que não sabe a extensão do seu herói e tão pouco parece interessada em fazê-lo. Quando começou Punho de Ferro parecia uma produção em que seu protagonista estava pronto e totalmente consciente do que conseguia fazer e até onde poderia chegar. Hoje, com a introdução do Bakuto e também de uma nova habilidade para Danny, é possível ver um distanciamento desta proposta inicial e a tentativa de criar outra totalmente diferente.
Se lá no começo estávamos encarando um homem feito e consciente, agora estamos acompanhando o desenvolvimento de um super-herói que nem ao menos tem noção de seus poderes místicos. É praticamente como uma decisão de última hora, focada em mostrar um novo tipo de trama, uma em que o protagonista está aprendendo. Essa abordagem, apesar de não ser ruim, seria mais adequada no senso tradicional da linearidade da proposta e é aí que o erro de não terem nos apresentado uma série de origem tradicional se torna evidente.
Acredito fielmente que a melhor das intenções foi tomada para com Punho de Ferro, uma que se adequou ao orçamento limitado e também com a obrigatoriedade de montar um panorama geral para a introdução dos Defensores. Entretanto alguns personagens precisam de uma história de origem tradicional para conseguirem atingir todo o potencial do material a ser desenvolvido futuramente. É essa explicação para que a Marvel continue criando filmes como Homem Formiga e Doutor Estranho, que seguem a trama do nascimento do herói de maneira bem previsível. Em alguns casos, apesar de já termos esgotado a proposta, é a melhor saída. Funciona não ter uma origem clássica se arrastando por vários capítulos com personagens mais famosos, como The Flash, mas não com alguém que o público não tem nenhuma afinidade ou conhecimento prévio, como Punho de Ferro.

A mudança do foco em cima dos vilões também tem se mostrado um erro comum em séries da Marvel para a Netflix. Luke Cage que começou forte perdeu muito da força que tinha ao riscar Boca de Algodão. Já a segunda temporada de Demolidor se tornou uma bagunça textual assim que perdeu o Justiceiro como principal antagonista do herói. Com Punho de Ferro o problema é bem similar. Até o momento não temos nenhum vilão definido e já estamos a 4 episódios do último capítulo do ano de estreia da série.
Harold, apesar de já ter demonstrado suas verdadeiras cores, não chegou a impor nenhuma ameaça real para Danny. Madame Gao funciona no momento mais como uma força de oposição e conflito do que realmente uma vilã propriamente dita. Sua capacidade para instigar conflito interno para Danny, Claire e Colleen é excelente, mas existe um pequeno problema quando nem mesmo a série sabe o que fazer com a personagem. Claro que o trabalho de David Wenham e Wai Ching Ho está sendo maravilhoso, mas a falta de uma definição clara do roteiro a respeito do que cada um quer é problemática, para dizer pouco.
Dentro do que Punho de Ferro decidiu fazer com seus vilões, especialmente com Harold, a discussão pode ser levada a outro ponto e tem conexão com a morte de Kyle. Não existe nenhuma consequência direta para o acontecido. A crueldade utilizada para riscar um personagem inocente de uma maneira tão violenta destoa, inclusive, da própria atmosfera da série. É bruta, da mesma maneira que o Wilson Fisk durante a primeira temporada de Demolidor, arrancando a cabeça de um dos irmãos russos com a porta de um carro, mas não casa de maneira alguma com a personalidade do personagem e também com o clima delimitado para a série.
A verdade é que Punho de Ferro gosta de brincar com seus personagens e também com seus telespectadores. Madame Gao é imune ao soro da verdade, mas mesmo assim, The Mistress Of All Agonies é conduzido através de uma abordagem sistemática e pessimista em cima de cada revelação da vilã, para logo depois terminar com ela rindo de tudo e todos, inclusive nós. É uma perda de tempo gigante, porque se a personagem está disposta a dizer a verdade e continuar manipulando, então não existe motivo racional para nos arrastar por uma trama que será resolvida em poucos minutos.
E em um mundo tão concentrado em jogadas e reviravoltas, o que realmente funciona é a relação entre pai e filho, mas não a de Danny e seu pai, como Claire e Colleen veementemente pontuam várias vezes como um desvio desnecessário para Danny, mas sim entre Harold e Ward. E quando a sua relação mais marcante não é entre o protagonista e o vilão, mas entre dois possíveis bad guys, então a estrutura está desmoronando e não de uma maneira interessante.
> Punho de Ferro, Crítica em Vídeo Sem Spoilers!
Easter eggs e outras informações em The Mistress Of All Agonies:
– Danny fez sua primeira menção ao dragão Shou-Lao, com a frase: “Você tem algo mais assustador do que um dragão em uma caverna?”. Shou-Lao é a fonte de poder do Punho de Ferro. Nos quadrinhos, para conseguir o poder místico, Danny precisou vencer o dragão e da vitória ele conseguiu muito mais do que a habilidade de invocar o punho, mas a sua tatuagem no peito.
– Kenji Osawa, avô de Colleen, existe na nona arte e foi responsável por seu treinamento e também por presenteá-la com a espada que a lutadora usa.
– Jessica Jones manteve negócios com Joy e foi responsável por tirar as fotos dos membros do comitê e suas amantes.
– Claire continua seu uso do bordão sweet christmas, uma leve referência a Luke Cage.















