A nova série do canal Freeform, The Bold Type, que teve em sua premiere um episódio duplo, começou com o pé direito. Inspirada na trajetória da ex-editora-chefe da revista Cosmopolitan, Joanna Coles, e bebendo de fontes como Sex and the City, a série acompanha três amigas ambiciosas – Jane, Kat e Sutton – que trabalham em uma famosa revista voltada ao público feminino e descobrem que frequentemente suas experiências profissionais vão se misturar com seus relacionamentos, desafios pessoais e vivências.
Jane (Katie Stevens, de Faking It) é uma jovem que está realizando o sonho de escrever para sua revista preferida, a Scarlet. Porém, ao finalmente ser promovida ao cargo de colunista perde toda confiança em si mesma. Afinal, escrever os artigos significa abrir e compartilhar sua alma para milhões de pessoas. Claro que isso seria algo extremamente difícil e assustador para qualquer pessoa e Jane sente esse peso nas costas. Principalmente porque ela reprime seus sentimentos e tem dificuldades de mostrar vulnerabilidade até mesmo em seus relacionamentos. Como se livrar desse medo de não só entrar em contato com suas inseguranças mais profundas, mas expô-las ao mundo?
Para salvar o dia chega Jacqueline (Melora Hardin, de Transparent), a editora-chefe da revista. Em sua primeira cena temi que ela fosse uma figura rígida e “desprovida de sentimentos” bem nos moldes de Miranda, personagem de Meryl Streep de O Diabo Veste Prada, porém fui surpreendido com uma profissional extremamente competente, que entende as responsabilidades de ser uma líder. É ela quem incentiva Jane a encontrar sua própria voz, motivando-a a enfrentar uma desilusão amorosa do passado e, na segunda parte do episódio duplo, a abraçar sua sexualidade.
Amei a cena do discurso na festa de 60 anos da Scarlet. Foi muito tocante e era exatamente o que Jane precisava escutar para recuperar sua confiança, mas também achei bastante inspirador para nós, telespectadores:
“E quero que entendam o que espero de vocês. Espero que tenham aventuras, que se apaixonem, que tenham seus corações partidos. Espero que transem com as pessoas erradas, que transem com as pessoas certas. Que cometam erros e peçam desculpas, que saltem e que mergulhem. E espero que falem um monte para qualquer um que tentar segurá-los”
Gostei muito da personagem e espero que possamos ver outros lados dela no futuro.
Kat, a segunda protagonista da série, interpretada pela atriz Aisha Dee, que vem de Chasing Life e Sweet/Vicious, duas séries canceladas. #MedoDaPéFrio. Kat é um bom exemplo de alguém da “geração millennial”, ou “geração Y”: sempre conectada, indisposta a sacrificar sua qualidade de vida pelo trabalho, questionadora e crente de que qualquer sonho é alcançável. Ela sabe quem ela é e está perfeitamente confortável com sua vida. Acredita não haver desafio que não possa transpor e por isso, não aceita quando a fotógrafa mulçumana e lésbica Adena (Nikohl Boosheri) proíbe que um artigo seu seja publicado na revista.

Para mim, o segmento de Kat foi o mais interessante do piloto, pois abriu espaço para ótimas discussões sobre preconceito, identidade, sexualidade e feminismo. Kat chega ao estúdio de Adena acreditando que a fotografa está intimidada com o grande número de pessoas que a revista alcança, já que o artigo poderia trazer uma exposição indesejada para alguém que admite ter uma relação complicada entre sua religião e sexualidade. Porém, Adena não tem medo da popularidade, mas sim de perder sua integridade ao ser publicada em uma revista a qual ela considera antifeminista, pois “só trata de roupas, maquiagem e garotos”.
Nesse momento a série mostra outro grande ponto positivo, que é introduzir, de forma muito orgânica e por vezes bastante sutil, o debate sobre o que é feminismo. Kat rebate as acusações de Adena afirmando que a Scarlet é “self-feminist”, uma espécie de autofeminismo, pois é feita para uma mulher que não está preocupada em simplesmente agradar seu parceiro e muito menos quer competir com outras mulheres por atenção, mas é alguém que procura agradar a si mesma. É uma revista sobre empoderamento. Sobre tomar o controle das mãos do patriarcado, se despindo das expectativas da sociedade sobre o que uma mulher deve pensar ou como deve se comportar.
As duas também foram protagonistas de outra cena memorável, que começa com Kat questionando o motivo de Adena ainda usar o hijab. A pergunta não tem nenhum caráter malicioso e entendo como ela pode achar que o “acessório” é símbolo de um movimento opressor. Afinal, o que muitos de nós “sabemos” do Islamismo é só o que vemos nos noticiários: ataques terroristas, fanatismo e opressão. Esse pequeno fragmento de informação a qual temos acesso nos leva a uma visão falha e preconceituosa sobre a fé islâmica. Assim, representatividade se mostra fundamental, pois ela gera conhecimento, afugenta o medo e quebra preconceitos.
A resposta de Adena a Kat, dizendo que usa o hijab e pratica a fé islâmica não porque é obrigada, mas porque possui poder de escolha, demonstra uma iniciativa admirável da produção em inserir uma personagem que não é apenas muçulmana, mas também uma mulher forte, progressista e orgulhosa da sua fé. Adena se recusa a ser colocada em uma caixinha e como isso é inspirador! No segundo episódio, Kat precisa lidar com o crescimento de seus sentimentos por Adena e estou clamando por um retrato sincero da bissexualidade. Chega de estereótipos e equívocos sobre o tema na TV!
Complementando o trio está Sutton (Meghann Fahy), que para a personagem que, a princípio, menos desperta nosso interesse. Enquanto Jane e Kat alcançaram o cargo que desejavam, Sutton ainda permanecia presa a uma posição inferior. Para complicar mais ainda sua vida, é revelado que ela tem um caso com Richard, um dos membros da diretoria da revista. Bastante clichê esse negócio de romance entre secretária e chefe, neh? Sem falar que Sutton é muito inconsistente, alternando durante o episódio entre o aparente desinteresse o desejo de um relacionamento serio com Richard. Se decide neh, amiga!

Não sei se devo esperar muito do casal (Richon? Suttar? Até as opções de nome para o ship são ruins). Felizmente, no segundo episódio o romance fica em segundo plano e a série foca mais na carreira da personagem. É bom ver como ela decidiu seguir seu coração ao rejeitar a oportunidade na área de vendas, optando por correr atrás de uma vaga no departamento de moda.
Os episódios inaugurais de The Bold Type nos apresentam uma produção antenada, divertida, com personagens carismáticas e que tentar criar uma identidade feminista e humanista, trazendo dilemas sociais presentes no dia-a-dia das mulheres (e homens também, por que não?). A série tem tudo para ser uma das melhores estreias desta summer season. É a dose de girl power que estava faltando na grade!
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The Bold Note 1: a edição comemorativa de 60 anos da Scarlet traz Demi Lovato na capa. Fiquei com uma pulga atrás da orelha porque tinha certeza de que já tinha visto aquela foto antes. Depois descobri que é a mesma foto de uma edição da Cosmopolitan que traz a cantora. Aprecio esse cuidado com detalhes.
The Bold Note 2: a conversa entre Kat e Adena sobre o hijab me lembrou muito de uma cena da série Skam (que você pode ver aqui). Mesmo se nunca tiver assistido à série vale a pena ver essa cena. É um diálogo excelente que traz reflexões maravilhosas e já figura na minha lista de melhores do ano.
The Bold Note 3: que exposição belíssima a da Adena! Se alguém souber se a personagem tem alguma inspiração real me conte nos comentários.
The Bold Note 4: que beijo foi aquele entre Jane e o Ryan no segundo episódio! Já estou shippando. Assim como Jane, o achei bem machista na cena do elevador, mas algo me diz que há mais sobre ele do que os olhos podem ver.
The Bold Note 5: já vou imitar a ideia das três amigas e ir extravasar as frustrações gritando no metrô na próxima vez que for a uma estação. Simplesmente amei!
Nota: 4 estrelas















